domingo, 14 de março de 2010

(bic)



Aquela caneta era uma arma. em tempos foi o utensílio perfeito para cortar uma das veias primordiais. hoje esta caneta bic é o leme do meu diário de bordo. não mais tentei acabar com tudo e como estou melhor deixaram-me ficar com ela. assim, todas as semanas escrevo uma carta que coloco dentro de um envelope em cima do tabuleiro onde é servido o jantar. os homens estranhos, disformes de uniforme cinzento, recolhem o tabuleiro juntamente com os pratos vazios e o envelope. dias mais tarde recebo a mesma carta com o carimbo da repartição correios.

(bic laranja)

Ao ler as cartas que escrevo não consigo evitar a minha revolta pelo que passei. abro o envelope e amasso a carta para a projectar contra o crucifixo torto que enfeita a parede do quarto. o crucifixo ligeiramente descaído não reclama, apenas ouve e compreende a minha fúria momentânea. desconheço porque me escrevo semanalmente sobre tempo, os mortos, os amores, as horas das almas e as dores. talvez tenha medo que me roubem a memória. em tempos, quando a raiva falava mais alto, gritava tanto que os homens estranhos injectavam-me para depois inspeccionarem o meu corpo. despiam-me, revistavam-me e abriam-me a boca, como se fazia aos cães, obrigando-me a engolir uma cápsula que sabia tão mal. mais tarde era conduzido até ao tanque onde uma mangueira cuspia água fria e ameaças. ficava mais calmo, tão calmo quase inerte, sem oferecer resistência. acordava de manhã ao lado da cama, com frio, e contemplava durante horas a caneta bic em cima do maço de folhas em branco.

(bic laranja de escrita fina)

Recebo muitas cartas (as minhas) e poucas visitas (dos outros). sinceramente não me recordo de ter recebido um único amigo desde que estou aqui. mas não me posso esquecer das incursões dos homens estranhos, quando à bofetada me obrigavam a comer com talheres de plástico, quando me mudavam a roupa da cama e o pijama e me deixavam nu no corredor, quando colavam ao pulso, com cola de madeira, a pulseira com o meu nome, quando me davam banho no tanque e atiravam-me com grampos de metal nas costas e nas partes baixas, quando me obrigavam a mijar para dentro de uma garrafa de leite quer me apetecesse ou não. e no final de tudo isto, massacravam-me com perguntas para as quais não tinha resposta, convidando-me a beber um copo de leite morno antes de deitar.

(bic cristal de escrita normal)

Fiquei contente quando soube que estava quase livre. por isso resolvi escrever uma última carta. contudo, a morada seria outra, a rua e o número da porta um sonho que uma vez habitei. uma semana volvida tinha à minha espera um táxi que me levaria a casa. quando cheguei, lá estava a carta que tinha enviado. reli o manuscrito em silêncio, depois retirei os quadros da parede da sala. com fita-cola colei a carta bem no centro da parede, como se fosse um mandamento de um homem novo. antes de me fechar, parti a caneta bic com a qual fiz uma nova cruz e não mais me escrevi.

terça-feira, 9 de março de 2010

Café Poema 05-03-2010 - Poema Comum -



noite que noite de chuva e outros ecos
mas mesmo assim, casa-café-cheio de poemas e de tudo o mais que não cabia do lado de fora da voz. onde cada um contribuiu para a criação de um todo comum. onde cada qual fez do sorriso palavra e dos gestos estrofes em melodia, à sua maneira, verbo em calda poesia. a todos o meu bem-haja pela dedicação que empreenderam nessa noite onde nem a chuva arredou alma um pouquinho que fosse.
aqui está o vosso (nosso) Poema. ___________________________________________________________________

O AMOR NÃO É?...

O amor não é um silêncio de palavras
Amor não é um momento é a vida, não é algo que se crie num só dia
Os ouvidos do silêncio sangram por te ouvir
O amor é tudo
Amor que linda cidade de Roma
O beijo de uma mãe e de um amor profundo o filho que ela tem é o maior amor do mundo
Amor é louco não façam pouco desta loucura
Se tu vais levarás o meu coração
Posso não ser a lua que sonhas tocar posso nem sempre estar onde me queres encontrar
Depois do furor a paz na glória do Amor
O Amor é... Gostar de forma especial
De bem alto saltar e aprender a voar
Saboreia o calor dos meus lábios nos teus
O meu amor não morre parte mais cedo
Os versos infantis de uma criança têm a pureza de uma criança
O amor é uma tulipa aberta
Ai se eu pudesse abarcar tudo num só olhar...
Amor é uma ave
Rasga-se a luz na sombra das palavras
A razão dos sentimentos a alegria dos sentidos
Amor canta-me uma canção, escreve-me um poema, diz que me amas, amor sei que estarás sempre e para sempre aqui
Hoje não
Amor é uma flor que nasce sem rumo
"só sei que nada sei"
Amor é uma paixão no fundo do meu coração
Ouvir sentir desejar
Uma noite, um café no café, uma aguardente, um poema e um até...
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Assinado.::
05-03-2010 (de Poetas e tantos outros tantos)

DP Arte Fotográfica - Imagens com Palavras -




Feita de imagens com palavras, é assim a edição deste mês da revista DP Arte Fotográfica.

É com muita honra que vejo nela publicados os meus trabalhos de fotografia,
O Polvo e o Silêncio, tal como o poema A Mulher Aranha.

Desde já o meu obrigado a todos que tornaram possível esta edição.
SG