segunda-feira, 28 de abril de 2014

Café Poema 03|05 - Eterno Feminino


Meus amigos desde já estão convidados para mais um Café Poema.

Desta vez vamos falar sobre o papel da mulher na poesia. Mais concretamente iremos ouvir poetas e poemas sobre a inspiradora temática do Eterno Feminino. Tragam alma para dar voz aos vossos poemas que o resto cá se encontra.  Até já.





sexta-feira, 25 de abril de 2014

A dimensão das Portas de Ródão - Tejo Internacional


Quando cheguei a Vila Velha de Ródão, distrito de Castelo Branco, o céu estava completamente encoberto por nuvens escuras. Porém, houve algo que despertou a minha atenção pelo inatingível espanto que criava. Em cada margem do Tejo, dois portões gigantes de madeira, com mais de cem metros de altura, vedavam a passagem fluvial do rio, unindo margens, formando uma ponte invulgar. Era uma construção inacreditavelmente alta e de contornos tão inacessíveis quanto belos. Como era imponente essa magnífica estrutura que irrompia da rocha crua, estendendo-se a toda a largura do espelho de água e das suas margens. 

À minha frente, onze homens faziam fila em direcção ao portão gigante. Aproximei-me. Um desses homens disse-me que aguardava passagem para o outro lado, contudo o acesso obedecia a certas regras. Quem quisesse atravessar o rio ou os montes das margens tinha que contar o seu último sonho a um guardião. No caso, uma anciã, vestida de negro, com um sorriso simpático e de olhos da cor do Tejo. Ela aguardava pacientemente sentada numa pedra branca a chegada dos candidatos. Se porventura houvesse quem não se recorda-se do sonho, não valia a pena vir. Ela não perdia tempo com faltas de memória ou hesitações estéreis. 

A anciã, depois de ouvir o sonho, decidia se o sonhador era digno de passar para o outro lado ou não. Se a história fosse aprovada, uma porta na estrutura abria-se. Caso contrário, fazia sangrar lágrimas a quem tivesse sonhos que ela julgasse impuros ou maliciosos. E não valia a pena mentir, pois os aldrabões eram detectados com as primeiras falas. Ela ouvia o que lhe tinham para contar e procurava nos olhos do sonhador razões que justificassem a passagem. Ao mesmo tempo manuseava um ramo de oliveira com azeitonas, como quem toca nas contas de um rosário. Se a anciã ficasse com uma azeitona ainda verde na mão, o sonhador estava em apuros; contudo, se a azeitona que calhasse em sorte fosse negra e o sonho bem explicado, então o sonhador tinha passagem garantida. Assim era filtrado o acesso a uma nova dimensão. A denominada dimensão de Ródão. 

Perante isto coloquei-me na fila e aguardei pela minha vez. Rapidamente fiz um esforço para me lembrar do meu último sonho e nas consequências que daí podiam advir. Na última noite sonhara com uma ave preta e branca com patas e bico vermelho (creio tratar-se de uma cegonha-preta). No meu sonho, um amigo meu segurava a ave, abrindo e fechando as asas do bicho, repetidamente, como se o animal se preparasse para voar. Sem lógica aparente, este era um sonho bizarro e com múltiplas interpretações, aliás como todos os sonhos. Verdade seja dita; o meu amigo gostava de aves em particular e de animais em geral, tal como eu. Portanto, a razão pela qual o ostentava uma cegonha- preta como uma marioneta, talvez fosse resultado da minha ansiedade em observar pela primeira vez essa ave. Para ser sincero, não acreditava na defesa do meu sonho. A anciã iria descobrir a verdade escondida nas minhas palavras. Ou seja, a cegonha preta estava morta e o meu amigo brincava com o corpo do animal dizendo: "Queres ver uma destas?". Ninguém escolhe as motivações dos seus sonhos, porém, o mais certo seria ficar ali a sangrar lágrimas durante dias. Mas se por algum motivo me fosse concedida passagem; o que me esperaria na dimensão de Ródão? 

A resposta foi dada quando um comboio amarelo e pequenino, quase de brincar, apitou e entrou num túnel escuro, que atravessava o enorme rochedo. Nesse momento, os portões gigantescos de madeira desapareceram das margens do rio, tal como os homens que faziam fila para passar e a misteriosa anciã que perscrutava sonhos. A paisagem ocupou o seu lugar e nunca o nada fora tão belo. Procurei respostas mas a realidade voltou a chamar-me com o apito do comboio, antes da locomotiva ser engolida gradualmente pelo túnel. Assim era a ferrovia da Beira-baixa.

Afinal, o homem ludibriou a dureza da rocha e arranjou maneira de encurtar distâncias entre materiais inamovíveis e os sonhos. Volvidos alguns instantes, segui os carris de metal e subi a um pequeno rochedo de onde se avistava todo o encanto do rio Tejo e as Portas de Ródão. A imponência da paisagem merecia um momento de contemplação. Sorri com esplendor livre da natureza e com as suas incríveis máquinas voadoras. Uma hora depois, quando voltava para o carro, cruzei-me com uma senhora idosa, com um olho verde e outro azul, de sorriso estampado no rosto, e um raminho de oliveira na mão; ela disse-me bom dia e o sol apareceu.





Algumas fotos que deram origem à ficção.

Portas de Ródão e as escarpas com  aproximadamente 170 metros de altura
A linha férrea da Beira-baixa e o esplendor das Portas de Ródão. 
As cambiantes do rio Tejo num dialogo com o céu.
Numa fraga o olhar atendo do grifo sentinela.
 Depois, a ave decidiu sobrevoar o rio aproximando a imaginação entre margens. 



Ao  longe, quase perdida entre a vegetação e o rio, o voo da cegonha-preta (Ciconia nigra)

Mesmo a chover a cegonha-preta voava para além do limite dos sonhos.












segunda-feira, 21 de abril de 2014

Uma viagem pelo Parque Natural do Douro Internacional


A viagem fez-se quase sempre com chuva, mas não me importei. As margens do rio Douro convidavam-me à redescoberta contínua. A paisagem silenciosa que desfilava a cada curva servia de alimento aos olhos. Enquanto a imaginação me transportava por entre planaltos voadores e outras lendas. Tudo era alto mas nunca longe ou inacessível. O imenso Douro estava ali tão perto.

No relevo predominavam as escarpas íngremes, socalcos murados com xisto e construções em granito. As vinhas dividiam o protagonismo com o rio. Para onde quer que olhasse, pairava no ar um certo misticismo que me fez sentir saudades de qualquer coisa que ainda não vivi. 

Desde Miranda do Douro, passando por Freixo de Espada à Cinta, até Algodres em Figueira de Castelo Rodrigo, foi uma percurso único pela paisagem e pelas suas gentes encantadoras. A certa altura imaginei o rio como sendo um enorme animal que apartava margens com a elegância do seu caudal. Deixei-me ir no dorso deste indomável ser e eis alguns miradouros e outros quadros que fui colhendo pelo caminho:



Miradouro do Douro Internacional - Entre vinhas e o curso mágico do rio.



Foi no miradouro do Alto da Sapinha que observei um abutre do Egipto (Neophron percnopterus), muito ao longe, mas fazendo parte integrante da paisagem. Conseguem descobri-lo?


O brilho derramado sobre as encostas vinhateiras do Alto da Sapinha (Escalhão) conferiu a esta paisagem um encanto único.

Outro miradouro visitado foi Penedo Durão -  Um  escarpa que em acentuado declive se precipita sobre o rio, oferecendo uma magnifica vista sobre  Salamanca e outros acidentes rochosos que se prolongam, deste lado da fronteira, até Barca de Alva.


O Penedo Durão, com os  seus 710 metros de altura, serve também de abrigo às aves rupícolas.


Deste miradouro podemos observar o planar dos grifos (Gyps fulvus) sobre as margens do rio. 


Enquanto outros tentam abraçar as escarpas.


No Penedo Durão, quando o sol espreitou, surgiram várias dezenas de grifos aproveitando as correntes térmicas ascendentes para ganhar altitude. 



Descendo até à Praia Fluvial da Congida (Freixo de Espada à Cinta) - foi onde dormi e acordei com os pés virados para o rio.



Na neblina que cobria a praia esperei pelo regresso das sereias e pelos ecos do seu chamamento.   


No cais da Congida -  Onde uma barca esperava pela chegada de tantas almas para as transportar rio acima. Estive quase, quase a entrar.


Seguiu-se mais um subida, desta feita até à Ribeira do Mosteiro - com o seu percurso pela calçada de Alpajares de origem romana.


Miradouro São João das Arribas e a melancolia da paisagem - um convite à meditação. Fica a promessa de um dia regressar ao imenso Douro, Património da Humanidade. Até lá recordo o som do cantar de um  rio.






terça-feira, 15 de abril de 2014

Grito de sol






Sem  mãos que a percorra,
na carícia secreta dos segredos 
enterrados entre os dedos dos pés,
de uma ponta à outra,
uma praia estendida na luz que me enche os olhos.
 lembrei-me de ti;
da falta que fazes a esta pequena praia sem verão,
nem nome,
nem pessoas,
ou bichinhos curiosos;
lembrei-me do teu corpo de areia
com vontade de ser grito de sol.