terça-feira, 28 de fevereiro de 2017

Viagem a Andorra e aos Pirenéus


Em Setembro do ano passado viajei até Andorra com intuito de visitar os Pirenéus.  O que retenho da viagem são imagens sonoras com histórias dentro que agora partilho.

A cordilheira dos Pirenéus serve de fronteira natural entre França e a Península Ibérica. No sopé da rocha surge Andorra; um principado voador e um pequeno grande país repleto de ambição e sentido nacional de pretensa. De Andorra guardo a memória das terras altas e das povoações invictas, inserida num vale claro de vistas amplas e desocupadas.
De quando em vez, na cidade de Andorra ouvia-se o linguajar luso, aqui e ali uma palavra em português, o que ajudava a desarmar um sorriso. As pessoas são particularmente simpáticas e comunicativas. As ruas cosmopolitas são autênticos centros comerciais. Tudo limpo, tudo arrumado, como se habitássemos uma gigante construção de lego, onde pontificam linhas estilizadas em busca da perfeita harmonia. À espreita de negócio, os olhares atentos dos vendedores das casas de electrodomésticos, regateavam esperanças a um preço quase, quase aceitável... O poder de compra é bem diferente do nosso (pelo menos do meu). A ausência de impostos traduz-se em preços mais acessíveis para uma carteira remediada. Por exemplo, o preço do gasóleo é astronomicamente mais barato. No frémito de uma cidade que vive do turismo e das estâncias de esqui desfilavam pelas avenidas mulheres bonitas com rostos felinos em dias de sol frio.



A vista para os apartamentos onde pernoitei. 




Sempre a subir.
Pelas alturas, no rebordo de um selo imaginário, percorri as estradas que me levavam até aos Pirenéus.











Galguei a montanha até sentir os ouvidos a estalar, ladeado por monumentos naturais em harmonia estética com a serrilha de um sonho. Na perfeição da natureza e no pormenor, nada foi deixado ao acaso. Até a composição floral dos canteiros que enfeitavam as casas era tida em conta. As flores pareciam plantadas em número par a condizer com o número de flores dos canteiros vizinhos.
Enquanto subíamos os Pirenéus por estradas bem estimadas encontrámos povoações onde a esquadria e harmonia arquitectónica era extremamente cuidada, desde igrejas, restaurantes casas e ruas, sem lixo visível, onde nada era deixado ao acaso.



Uma tentativa (falhada) para fotografar cascatas, não tivesse deixado o tripé no carro... 




A paisagem montanhosa era uma pintura viva, um quadro bucólico em constante mutação, um inacabado poema visual intransponível por palavras.

Calcorreei veredas íngremes que atravessavam bosques salpicados de cores vivas. De quando em vez, irrompiam do topo das árvores piares de misteriosa melodia para depois desaparecerem num incógnito esvoaçar de sombras. Por entre a enorme mancha verde eram frequentes os riachos e seus derivados. As fontes de água fria e os ecos das cascatas anunciavam o aparecimento de seres encantados que infelizmente não se concretizam em surpresa. Sentir a biodiversidade rica e única destes locais foi um privilégio que humildemente agradeço.


Subindo acima dos 2000 metros de altitude encontrarmos um casal de marmotas-alpinas (Marmota marmota) que emitiam um chamamento semelhante a um corvídeo.


Vários cruza-bicos (Loxia curvirostra) pousaram no topo de um pinheiro próximo de nós, certificando-se da nossas reais intenções.




Tal como esta pequena rã que teimava atravessar-se por entre passos inseguros.




Ainda acendi a lâmpada de vapor de mercúrio para ver que borboletas nocturnas eram atraídas pela luz a estas latitudes mas sem resultados significativos. Curiosamente foi numa incursão pela montanha que surgiram os exemplares mais curiosos. 


Lysandra bellargus


Zygaena (transalpina) hippocrepidis


Agrius convolvuli


Percorridos os caminhos montanhosos dos Pirenéus, fomos tentar a nossa sorte num abrigo para fotografar aves necrofagas em Solsona. Sei que pode parecer estranho, contudo foram utilizados coelhos brancos (clinicamente tratados para o efeito) que serviram para atrair as aves necrofagas. 

A carnificina começou segundos após a debandada do nosso guia  E nós ficámos escondidos no abrigo com o dedo impacientemente pousado no máquina, à espera. As primeiras aves a descer foram os grifos com a chegada de um juvenil que ficou de vigia assistindo à descida sónica dos grifos mais velhos. O festim foi iniciado e os grifos atafulharam-se nos coelhos enquanto o grifo juvenil teve que respeitar a hierarquia e só depois dos outros se banquetearem teve direito a petiscar. 

Num abrigo, um homem tem que estar atento e preparado para tudo. Há momentos irrepetíveis e que esfumam ao mínimo sinal de hesitação. Eu vi o quebra-ossos ao longe e pensei que ele fosse poisar. Porém a ave rondou, sobrevoou o local, e sem satisfazer a minha convinção, não aterrou. Para ajudar à festa, quando tentei fotografar o bicho em voo, a objectiva ficou presa na rede. O resultado é um esboço desfocado. um esquizo fraquinho da imponência desta ave necrofaga, extinta no nosso país desde o tempo de D. Carlos mas observável por estas terras espanholas. Quanto à fotografia... fica para a próxima. 
Foram 12 horas dentro de um abrigo de madeira, podemos dizer que a prova de resistência foi superada. Valeu-nos as gargalhadas, a água e a bexiga apertada para enfrentar a espera e amplitude térmica.



Os ânimos ficaram mais exaltados na disputa pelo coelho branco.







Eis o que acontece quando um grifo tenta subir para cima do abrigo. O abrigo serve de poleiro.




Coube ao corvo exibir o troféu - a cabeça do coelho, um momento algo tétrico em homenagem a Edgar Allan Poe.


Corvo (Corvus corax)






Um jogo de diferença entre corvos e gralhas


Gralha-preta (Corvus corone)


De papo cheio as aves começaram a debandar, foi o que aconteceu a este corvídeo que zelosamente levava no bico um quinhão de carne para o jantar. 



Há coisas que têm mais piada em filme...





Depois de tantas horas de viagem, por estradas de sol a pique, sem pregar olho, o coração continuava suspenso entre um grito adrenalina e a descoberta de novas geografias. Foi uma excelente viagem pelos encantos naturais dos Pirenéus. Sem dúvida. Um dia quero voltar e desta vez no inverno, para poder aquecer as mãos no frio do contentamento. 







Agradecimentos:
Família Frade



quinta-feira, 9 de fevereiro de 2017

Cirurgia




~


uma vez sangrada a incisão no alto das costas
removeram-me da carne raízes brancas,
longas e viscosas ramificações maiores do que eu,
responsáveis pelo peso invisível que acarto sob os ombros.

perguntaram-me o que fazer com as raízes serpenteantes:
enquanto elas sedutoramente se enrolavam
numa amalgama de vidas entrelaçadas,
escolhas consequentes dos meus erros e das minhas penas.

ao silêncio aguçado da agulha seguiu-se
o ranger dos dente, pela lasca em carne viva,
falha aberta na pele dobrada sem anestesia
e a linha coseu o lanho numa rigorosa bainha.

o conteúdo secreto da embalagem estava selado,
foi agora expedido para o destinatário combinado,
tal e qual como será amanhã e depois,
um novo ciclo após a extracção do último ponto.




Leitura: Zero K





O que mais certo temos é a morte. 

A miragem da vida eterna sempre foi terrivelmente tentadora, sendo sem dúvida, um dos maiores desejos da humanidade. No livro Zero K de Don Delillo, o modus operandi para a eternidade passa por congelar o corpo e conservá-lo durante anos, até que haja disponibilidade tecnológica para reanimar as células e reagrupar os tecidos, numa nova época capaz deste e de outros feitos.

Pois... será isto um repasto de ficção cientifica ou realidade daqui a umas décadas? Seja como for temos que esperar para ver. Até lá tentamos dialogar (algumas vezes), de consciência plena, e escolher entre morrer de forma assistida, ou acabar pura e simplesmente, do modo dito natural, arrumar as botas e esticar o pernil (desculpem a ligeireza da linguagem). Porém, num futuro próximo, talvez seja possível viver para sempre. Com a humanidade mais fresca de pensamento, mais ou menos interesseira e de meios mais apurados, onde a morte pode a ser negociada, adiada ou planeada para outra época. Temos ainda, o lado idílico: a perspectiva mais pura de vivermos ao lado daqueles que mais amamos, eternamente próximos, sem nos preocuparmos com o fim do filme e com o apagar das luzes.

Os homens e as mulheres que habitam este livro falam da morte que espreita ao virar da esquina. Perdem-se por corredores frios e desolados de uma infraestrutura futurista, entre sombras nostálgicas e corpos em contagem decrescente.  Ross é um senhor com muito dinheiro para manobrar a morte em ambiente controlado e com isso perpetuar a vida da sua amada esposa - Artis.  Por outro lado, o seu filho Jeff, é confrontado com  as motivações que levaram o pai a conduzir a madrasta até a antecâmara da morte. Jeff vê-se no meio de um turbilhão de emoções que o levam a recordar a sua mãe e outros momentos de perca e reencontro.

Confesso que durante esta leitura fiquei um pouco amargurado (méritos do escritor) ao lutar com as personagens por não desistirem das suas escolhas e eu (com um nó na garganta) a lutar para não desistir do livro, talvez por não querer estar na pele dos protagonistas, talvez por me doer só de pensar que um dia também vou perder. Contudo, também eu sou um filho, a tentar compreender se a via escolhida para o final é a melhor possível.

Algumas esquinas e recantos mais ou menos iluminados deste livro:

Sabes quais as etapas do processo a que vais ser submetido, os pormenores, como é que eles actuam.
- Sei exactamente.
- Pensas no futuro? Como será o regresso? O mesmo corpo, sim, ou um corpo aperfeiçoado, mas então e a mente? A consciência permanecerá intacta? Serás a mesma pessoa? Vais morrer como alguém com um certo nome e com toda a história e memória e mistério reunidos nessa pessoa e nesse nome. Mas acordas com tudo isso intacto? Será apenas uma longa noite de sono.

pág. 53


Não vais morrer antes de eles te congelarem o corpo? Há uma unidade especial. Zero K. Baseia-se na vontade do individuo de fazer um determinado tipo de transição para o nível seguinte. Por outras palavras, ajudam-te a morrer. Neste caso, porém, no teu caso, o individuo não está próximo da morte, nem de perto nem de longe.

pág. 114


Se pagarmos aos futuristas a sua maquia de assassinos a soldo eles tornarão possível vivermos para todo sempre. O casulo seria o derradeiro santuário das prerrogativas do meu pai.

pág. 119


O isolamento não é um retrocesso para aqueles que compreendem que o isolamento é o isolamento primordial.

pág. 127


Quando ele se juntar a ela, dentro de três anos ou dentro de treze, será que as nanoteconologias irão reduzir-lhe a idade?
E no momento em que os fizerem regressar à vida, seja lá quando for, no primeiro instante da sua vida terrena depois da morte, será que Artis vai ter vinte e cinco anos, vinte e sete, Ross trinta ou trinta um?

pág.145

Será que eles alguma vez ficam de pau feito, os mortos nos casulos? Sobressaltados por uma qualquer anomalia técnica, uma mudança nos níveis que gera uma espécie de zing a percorrer o corpo e leva as pichas deles a erguerem-se, todos os homens ao mesmo tempo, em todos os casulos.


pág. 147



Estava a pensar acerca do livre curso do passo a passo e do palavra a palavra que experimentamos lá no alto, lá longe, enquanto caminhamos e falamos debaixo do céu, enquanto nos besuntamos com bronzeador e concebemos filhos e nos vemos a envelhecer no espelho da casa de banho, ao lado da retrete onde evacuamos e do duche onde nos purificamos.


pág. 243


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Este texto reflecte uma perspectiva pessoal (um pouco enviesada) que tenho sobre o temática do livro e não uma crítica ao livro em si, porém sinto-me inteiramente grato pela leitura proporcionada.

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