segunda-feira, 24 de novembro de 2014

As cidades de A.









Nunca lá estive,
não sei o caminho nem os pontos cardeais que me possam guiar,
mas já ouvi falar da fama que encerra as suas veredas de urbe tão desejada.
Sem nunca ter conhecido as altas ruas cinematográficas de Nughen,
nem as curvas marginais de pecado inesquecível de Vipira,
tampouco as boutiques de perfume e moda que vestem Chymara,
ou as planícies vinhateiras de néctar eloquente de Symfia,
já para não falar das bibliotecas transparentes e infindáveis nos jardins musicais de Alytra,
das praias feitas de pérolas e safiras que descem do flanco desnudo de Fabera,
ou até da ópera de fogo, do teatro de vapor, do bar burlesco
onde a poesia é dita em cálice sensual e de cigarrilha de anis na mão,
recorda-nos que só podemos estar em Kania.
Há mulheres que trazem cidades dentro dos olhos
e sem perguntar mais nada, porque a palavra só serve para nos encontrarmos,
basta um brilho teu para que o universo se inicie.


Inspirado em A. e no livro "As Cidades Invisíveis" (1972), de Italo Calvino.




quinta-feira, 20 de novembro de 2014

Trepadeira-dos-muros (Tichodroma muraria)


A trepadeira-dos-muros (Tichodroma muraria) é uma raridade em Portugal, estando as suas esporádicas observações localizadas na Barragem de Santa Luzia, porém em Espanha mais concretamente em Fuente Dé na Cantábria é o símbolo ornitológico do local. Como tudo o que se quer breve e único, assim surgiu e depressa se escondeu. Todavia, graças à família Frade que conseguiu descobrir a ave, tive uma segunda oportunidade para fotografar esta pérola carmim das altitudes.



O roteiro ornitológico de Fuenté Dé


A sorte espreitou entre a latitude das pedras e o silêncio


Exímia a trepar muros, paredes e escarpas até que se escondeu nos buracos 


Sempre que se movimentava mais rapidamente abria as asas deixando antever tonalidades de uma palete de cores inesquecível   


Mesmo sem sol, qualquer pedra lhe servia para confessar o vermelho-carmim que tão bem lhe assentava.


E assim se despediu abrindo o magnifico leque  num voo sem par.



segunda-feira, 17 de novembro de 2014

Fuente Dé - Picos de Europa


Setembro 2014

Engoli em seco quando olhei para o gigantesco animal rochoso que se elevava na neblina, ditando a bel-prazer os caprichos do tempo e da pedra. Aceitei o convite da montanha para conhecer os seus recantos e foi assim que entrei no teleférico confiante da sua insuspeita aparência. 

A subida começou.

Enquanto a cabine ascendia suspensa por dois cabos, outra descia contrabalançando as esperanças dos seus viajantes. Com o aumentar da altitude, sustive a respiração e espreitei de soslaio por uma janela. Lá em baixo tudo era tão pequenino: as casas, os carros, as pessoas, um autêntico mundo em miniatura prestes a transformar-se numa microscópica civilização. Em pouco mais de quatro minutos a viagem fez-se a pique, num fôlego rápido, sem que sentisse o chão a fugir por entre a sola dos sapatos e as nuvens tão perto dos olhos. Para acalmar um certo nervosismo, dei comigo a falar pelos cotovelos tentando assim esquecer vertigens e outras fobias.

Quando o teleférico chegou ao seu destino, por entre os viajantes rasgaram-se sorrisos de indisfarçável contentamento por atingir terra firme. Lá estava eu em bico de pés, a 1823 metros de altitude e mais uns centímetros de curiosidade, a contemplar a paisagem de montanha. Sem frio nem vento que me desse as boas vindas, cheguei aos Picos de Europa com alguma luz. A paisagem de montanha era imponente por entre a parca vegetação, sendo possível ver um pouco de neve no topo do maciço central envolta num abraço de nevoeiro.

O resto do percurso foi feito a caminhar por cima de pedras, evitando algumas quedas mais aparatosas, medindo com cuidado cada passo ante as armadilhas do terreno.


4 minutos sempre a subir


No mirador da Fuente Dé, as nuvens ali tão perto.


Os grifos e as gralhas de bico-amarelo fazem o seu ninho nas escarpas do maciço central dos Picos de Europa.


Desce o nevoeiro na altitude que os olhos conseguem alcançar.


Aquando da volta do sol as nuvens traçam o rasto lunar da paisagem. 


Era um pontinho no meio da imensidão montanhosa quando ao longe surgiu a visão da Camurça (Rupicapra rupicapra), com algum esforço, talvez se consiga ainda descobrir na fotografia o que estaria ela a comer.


No início da caminhada as borboletas Lysandra coridon  poisavam sobre uma pedra esculpida pelo cupido


E as flores da manhã eram cobertas por pérolas de orvalho.


Enquanto outra borboleta nocturna Setina flavicans brilhava na aridez do silêncio montanhoso.



A Ferreirinha-alpina (Prunella collaris) espreitou confiante para ver o que tanto fotografavam estes visitantes.


Depois de caminhos sinuosos onde a queda era mais que provável, eis que surge a surpreendente ave que há muito ansiava observar: A Trepadeira-dos-muros (Tichodroma muraria)


Esta pequena trepadeira não parava quieta, de um lado para outro, escondendo-se do olhar mais intruso à sua tranquilidade.


Mesmo de costas e com o vento a desarranjar tão composto traje, é incomparável a sua beleza e a singularidade do seu voo. O próximo artigo deste blogue artigo será exclusivamente dedicado a esta inquieta trepa-fragas.


Por seu turno, a Gralha-de-bico-amarelo (Pyrrhocorax graculus) não se incomodava com a presença humana.


Sempre atenta ao que o homem mais distraído poderia deixar para ela comer.


Voando em bandos para os locais onde se encontravam um maior número de pessoas.


Neste caso, até parece que a Gralha-de-bico-amarelo gostou de uma barrita de seriais que com ela partilhei.



 Com aparecimento do sol juntaram-se aproximadamente quinze gralhas nas imediações do teleférico, à espera da boa vontade dos turistas e das suas gulosas benesses. 


Mais para interior da montanha avistavam-se rebanhos que cumpriam o seu destino em busca da escassa verdura.


Seguidos de perto pelo olhar atento dos grifos que planavam por cima das nossas cabeças.


Por entre a névoa e a pedra espreitava sempre um bicho que me recordava o caminho. 


De regresso à base, a descida pelo teleférico foi suave e tranquila, ainda cheguei a tempo para observar este Esquilo-vermelho (Sciurus vulgaris) numa atarefada corrida em saltos de boca cheia.



Um dia hei-de voltar a percorrer as mãos generosas desta montanha. Até lá fica a saudade feliz.







sexta-feira, 14 de novembro de 2014

BioMelides: Borboleta-do-medronheiro (Charaxes jasius)


Resultante de uma parceria entre a Junta de Freguesia e Melides e os fotógrafos José Frade e Sérgio Guerreiro assim o surgiu o projecto BioMelides. Esta parceria pretende dar a conhecer a biodiversidade da Lagoa de Melides nos seus mais diversos ecossistemas e habitats.


Quando vimos esta borboleta dentro de um jardim e fora do acesso das nossas objectivas, depressa pensámos como lá chegar. Corremos até ao café contíguo ao jardim e pedimos autorização para fotografar. A Dona Júlia, de sorriso nos lábios e simpatia no olhar, deu-nos acesso ao local e logo apressámo-nos não fosse o bicho desaparecer. Esta é a Borboleta-do-medronheiro (Charaxes jasius), a maior borboleta diurna (Rhopalocero) que ocorre em Portugal e uma das maiores da Europa. Andava entretida entre uma figueira e uma laranjeira, onde pousava durante alguns minutos, embelezando estas árvores de fruto voadores e sonhos suspensos.






segunda-feira, 10 de novembro de 2014

Exposição de fotografia "A Água e as Aves"


Participo nesta exposição colectiva "A Água e as Aves", com o meu amigo José Frade. A inauguração foi dia 8 de Novembro, em Melides, e estará patente na Moagem - Espaço Cultural durante todo mês, contará de igual forma com a projecção da minha curta metragem com o mesmo nome.