segunda-feira, 29 de agosto de 2016

Em busca do cortiçol-de-barriga-preta (Pterocles orientalis)



Partimos de Lisboa com a confiança de que seria desta que fotografávamos o esquivo cortiçol-de-barriga-preta (Pterocles orientalis). Com o ar condicionado do carro a funcionar quando lhe dava na vontade, fomos audazes quando rompemos a membrana de calor que fustigava a cara, e de sorriso na estrada e com a bandeira portuguesa à janela, enfrentamos a tórrida tormenta. Poucos minutos de depois a geleira deixou de funcionar mas as bebidas continuavam frescas. Conduzimos em direcção a Reguengos de Monsaraz onde parámos para almoçar umas suculentas bochechas de porco preto, regadas com cerveja fresca para combater os 38 graus que derretiam a paisagem. O restaurante estava fresquinho e quase não apetecia sair de lá. Quando voltámos ao carro o choque térmico foi drástico mas encarámos o restante percurso até às margens do Alqueva com o mesmo sorriso de descobridor de terras em brasa.

Minutos depois parámos em Mourão para abastecer a dispensa de líquidos no único local aberto ao publico que resistiu a aridez do isolamento. Gostei de ouvir uma senhora octogenária a contar que o pai não a ensinará ler e por isso abdicava do comprovativo de compras do supermercado. A senhora saiu para o calor com mais rapidez de qualquer um de nós. O tempo que passa torna cada vez mais belas as árvores que nos ensinam, sem nos querer ensinar, com o luto da sua sombra. Depois disto encontrámo-nos com o nosso guia que nos levou à charca, entre Villa Nueva del Fresno e Mourão - entre duas terras e bandeiras irmãs. 

Afinada a estratégia começamos por molhar os pézinhos e depois entrámos na lagoa.

Foi a minha primeira vez que vesti um facto de mergulho de 3 milímetros e não foi tarefa fácil mas é assim que se descobre onde temos que cortar nas nossas misérias adiposas. Já de fato de mergulho vestido, o calor era intenso e com esta segunda pele tão apertada só apetecia estar dentro água e assim foi. Entrámos no hidrohide e demos início a uma viagem de reconhecimento do local e de habituação ao novo disfarce aquático. As dimensões do lago perfaziam o tamanho de um campo de futebol, calcorreamos o perímetro sem perder o pé.




E eis que chegaram os primeiros passeriformes. Nas margens um bando enorme de pintarroxos refrescava-se enquanto as cotovias de poupa investigavam o que se escondia por debaixo das pedrinhas.




Infelizmente, do outro lado do lago, poisou um Milhafre-preto (Milvus-migrans)  a mais de cem metros esta foi a fotografia possível. 


Do outro lado da lagoa um mergulhão-pequeno (Tachybaptus ruficollis) brincava as escondidas.


Com o evoluir das horas chegaram os abelharucos (Merops apiaster) em voos rasantes pelas águas calmas.


Alguns sinais flutuavam na calmaria e quando olhámos para trás, no outro lado da lagoa, no meio da vegetação, aproximavam-se os cortiçois-de-barriga-preta (Pterocles orientalis). 
Curiosamente deslocavam-se para o local onde os pintarroxos estavam a beber.
Dentro de água não havia tempo a perder, fiz dos pés leme e conduzi o hidrohide rapidamente para próximo da margem.










Antes que conseguisse chegar perto, os bichos saciaram a sua sede e debandaram. Eu fiquei a contemplar a cena. Mas não por muito tempo, uma vez que no ponto diametralmente oposto da lagoa, a acção em torno das margens era marcada por 3 aves bem disfarçadas por entre a vegetação.
Estava longe e ia perder muito tempo ao tentar aproximar-me. Por isso escolhi fazer um enquadramento que envolvesse o meio ambiente. Contudo era complicado focar os bichos por entre a vegetação cerrada. No final pontificou a paisagem e os reflexos dos seus habitantes escondidos.





No intervalos entre a espera e o ressurgimento, entretinha-me com as libelinhas que graciosamente poisavam na vegetação perto das margens, como é o caso desta Trithemis annulata.


Orthetrum cancellatum parecia um atleta olímpico de salto com vara.


E o Orthetrum trinacria tentava manter o equilíbrio. 


Enquanto a Ischnura graellsii deslizava entre as águas.


A luz caiu e nós fomos para a base descansar com a esperança de um novo dia cheio de revelações. 



No segundo dia voltámos com a lição estudada e esperámos pelo regresso das aves.
Por entre a vegetação espreitou uma graça-boeira (Bubulcus ibis) nada espantada com os visitantes disfarçados de anfíbios experimentados.


Depois, sem se ouvir qualquer silvo de alerta, surgiu o tartaranhão-caçador (Circus pygargus) que fez debandar qualquer passarinho destemido que ousasse cruzar o mesmo canto céu comum.




Levantou-se uma nuvem de poeira num cavalgar em crescendo melodia a trote. A paz da lagoa foi interrompida pela invasão de um enorme rebanho de gado, tão sedento quanto e incontrolável, que depressa cercou as margens, sôfregos quase saltavam uns por cima dos outros na ânsia de chegar perto de água.  O cerco das ovelhas não deixava de ser caricato, impávido permaneci dentro de água observando as manobras, entre o balir e o pó, muito pó... 




Já a luz escasseava quando uma fêmea de cortiçol se aproximou para beber,
e assim fica registado este momento de sorte, espera, condensado num fio de luz.





Depois foi o regresso a casa com os olhos na estrada e nas histórias que embalam o sol.



Devido aos seus hábitos esquivos e crepusculares, estes bichos quase sempre passam despercebidos por entre a vegetação e como tal não são nada fáceis de observar ou fotografar.  Por agora estas foram as fotografias possíveis. Hei-de voltar a tentar.

Deixo aqui uma palavra de agradecimento ao meu amigo destas maluqueiras José Frade e ao Alfonso Pérez del Barco e à Naturalqueva que tudo fizeram para que conseguíssemos melhores resultados.



segunda-feira, 22 de agosto de 2016

BioMelides: Exposição na rua


A BioMelides saiu à rua. Até 15 de Setembro, venham descobrir a biodiversidade da Lagoa Melides, por intermédio de fotografias que saíram das paredes para ficar mais perto do vosso olhar bem no centro de Melides. O convite está feito. Esperamos por vocês! 









sábado, 13 de agosto de 2016

Fogos sem nome







arde-te a língua
promessa de não voltar
a remexer nas cinzas vivas
da ilusão.

já devias saber:
o confessionário da lágrima
não apaga incêndios.

quando é que aprendes
a não prenunciar o vazio que fica
depois do nome.

casas, terras, vilas, florestas,
até certas pessoas
são fogos assustadores.


terça-feira, 9 de agosto de 2016

Inacabado






fomos cinema, teatro, poema,
amêijoas de incerto manjar,
nepalês e de quando em vez,
japonês, sem saber dos olhos os porquês,
estrofe de sabor por degustar.

segredamos a fome da boca
na melodia das mãos e não só,
nós por desatar de uma vontade louca,
quietos, sem dançar, levantámos pó.

na palavra fomos estrada
da fotografia ponto de chegada,
mês sim semana não,
espera de barco sem mar,
ao olhar os pés sem chão.

brindámos à míngua da idade
com chá quente no inverno
e água das pedras no verão,
voz e candura, tal foi o clube de leitura, 
onde abrimos janelas em campo de videira,
portas sem par num farol de sol.

aqui chegámos desconhecidos,
na sombra ficámos confidentes
se o que de nós sobra é isto...
então gira o mundo inacabado.






quarta-feira, 3 de agosto de 2016

Leitura: Matadouro Cinco - Kurt Vonnegut






Aqui estou, vigilante e atento, depois da leitura Matadouro Cinco de Kurt Vonnegut. Reservo-me o direito de não gostar de livros de guerra, porém este é um livro diferente; onde o humor negro contorna os horrores da segunda guerra mundial com laivos de generosa singularidade, aquando do bombardeamento da cidade de Dresden. Esse terrível bombardeamento matou mais seres humanos do que a bomba sobre Hiroxima, a maioria civis. Por isso este livro é uma trincheira de defesa contra esta ou qualquer guerra, obrigando-nos a rir das facetas mais destrutivas do homem. Umas vezes com piada, outras nem por isso.



O nosso herói é um anti-herói e chama-se Bill. Ele não é elegante, bem-parecido, eloquente ou charmoso, por isso mesmo, assemelha-se a qualquer um erro humano desta vida. Extravagante e a bordo de um delírio de ficção-cientifica, Bill faz viagens no tempo entre 1945 e a sua juventude, intercalando com episódios da sua estadia num planeta distante, onde é exibido juntamente com uma actriz porno, num jardim zoológico para extraterrestres.



Algumas passagens:



" Queima-se uma cidade inteira, e milhares e milhares de pessoas são mortas. E, depois, este soldado americano é preso nos escombros por ter roubado um bule de chá. Fazem-lhe um julgamento normal e depois é morto por um pelotão de fuzilamento."
pág.14
"Falou de ter ficado volúvel no tempo. Disse também ter sido raptado por um disco voador em 1967. O disco era originário do planeta Tralfamadore, onde o exibiam num jardim zoológico, contou. Acasalou lá com uma antiga estrela de cinema terráquea chamada Montana Wildhack "
pág.33 " Perguntou a Billy qual lhe parecia ser a pior forma de execução. Billy não tinha opinião. A resposta correcta seria a seguinte:

- Enfias um gajo preso a uma estaca num formigueiro... estás a ver? Ele está a olhar para cima, e pões-lhe mel nos tomates e na pila, e depois cortas-lhe as pálpebras para o obrigares a olhar para o sol até morrer."

pág.42


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Estas são razões mais do que suficientes para este romance acompanhar-nos em dias quentes e darmos  graças por estarmos ainda de pé. E é assim.


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