terça-feira, 21 de dezembro de 2010

1º Aniversário do Café Poema - as fotos - 05-11-2010





eu sei.. eu sei... então onde estão as fotos? perguntaram muitos de vocês. e eis que...

meus Amigos, foi uma noite cheia de emoções. o primeiro aniversário do Café Poema foi feito de Alma e Poesia dentro e fora das palavras. como tantas outras coisas boas da vida, venham de lá esses sorrisos. 












quanto ao Monólogo da Espera, textos e fotos, é  já... já... a seguir!

(antes do próximo Café Poema)

Monólogo da Espera - 1º acto -

a 05 de Novembro de 2010, aquando do 1º aniversário do Café Poema, foi apresentado um monólogo teatral que reflectia a espera de todos os dias, mesmo não sabendo pelo que se espera, nem o que se desespera.
posto isto, aqui fica o texto na integra e o registo fotográfico do momento.
o meu Obrigado,
Isabel Ayres pela excelente interpretação corporal que fez do texto.
Ana Freire pelo inigualável trabalho fotográfico.

Monólogo da Espera



1º Acto
Gregário

(Lisboa, 5 de Novembro de 2010, 22:30)



Rápido. Com fome de memória.
No quarto o candeeiro de chão projectava uma luz escura. Ele acordou com a boca seca e num pulo saltou da cama. Ainda quase a dormir procurou algo onde pudesse escrever. Em cima da mesa-de-cabeceira desfolhou um bloco de notas no qual redigiu umas frases soltas. Arrancou as folhas do bloco e leu em voz alta. Com a caneta na boca e a esbracejar, ele voava entre o quarto e o corredor. As frases não faziam sentido. Desorientado tentou recordar-se de mais alguns pormenores do seu sonho. Precisava de água. Na casa de banho encheu um copo que bebeu num trago, depois lavou a cara e verteu líquidos evitando acertar no rebordo da sanita. Lavou as mãos e amassou a toalha à pressa para dirigir-se ao quarto.

Do guarda-fatos extraiu uma mala preta de estilo executivo. De dentro de um saco plástico retirou 50 metros de cordel enrolado num novelo. Das gavetas situadas na parte debaixo do guarda-fatos removeu um suporte metálico composto por uma lupa com uma pinça de cada lado com hastes móveis e retrácteis. Depois, do interior de uma caixinha de cartão forrada com papel vegetal, desembrulhou uma lanterna de punho amarelo. Depositou os objectos ordeiramente em cima da cama. Do pouco que se conseguia lembrar não faltava nada. Nem mais nem menos.
A indumentária do sonho estava completa.

Ligou e desligou a lanterna. Olhou os seus dedos à lupa, aumentados dez vezes à escala real. Esticou a ponta do cordel para comprovar a sua eventual resistência à força. Material certificado. Tudo em ordem. Colocou os objectos dentro da mala que fechou num suspiro imediato. Por cima do pijama vestiu um roupão vermelho-escuro, guardou as folhas com os rabiscos do sonho na mala, calçou uns chinelos com um símbolo de um clube de futebol e sem olhar para trás, saiu de casa. Quando a porta se fechou, apenas ficou ligado o candeeiro que reflectia uma luz escura em estranhos propósitos de vazio.

Noite abaixo rua acima. Caminhou em silêncio durante alguns minutos. Posteriormente entrou na estação do Metropolitano do Saldanha. Perto de vinte pessoas compunham uma mancha cinzenta de transeuntes que deambulavam sem destino, como se fossem residentes eternos daquela colmeia subterrânea. Passou pelo meio da mancha derrubando um casal que se beijava cegamente no centro do átrio. Todos os outros transeuntes afastaram-se, enquanto o casal ficou espantado com a figura que os abalroara. Um homem de meia-idade despenteado, mais, com pijama e roube vestido, mais, com uma mala preta na mão, mais? Mais nada. Na melhor das hipóteses tratava-se de um doido fugido de uma casa de repouso; na pior das hipóteses, um bombista suicida que resolvera fazer-se explodir no Metropolitano. No fundo, a loucura e o heroísmo são tudo a mesma coisa. Talvez por isso, os namorados desatassem a correr, obedecendo ao chamamento da paixão e à voz do medo. Só a sobrevivência da espécie conduz a actos tão heróicos, pensariam os amantes. Ao ver o casal fugir, ele não pediu desculpa, não teve tempo para isso e prosseguiu viajem.

Junto da gare evitou os olhares dos curiosos. Um homem patibular caminhava de pernas arqueadas, com uma ínfima boina cinzenta a ornamentar a sua desproporcional cabeça, de onde sobressaíam enormes suíças farfalhudas e um nariz adunco. O homem patibular aproximou-se da máquina automática de bebidas, e espetou-lhe duas valentes cabeçadas no vidro, coçou os testículos, arrotou e uma garrafa de água caiu. Do outro lado da linha, uma menina da tuna universitária de totós apanhados com laçarotes amarelos, levantava a saia mostrando a sua roupa interior ao mesmo tempo que simulava, com gritinhos enervantes, uma queda triunfal na linha electrificada.

E ouviu-se um aviso sonoro:
" Atenção ao intervalo entre o cais e o comboio!"

Num banco, a um canto, um rapazola enrolava um charro que acendeu demoradamente, e de seguida abriu uma lata de cerveja. O rapaz cortou a língua ou o lábio, não interessa, o sangue era mais que muito e vertia-lhe da boca numa pasta vermelha. Uma senhora sexagenária aproximou-se e beijou o rapaz nas beiças ensanguentadas, depois de se separem as bocas, a senhora ofereceu amavelmente um lenço branco para que ele limpasse o sangue que ainda pingava abundantemente. O rapaz, incrédulo, olhou para a sexagenária e esta começou a pinchar como uma gaiata apaixonada. Era vê-la aos pulinhos, como se estivesse a jogar à macaca. Sabem como é? Saltar no chão, só com um pé, em 4X2x1 e...

E outro aviso sonoro suou:

"Informamos os nossos clientes que é proibido fumar em toda a rede do metro" 

Ora, depois do que foi visto nesta estação, ninguém iria levar a mal que ele estivesse vestido de roupão, pijama e chinelos, já para não falar da sua mala preta que poderia levantar algumas suspeitas. Ele pensou: 



" Esta mala bem que podia conter uma bomba que fizesse esta gente ir pelos ares. Era da maneira que se acabava de uma vez por todas com os loucos e extinguiam-se os heróis".

Sorriu e sentenciou qualquer observação persecutória, rematando:

"O que não falta para aí são malucos ostentando o seu novo pijaminha e o seu mais recente penico electrónico!"
Sentou-se num banco vazio à espera do próximo comboio enquanto ia remoendo o sonho que o obrigou a abandonar o conforto do lar. Volvidos poucos instantes, dos túneis subterrâneos chegou o transporte larvar-metálico, antecedido por um rugido feroz proveniente das entranhas da terra. Hesitou um pouco mas entrou no comboio no momento exacto. Seguiram-se dois apitos agudos e as portas fecharam-se com estrondo. Do lado de fora da carruagem os transeuntes protestavam por não conseguirem entrar. Reparou na expressão de espanto e revolta que essas pessoas manifestavam num simples esgar. Nos seus gestos de indignação. No fio de espera a que ficaram suspensas. Nas suas bocas inconclusas e nas palavras que podiam originar. No caleidoscópio de imagens e reencontros adiados. Do mal o menos, esperariam apenas 10 minutos pelo próximo comboio. O que são 10 minutos no meio de uma vida toda? Afinal podia ser pior. Como tudo, na vida toda, fica sempre alguém de fora.

Olhou em redor. Com uma mão agarrou-se ao varão situado no centro do vestíbulo e prendeu a mala entre as pernas. A carruagem estava quase deserta, apenas habitada por um cego que ia trauteando uma lengalenga, varrendo percurso com a sua vareta de metal. Quando o cego se aproximou ele desviou-se e fechou os olhos com força e em comunhão com o escuro. Um minuto e doze segundos depois, ouviu-se uma voz feminina, a alma da carruagem indicou:

"Próxima estação Picoas”

Voltou a abrir os olhos. Algo mudara. O cego desaparecera e no fundo da carruagem, quatro misteriosas criaturas estavam sentadas num banco. Estranhamente rodaram o pescoço na sua direcção, como se estivessem a olhar para ele mas sem o verem, como se quisessem falar mas sem terem boca para tal despesa. Quatro criaturas vestidas de castanho, amarradas na sua quietude bizarra, contemplavam-no como se não tivessem nada melhor para fazer, apenas existir, de vez em quando.

Incrédulo aproximou-se. Assim, à primeira vista podia tratar-se de uma alucinação, uma percepção errónea da realidade. Ou não tanto. Aquelas criaturas existiam, ocupavam espaço. Pior que isso, estavam completamente fora do contexto, muito por culpa da sua aparência de corda. Apresentavam o rosto enrolado em cordel e os pulsos e os pés atados em fio nylon, autênticos seres mumificados reclamando por atenção, contorciam-se atabalhoadamente, esforçando-se por imitar uma expressão qualquer. Ele afastou-se, pouco depois, as criaturas desapareceram e a carruagem ficou deserta. Mas não durante muito tempo. Elas voltaram a aparecer sentadas noutro banco mais à frente e assim sucessivamente, num jogo de cabra-cega constante. Confuso, retirou da mala preta as folhas que leu rapidamente, tentando obter respostas no imenso subterrâneo da memória. Atabalhoadamente tirou a lupa e com uma pinça entalou dedo, sentiu uma leve dor e um suave arrepio tão comuns à fria realidade. De imediato, apontou o olhar na direcção das criaturas e olhou pela lente. Para seu espanto, por intermédio da lupa as criaturas eram pessoas perfeitamente normais, sem a lente voltavam ao seu estado de atavio e cordel, tal e qual como no sonho. Entretanto a alma da carruagem comunicou:

"Próxima estação Marquês de Pombal”



Saiu do comboio e deixou-se levar pela escada rolante. As câmaras de vigilância do metropolitano seguiam-no ou pelo menos ficou com essa percepção. Enquanto fazia o trajecto de ascensão, seis indivíduos disformes, presos entre si com uma corda atada à cabeça, desciam apressados pela escadaria. À lupa não passavam de pessoas perfeitamente comuns (não, não existem) que olhavam para ele intrigadas e com exclamação. No patamar cimeiro da estação do Marquês de Pombal parou e olhou para baixo. Não sentiu vertigens, nem tonturas, porém descobriu o que fazer com o novelo que transportava. E assim, abriu a mala, desenrolou a ponta do fio de cordel e prendeu-o com dois nós ao fecho-ecler que servia de divisória no interior da maleta, depois, atou a outra ponta à engrenagem mecânica das escadas, junto do botão de stop que servia para isso mesmo, parar a subida ou descida dos patamares metálicos. Começou a andar, confiante, de passada larga. Da mala saia um rasto que se ia propagando a cada passo. Não tinha medo de se perder nos corredores da estação do metropolitano, mas também não queria libertar-se do seu sonho.

Cinquenta metros de cordel é muito cordel mas nunca é demais. Contudo, o novelo não tinha mais para dar, e num esticão a mala saltou-lhe da mão. Ficou parado a olhar para a mala preta de executivo, a estrebuchar no meio da passadeira rolante, como um peixe acabadinho de pescar. 


Libertou a corda do fecho-ecler e fechou a mala, deixando-se levar de costas pela engrenagem que o fazia caminhar sem se mover. Foi então que reparou que em cima da passadeira, mas em sentido contrário, uma bailarina vestida de negro dançava, esculpindo o ar com movimentos graciosos. Ela bailava como se o corpo se fosse partir em dois, num parto de alma e músculo, na elegância típica das nuvens e daqueles que conseguem pairar indeléveis sobre o temporal. A bailarina nunca saiu do estrado da passadeira rolante, contrariando o fim da linha sempre que este se aproximava. E recomeçava a dançar numa coreografia infinita mas em sentido contrário ao movimento rolante da passadeira. Ela existia naquele passadiço e tudo resto limita-se a observar. Ante aquele espectáculo improvável numa estação do Metropolitano, também ele deixou-se ir de costas, até que... O seu calcanhar avisou-o do final da linha, a língua móvel de metal que o transportara tinha terminado. Avançou dez metros e alguns segundos mais à frente, encontrou um pequeno café com uma esplanada no meio. Sentou-se numa cadeira vermelha perto de uma mesa branca com varias chávenas ainda sujas de borra e açúcar derretido. A esplanada era um deserto, e ele sedento por respostas, o seu mandatário. Ninguém o ouvia e ele gritou:

Monólogo da Espera - 2º acto -


2º Acto
(pouco me importa o desalento dos outros)





Não há noite!
A noite não nos pertence!
Quando nela viajamos apenas atravessamos uma membrana escura, às apalpadelas, num total desconhecimento pelo contorno das suas sombras.
Realmente não vivemos a noite, ela é que vive por nós. Soberana. Sem desculpas, faz com que os sonhadores pareçam esperançosos sonâmbulos na busca por se encontrarem.

Meus amigos...
Fomos todos sonhados!


Quanto a mim... Eu sonhei que…
Por que razão não me lembro de mais pormenores?
Se ao menos conseguisse lembrar-me de mais alguma coisa.
Recordo-me apenas de alguns detalhes do sonho.
Uma lupa, um novelo de cordel, uma mala preta.
Um átrio de uma estação do metro com uma esplanada no meio.
Creio que se tratava da estação do Marquês de Pombal mas podia ser outra estação qualquer.
E uma mulher...
Essa mulher disse-me para eu esperar por ela aqui, pois seria desvendado o mistério pelo qual, recordamos apenas de alguns factos do sonho e não o sonho na íntegra.
Mais concretamente, a mulher do meu sonho dizia assim:




 "Inspira o ar e espera por acção, irei revelar-te o segredo dos sonhos.”

Lembro-me destas partes do sonho, porque escrevi todos os pormenores que consegui reter, nestes papéis que trago comigo.

Cá estou eu.
É estranho este lugar onde tempo não ocupa lugar, apenas esgota-se no vazio, lambendo a aresta de coisa nenhuma.
É pelo meu sonho que espero!

Entretanto, por aqui passam pessoas improváveis, nocturnas e apressadas, olham para mim com desconfiança e é bem provável que pensem:
"O que fará um tipo a estas horas, de pijama, robe e pantufas do Futebol Clube os Belenenses, sentado na esplanada do café, a olhar para nós com uma lupa como se fossemos objectos estranhos?”

Que se lixem!
Estas criaturas seguem o alegre caminho das suas vidinhas, num lastro incógnito, numa chusma cinzenta de apreensão. Dirigem-se para casa, para o trabalho, para o hotel, para o raio que as parta!
Chispem daqui!
Que eu..,.
Não acredito no quentinho entre quatro paredes, nem no aconchego do lar!
Pelo contrário, continuo a acreditar que as casas deviam situar-se no topo das árvores, e as camas das casas, por cima dos telhados das casas, em cima das árvores, no ramo mais alto. Assim, depois da queda do sonho, sempre podíamos colher os estilhaços dos sonhos que ficassem retidos nas ramagens.
Era tão bom apanhar os sonhos das árvores como se fossem cartas de amor moribundas.
Ah! Era tão fácil apagar o interruptor do dia quando existe sempre algo que se pode desligar!

Sim, é contigo que estou a falar.
Estas criaturas enervantes continuam a passar e não se escusam de olhar.

Pouco me importa o desalento dos outros!

Nunca esperaram alguém mesmo não sabendo por quem esperavam?
Nunca seguiram um sonho?
Respondam.
Meus amigos oiçam o que vos digo.

Fomos todos Sonhados!

Tecnicamente, psicologicamente, morfologicamente, “raios-partam-a-mente” falando do que sente, apenas é possível recordar durante poucos minutos o que sonhámos numa fracção de segundos!
Como se fosse algo...
Algo que se transferisse para o mundo das ideias e ficasse acessível, durante escassos instantes, às mãos do fazer.

E o que fazemos com os sonhos?
Bem...
Lembro-me de um Natal em casa dos meus pais, a minha mãe fazia bolinhos, doces sonhos, eu reclamava por atenção, e enquanto não obtinha o que queria, rebentava de punho fechado com os bolinhos recém-amassados e depois...
Anos mais tarde, deu no que deu...
Sonhos só no Natal, fora disso, torna-se perigoso andar ao murro aos sonhadores.

Eu não me lembro do que comi ontem, quanto mais do que sonhei hoje!

Já dizia, Freud e Jung, enquanto dormimos, o R.E.M (rápido movimentos dos olhos) mantém o estado de vigília necessário para processar uma acendalha de informação. Mesmo a dormir o cérebro está a carburar. E muito. Não assegura apenas os serviços mínimos. Imaginem um programa nocturno de rádio, na sessão de discos pedidos que ocorre durante o sonho, o disco riscado “sexo” e o disco obliterado “morte” são os mais solicitados. Não me espanta que assim seja, sempre gostámos da inevitabilidade da criação.
E mais...
12% da população sonha a preto e branco os restantes sonham a cores!
Porque não haveremos todos nós de sonhar a cores? Discriminação!


Vamos lá ver uma coisa...
E se a interpretação que faço do meu sonho estiver certa?
A culpada por olvidarmos grande parte do que sonhámos seria uma...
Raptora dos Sonhos?
Sim! Ouviram bem!
Eu disse, Raptora dos Sonhos. Mas podia ser outro nome qualquer.
Os nomes são tão vulgares, repetidos tantas vezes, até chateia!
Madalena? Não. Maria? Não. Açucena? Não. Raptora dos Sonhos? Sim!
Porque afinal, é o que ela é. Uma raptora dos sonhos. Dos meus sonhos, dos teus, daquele e do outro.
Ladra? Nem pensar. Ela apenas mantém refém os nossos sonhos durante umas horinhas. Depois liberta-os e fica um agradável cheirinho do que seria o sonho se fosse realidade. Mas só durante um bocadinho. Depois esvai-se. Foi um ar que lhe deu.
É preciso deixar bem claro que a Raptora dos Sonhos está acima de qualquer suspeita, é uma entidade idónea, quase divina, controladora e mentora de um esquecimento colectivo, contudo boa pessoa.
Raptora dos Sonhos… é bem.

Se alguém tiver outra explicação melhor, que diga.

É por ela que espero esta noite!
A minha Raptora dos Sonhos. A responsável por lembrarmo-nos apenas de alguns vidrinhos do espelho quebrado do sonho.
Que é como quem diz, a mentora do magnífico plano que nos faz esquecer;


Cores
Sabores
Odores
Pele
Reticencias
Intermitências
Virgulas
Ponto final do sonho.

Monólogo da Espera - 3º acto -




3º acto
(o arrependimento às vezes é escrito a sorrir)


E com isto...
Que horas são?
Daqui a pouco a estação de metro vai encerrar e com ela todas as portas, todas as esplanadas, todas as sombras e todos os barulhos nocturnos, tudo se vai apagar no mundo subterrâneo da memória.
E depois...
Estou...
Preso no labirinto destes túneis onde nada me servirá porque eternamente tudo me sobeja.
Ficarei.
Sem medo ou rumor de falhar mas antes…
Falham-me as ideias e creio que só possuo apenas o que já perdi.
O meu relógio é tanto meu como os meus sapatos, apenas me servem por instantes.
Ou as mãos, os pés, ou a boca.
Tudo o que tenho é uma folha em branco, onde uma janela pode ser descoberta.
Enquanto isso a Raptora dos Sonhos, apodera-se da memória preliminar e fica com ela para que andemos às cabeçadas às paredes.

Ah, como eu queria recordar-me daquele sonho!
Uma queda eterna e eu a berrar como um desalmado.
Aquela queda que me diziam, motivada por estar a crescer, nunca acreditei nisso.
Muito sonhei eu com quedas e não cresci por aí além.
Eu a berrar a gritar! Assim:

O arrependimento às vezes é escrito a sorrir!


É certo que a desilusão pode ser maior e o desengano tamanho, mas não foi assim que nos ensinaram a viver?

Quando a Raptora dos Sonhos chegar, vou arrancar-lhe os sonhos. Um a um. Deste, daquele e do outro. Isto porque não sou invejoso, nem presunçoso, nem valentão, ou alarve.
Não guardo para mim a derrota colectiva ou a vitória solitária.
Se tivermos que cair numa orgia de sonho...
Cairemos todos.
Será mais interessante rebolar em conjunto do que uma cambalhota solitária.
Não acham?

Já estou a imaginar:
Toda a malta a recordar o que sonhara e antecipar a sua concretização.
Mais ou menos assim:


Eh pá eu ontem sonhei que era aumentado e que a minha chefe disse-me que eu era um gajo porreiro, competente, bem parecido e tal, e não é que...
Não é que?
Nada disto aconteceu.
Pus-me a salivar, à frente dela, à espera do momento da consagração:

  • chefa, chefinha...
  • sim...
  • chefa, chefinha... venha cá, chegue-se aqui!
  • mas... que modos são esses? o que se passa consigo?
  • nada... ou melhor dizendo, estou feliz. sabe eu hoje sonhei consigo... não tem nada para me dizer?
  • sonhou comigo? mas o que vem a ser isto?
  • sonhei que tinha algo de muito, muito importante para me comunicar. diga lá...
  • digo lá, o quê?
  • aquilo...
  • aquilo?
  • do au...
  • o au?
  • sim.
  • do aument...
  • do aument?
  • homem, esteja quieto! saia de cima de mim. você deve estar doido!

E pronto.
Instaurou um inquérito disciplinar, alegando assédio, quando afinal, só manchei de baba a manga da camisa e o decote provocador. Ela não gostou da ideia da proximidade. É certo, quase a engolia com os olhos, estava apenas a cinco centímetros do seu nariz, peludo por sinal. Foi uma desilusão. E quanto ao inquérito disciplinar? Creio que não era caso para tanto!




E tu, conta lá o que sonhaste?
Olha...
Eu sonhei que me envolvia com uma rapariga daquelas do tipo da Playboy, num bairro escuro, ali para os lados do Sol Oposto.
E então?
E então... Fui lá ver se ela lá estava e...
E?
E...
Nada.
Nada?
Não estava lá rapariga nenhuma.
Fui antes comido por parvo, por um bando de criminosos, que para além de serem criminosos, eram tarados, e não me roubaram porque...
Porque?
Não tinha dinheiro nenhum comigo.
Tinha apostado toda a massa na chave do euro milhões.
Sonhei com uma sequência de números, desatei apostar compulsivamente, mais tarde reparei que aquela sequência de números, era afinal o número do teu telemóvel.
Que cena. Foi por isso que me ligaste ontem à noite?
Sim, foi.
Continuando, fiquei com a conta a arder, com a conta e não só!
Os ladrões tarados queriam... Bem...queriam, era o que faltava, empurrar o meu cocó para dentro e fazer outras coisas que nem me passava pela cabeça fazer com a rapariga da Playboy.

Escapaste de boa.
Mais menos. Olha...
Sim?
Tenho uma coisa para te dizer.
Então diz.
Eu sonhei no teu sonho.
Não pode ser. Eu sonhei o teu sonho.
Não sejas parvo.
Tu?
Não...
Eu…
...

Adiante. Interrompemos este triste diálogo para comunicar que:

Estes são só alguns exemplos do que seria o mundo na eterna especulação do real se nos lembrássemos do que sonhámos na íntegra. Tim tim por tim tim.

Monólogo da Espera - 4º acto -




acto
(inspira o ar e espera por acção)


Mas a realidade é outra.
O metropolitano está a fechar. As poucas criaturas que passam nestes túneis circulam tão apressadas, já não reparam em mim. Enquanto isso, continuo à espera da Raptora dos Sonhos. Pouco ou nada sabendo a seu respeito. Como será ela?
Apenas retenho pormenores do que escrevi nesta folha, não fossem eles evaporarem-se nos confins da memória.

Ora senão vejamos, recordando:

Uma lupa, um novelo de cordel, uma mala preta.
Um átrio de uma estação do metro com uma esplanada no meio. Marquês de Pombal?
E uma mulher que dizia:

"Inspira o ar e espera por acção, irei revelar-te o segredo dos sonhos.
Se quiseres saber, eu lá estarei.”

Estou ciente que a raptora dos sonhos virá quando lhe apetecer, aparecerá quando melhor lhe aprouver, sem data ou hora marcada.

Agora reparo.
Ali ao fundo.
Vem ali alguém. Um corpo feminino caminha na minha direcção e vem de passada apressada.
Ali vem ela. Sim, só pode ser ela.

Ela diz:
  • Boa Noite. O Metropolitano vai fechar, é melhor sair por aquele lado, a porta sul já está encerrada.

Eu digo:
  • Não pode ser. Estou à espera da Raptora dos Sonhos, dos seus sonhos, dos nossos dos vossos sonhos.

E ela diz:
  • Estou a ver. Mas nestes trajes não pense que fica aqui a dormir. Ou sai a bem ou chamo a Polícia!

Eu digo:
  • Polícia?... Isto tinha que acabar com Polícia? A raptora dos sonhos disse-me “Inspira o ar e espera por acção” Eu vou esperar aqui por ela. Não saiu daqui. Juro!

E ela diz:
  • Se o senhor o diz… Pois que seja. Essa será a minha inspiração. 


     

domingo, 12 de dezembro de 2010

da minha janela





um mundo secreto e pequenino debruça-se nos estendais da minha janela
as vizinhas incógnitas de rolos na cabeça e roupão cor-de-rosa descortinam novidades,
dos muitos carros de vidros embaciados que albergam namoricos proibidos,
das luzes das escadas que ficam acesas  toda noite,
das portas que se fecham com estrondo, 
quem entra e quem sai? nada lhes escapa por detrás do olho de boi ou da persiana.

da minha janela vejo uma escola tão velha mas muito mais nova que eu
o que me faz pensar nos danos que o tempo faz às paredes das casas e aos ossos da memória
de manhã é uma gritaria pegada entre mochilas e apalpões secundados por olhares traquinas
a caminho da escola tudo se aprende ao ritmo de um novo dicionário. 

da minha janela, quando chove é assim, quando faz sol só me apetece fugir
não para a praia! toda a gente morre na praia pelo menos uma vez na vida,
apetece-me fugir para onde não haja luz nem olhos de açúcar
fecho os estores e rezo para que o tempo morra mais depressa que a expectativa.

da minha janela quase vejo o mar e a mão esquerda do Cristo Rei
o que torna a pequenez um acto grandioso de tão imaginativo
vejo a dona Noémia  e o seu filho que trabalha na morgue
o senhor David e a filha que trabalha no talho do supermercado e...

pela forma como se cumprimentam creio que já dormiram na mesma cama
os quatro corpos iluminados à luz de velas numa orgia ensanguentada pelo cutelo
credo!
isto sou eu a pensar, isto sou a ser coscuvilheiro, isto sou eu a ser vizinho
também posso, de vez em quanto, quando me dá na telha!
mas fiquem descansados...
acho que não me conhecem o que torna as coisas bem mais simples
e assim não desperdiço um bom dia.

quarta-feira, 17 de novembro de 2010

Subir



Mais parecia um vulcão branco no meio de um lago e eu tão pequeno para lá chegar.
Naquele tempo a cama de ferro do quarto de dentro era tão alta, que mal a via, mesmo que me colocasse em bico de pés. De tal forma que o meu nariz ficava a rasar a colcha e os meus olhos nivelados pelas franjas de lã. Eu bem tentava ser sentinela binocular numa íngreme conquista mas por vezes era difícil.

Não era difícil ser neto, filho e puto reguila ao mesmo tempo. Todavia, era problemático dormir a sesta na casa dos meus avós, isto porque tratava-se de uma cama misteriosamente alta, numa divisão inesperadamente escura. Mas fazia por isso, fugindo do sono como do diabo da cruz em direcção aos quintais, depois ninguém me via durante horas. Quando a noite chegava e de pés lavados o caminho era certo. Cama.

A cama alta do quarto de dentro. Para lá chegar tinha que me apoiar na trave lateral e de mãos nos florões de ferro fundido escalava a custo a estrutura rangente de metal. Uma vez lá em cima, e depois de dois ou três pulos para comprovar a resistência do colchão, suspirava de alívio e olhava para baixo, feito homem alpinista tão confiante da minha façanha.

Que vista maravilhosa! Contemplava o estrondoso cume da cama situada no quarto dos fundos e a fabulosa visão que me proporcionava. O fio da noite, os passos breves que faziam levantar os tacos antigos, o ranger de madeira numa oração frágil, as crateras de cal que caíam das paredes numa excêntrica cadência, a mesa-de-cabeceira que tinha voz própria numa gaveta de palavras roucas, o cheiro proveniente da lareira que se propagava pelas brechas das horas numa neblina cinzenta, e mesmo ao lado, a sala dos meus avós que por serem avós nunca estavam na sala de estar, uma divisão nos fundos suspensa por um candeeiro a óleo feito lâmpada mágica, protegida por dois lobos de loiça que pareciam ferozes mas que nunca saiam de cima da mesa de jantar. 

Depois caia morto e permanecia imóvel. Mão é assim que se morre? pensava eu. Fechava os olhos e fingia, contudo era descoberto e após uma reprimenda adormecia encantado, numa paz que só está ao alcance daqueles que caem no cansaço da tenra idade.

Muitos adeus depois. Hoje a cama é tão pequena que dormi nela enrolado e às vezes com os pés de fora. 
Quando acordei tinha-me esquecido que subir é uma arte nova e a partir daí é sempre a descer.

sexta-feira, 29 de outubro de 2010

Café Poema - 05-11-2010 - ANIVERSÁRIO






meus caros Amigos,
estão desde já convidados a participar no aniversário do Café Poema.

é já no próximo dia 05 de Novembro, pelas 21:30, no Cappuccino's coffee shop em Carcavelos.

da Poesia à Dança, da Expressão Corporal à Interpretação e o que mais couber
dentro da alma de um sorriso, assim será essa noite, a Vossa.
por isso, tragam poemas, contos, ensaios, receituários ou inventários e façam deles corpo em viva voz

contamos com todos.

Abraço.
SG

sábado, 23 de outubro de 2010

PH





Hoje reparo que o aquário insiste
no fascínio pela morfologia da guelra
e foi isso que me fez coleccionar peixes tropicais
onde água, mais quente que a minha febre,
era um convite para afogar as mãos frias na ânsia
de invasão por um espaço aquático só meu

foi isso mesmo,
não sei dizer como, apeteceu-me e…
enchi os olhos de todas as cores que a vida desconhece
e o que se espera
do fascínio pelo vidro e pelo PH alcalino do néon
em êxtase típico de uma noite natal em pijama e sapatinho na chaminé?
o que se espera de uma noite
na qual acordei várias vezes com medo que a temperatura
do sonho não fosse a ideal para o ecossistema vítreo?
tentando com isso corrigir a trajectória do destino
depois, era ver os peixinhos de saúde invejável em cardume de azul cobalto
a nadarem numa eclipse doce de amanhã
ah como eu gostava de os ver cortar as águas tempo!
como quem rasga um telegrama tardio
e satisfeito com a imagem calma do mundo subaquático
quis lá saber do pai natal ou da chaminé
e…
apaguei todas as luzes das cidades e deixei o meu farol iluminar
o perímetro do quarto - o meu aquário de almas azuis -

Escrevo isto hoje, precisamente no dia em que,
reparo que o aquário ainda existe (no sótão) e tem móvel com luz morta e tudo
lá dentro os peixes continuam a cumprir o que deles se espera
a beleza subaquática das sombras, a voz das coisas que não se esquecem
os meus peixinhos transformaram-se em verde, amarelo, plástico
estáticos, espetados em varetas de metal no fundo de um areal
onde tudo é tão seco como o meu palato febril.