sábado, 1 de janeiro de 2011

novo carro de fogo

e
não foi assim há tanto tempo que ele
atirava pedrinhas num charco de inverno
e brincava na praia com o cão
e pedia pão por Deus no rebate da porta das vizinhas loiras e tão altas
e andava descalço pela estrada por alcatroar
e soltava o papagaio na praia
e comandava um carrinho teleguiado no passeio deserto
e roubava figos na quinta do Marquês
e partia vidros das varandas com a bola de couro e trapos numa grande penalidade falhada da qual nunca se arrependeu
e disparava chumbinhos  de uma porção de ar contra os pneus do carro da professora de matemática
e chateava a menina de sardas que se sentava à sua frente na aula de religião e moral
e descobria por detrás do pavilhão de ginástica o que fazer com a boca da boca
e

agora
ouve o gotejar de uma torneira mal fechada
"deixa cair é sinal que a casa tem fala"
abre a porta de alumínio que dá para varanda
e de pijama vestido com um copo de vinho velho na mão
assoma-se da noite nova

uma ambulância corre apressada
um cacho de pessoas de volta de um corpo
estendido na estrada
ela ainda jovem quase sem nada vestido
"abismos que se esvaziaram em álcool"
um corpo arrombado pela sobra
no alcatrão uma mancha líquida ao lado da cabeça dá o sinal 
as pessoas gesticulam aflitas 
os paramédicos afastam as pessoas mas não calam os gritos
a festa adormeceu realidade

ele deixa cair o copo do terceiro andar até à estrada
mais um estilhaço explosão que ninguém nota, mais um. 

fecha a janela
desliga a televisão
e os concursos onde todos perdem alguma coisa.

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