domingo, 25 de dezembro de 2011

Quatro Estações Sobre Monsanto - Chapim-azul (Parus caeruleus)

O fotógrafo Sérgio Guerreiro e a Divisão de Educação e Sensibilização Ambiental da Câmara Municipal de Lisboa, deram início no passado mês de Julho ao projecto “Quatro estações sobre Monsanto”

Este projecto visa fotografar e filmar toda a biodiversidade que ocorre em Monsanto, para sensibilização pedagógica e ambiental. Para tal foram montados abrigos e comedouros onde se efectuam observações das mais variadas espécies de aves; mas não só, pretendemos alargar o leque de registo à flora, aos insectos, mamíferos, anfíbios e répteis. Tratando-se um projecto de voluntariado, o mesmo se deseja transversal e aberto à comunidade onde todos possam ver, ouvir e sentir a voz da natureza em pleno coração de Lisboa.

http://lisboaverde.cm-lisboa.pt/index.php?id=3918

quarta-feira, 14 de dezembro de 2011

O voar da eternidade

Sinto que o tempo e a partícula que Deus fez
não serão suficientes para explicar
a suave demora que Deus levou a conjugar toda a matéria
num céu habitado por tudo o que a eternidade ainda desconhece
num simples verbo que se fez voar

sexta-feira, 9 de dezembro de 2011

Grou

Lá no alto,
seguimos o voo dos grous num balão de ar quente
cá em baixo,
a planície alentejana era povoada por árvores rubras
que avançavam um metro por cada ano de felicidade
Por outro lado,
o Alqueva e as suas mãos de terra viva moldavam a paisagem
arrastando para a margem as cascas das azinheiras
que na noite de todos os santos gritavam pela revolta das coisas que não voltam

Continuámos a nossa viajem de balão sem sentir os pés.
Os lábios gretados pelo silêncio frio
prenunciavam palavras que doutra forma pareceriam versos.
Os olhos fustigados pela geada interrompiam a alegria das lágrimas de tocar na solidão.
A mais de 200 metros de altitude tudo nos parece pequeno,
e até aceitámos a queda de forma pacifica e meramente corporal.
Nunca pensámos na morte certa. Nem tivemos medo.
O adormecer do sol era a moldura perfeita que nos agarrava pela fala.

Dois minutos depois,
O fogo que mantinha o balão a flutuar calou-se,
e nós fomos até onde os Grous nos permitiram sonhar com uma réstia de eternidade.

terça-feira, 6 de dezembro de 2011

Pega-azul

nunca soube prenunciar o azul dos teus olhos de forma correcta,
nem a membrana dos teus abraços onde nos fechávamos nos dias frios de Dezembro.
o chá de ervas verdes que aquecem os solitários serve-nos de abrigo
naquelas manhãs de penumbra matizada em que te transformas
na mais curiosa das criaturas que habita o meu jardim de película imaginária,
raramente te vejo e não menos vezes de procuro,
porque sei que só o acaso cumpre o desejo.

domingo, 27 de novembro de 2011

Café Poema, 2º aniversário, os vídeos



Meus Amigos,

Confesso... Não estava à espera deste mar...
Bem sei que o espaço foi pequeno para tantos abraços em tamanha comemoração.
Depois de uma casa cheia, tão cheia de emoções e sorrisos, aqui deixo uns pequenos vídeos que retratam o 2º aniversário do Café Poema.  Um autêntico Mar de Poetas.

Atuação dos Vox Maris.




Os Poetas da Casa.




O Vinho de Carcavelos e o "Carcaveló".




O Fado.



A projeção da minha curta metragem "Mar" (oportunamente o filme será aqui publicado, na integra, e com outra qualidade de som e imagem)





A todos, o meu Obrigado.

Abraços
SG




sábado, 19 de novembro de 2011

Café Poema O Mar - 25-11-2011 - 2º Aniversário




Meus caros amigos,


É com enorme prazer que anuncio o segundo aniversário do Café Poema.
No passado dia 16 de Novembro celebrou-se o Dia Nacional do Mar e esse será o mote da nossa celebração. No entanto, e como já temos dois aninhos e idade suficiente para ter algum juízo, aqui vai uma mão cheia de surpresas; ora tomem nota:

- Projecção da curta metragem "Mar" - de Sérgio Guerreiro
- Actuação do grupo coral Vox Maris
- A história do Vinho de Carcavelos e do CarcaveLó, Pão de Ló artesanal de Carcavelos, por Pedro Caetano.

e ainda:

O Cappuccino's coffee Shop e o Macro Poema oferecerem*
( leram bem- o-f-e-r-e-c-e-m) um pequeno CarcaveLó, limitado ao stock existente.

 * em tempos de crise esta palavrinha não devia ser sequer pronunciada quanto mais escrita. Não fossemos nós uns mãos largas e uns esbanjadores muito certinhos, por este andar já estaríamos todos presos.


Já agora tragam os vossos poemas sobre o Mar... que água já temos quanto baste.

Saúde e Abraços.

quinta-feira, 10 de novembro de 2011

Fogo fátuo e o artíficio

Fogo fátuo by Sérgio Guerreiro
Fogo fátuo, a photo by Sérgio Guerreiro on Flickr.
Em silêncio, Suki entrou no quarto 127 do Hotel Mandarim,
lá fora comemoravam-se as horas novas de um aniversário qualquer

Suki ligou o telemóvel e despiu o Quimono moderno numa imitação de Gueixa
(quando foi que fiz dezoito anos?)
segui-se um duche rápido perpetrado por uma dezena de mãos fantasmagóricas
posto isto, deitou-se na cama de abandono decorada a preceito
com pétalas de vermelho sangue e pérolas de um branco silencioso.
Passados dez minutos retirou uma ficha de casino da sua mala de senhora
(esta mala foi tão cara, nunca tive sorte ao jogo!)
acendeu um incenso e deixou-o queimar entre os dedos
e esperou como quem espera que nada aconteça depois de uma explosão
enquanto não chegava o morto, Suki...
(morto ou fantasma, como preferirem chamar!)
retirou uma caneta e numa caligrafia tantas vezes esquecida escreveu no ar:

“ De Macau, meu amor, ficou a bandeira e os pássaros de fogo
numa língua que explode todos os dias em estilhaços de verbo saudade
Os gangs e os casinos são habitados por legiões de homens que já morreram
sem que ninguém lhes dissesse como, nem lhe soprasse por cima do ombro tal novidade;
são assim as coisas que queremos esquecer e nos lembramos todos os dias,
eu durmo com estes homens por que sei que eles
morrem sempre um pouco mais, quando no ar explode um sonho distante.

De Macau, com Amor, meu fado”

terça-feira, 8 de novembro de 2011

Ciclo de entrevistas - Um Café Poema com Luís Ferreira


Um dia destes (ainda havia sol) estivemos à conversa com o Poeta Luís Ferreira que nos falou do seu último livro, “O céu também tem degraus” e de outras coisas que não lembra ao Outono esquecer:


Entrevista com Luís Ferreira
(poeta)




SG: Acabou de lançar o seu último livro “O céu também têm degraus” fale-nos dele?

LF: O livro é uma história de um caminho ou de um retrato de uma vida. Tem diversos patamares que retratam a vida do autor e qualquer pessoa se pode rever neles. O livro tem seis estágios mas podiam ser mais. São seis momentos, onde a vida é constituída por outras tantas peças. Cada patamar aborda um tema especifico e o leitor pode explorar esse capitulo. O primeiro e o mote e o último a conclusão desse caminho. Tirando o primeiro, o segundo e o sexto, todos os outros capítulos surgem por mero acaso.  Cada poema é um degrau e cada tema é um conjunto de degraus que constitui o patamar.

Em muitas religiões, existe uma simbologia de uma escada em direcção ao céu, como sou uma pessoa religiosa, associei esta temática ao título do livro




SG:Nos seus livros versa predominantemente sobre a temática do amor e...

LF: Não consigo fugir e mesmo que tente, acabo por ir lá cair. Daí o segundo patamar ser o maior,  é patamar que fala do Amor. Sem Amor não pode haver vida. O Amor não se esgota apenas numa relação entre homem e uma mulher, ou uma pessoa e um clube de futebol; mas antes na grandiosidade dos afectos, sejam eles de que ordem forem. Sou uma pessoa apaixonada e esse romantismo está-me no sangue. Gosto do Amor no seu aspecto idílico. Sou uma pessoa positiva. Que melhor positivismo pode existir... senão o Amor? Neste livro não utilizei a palavra morte. Não consigo abordar essa temática muito embora espere o contacto com Deus, faz parte das leis da vida.  Se eu quero encontrar Deus não pode existir um fim, mas sim continuidade.




SG: E quando o poema não sai?

LF: É uma grande preocupação. Quando escrevo, quando sinto necessidade de escrever, sai sempre alguma coisa. No entanto, alimento o meu fantasma (aquele bichinho que está dentro do guarda-fatos) só de pensar que esse poema não tem valor nenhum. Rasgo o poema e atiro para o caixote do lixo; escrever palavras secas não faz sentido. O meu problema é quando o poema sai e não tem sabor, está frio...  Por isso, não consigo fechar um poema no imediato. Faço uma revisão e volto a escrever o mesmo poema, com outro sentido, com outras palavras. É um quadrado fechado diferente do original.



SG: Os seus Poemas favoritos (dos outros, aqueles que não escreveu)?

LF: Os meus poetas favoritos são os meus amigos. Para mim, faz mais sentido ler a poesia dos meus amigos, uma vez que vou aos seus eventos e partilho com eles esses momentos. Todavia, admiro bastante, Mia Couto, José Luís Peixoto,  Sophia de Mello Breyner Andresen, Eugénio de Andrade, Pablo Neruda. Florbela Espanca e Manuel António Pina.




SG: Agora uma pergunta “verdadeiramente descabida”: Hoje não?...

LF: Hoje espero que o Benfica não perca com o Braga (risos). Agora uma resposta mais séria. Hoje não? Sinceramente não sei se aquilo que escrevo tem assim tanto impacto nas pessoas.
Será sempre poesia?


SG: Depois de tantas outras palavras em silêncios escritas, o meu sincero Obrigado pelo tempo no qual fizemos sombra. Aqui fica um poema do Poeta Luís Ferreira.

Longe

Longe,
Tão longe e ninguém...
Esvaziando o espaço
Onde as lágrimas
Deslizam até à foz.
Há muito...
Que os pássaros já não voam,
Nada existe,
Nem os nomes,
Secando palavras
Quando os dias acabam.
Sem alma,
Equívoca sombra,
Que fecha as pálpebras,
Esperando que os relógios,
Despertem...

“Longe”, in “ O céu também tem degraus” de Luís Ferreira.

terça-feira, 1 de novembro de 2011

Fernando Pessoa na praia de Carcavelos

Outubro 2011,

Em Manukau, Nova Zelândia, uma menina brincava com um elástico azul entre os dedos, até que o elástico se soltou e foi projectado a dois metros de distância caindo num poço profundo. Na impossibilidade de recuperar o seu brinquedo a menina chorou e no seu antípoda:

Praia de Carcavelos.

Depois de uma chuvada intensa uma onda gigantesca levantou-se no horizonte.
Ao ver um enorme corpo de mulher que se levantava sob a forma de maré viva no horizonte, os transeuntes que assistiam a uma demonstração heróica de surf fugiram para o túnel subterrâneo que atravessa a Marginal, abrigando-se da força brutal da maré que se aproximava.

E assim, com estrondo, as esplanadas, os quiosques que ainda vendiam gelados fora de prazo,
foram varridos pela força descomunal do mar, desaparecendo numa espuma branca furiosa.
Sem piedade, a areia, as escadas, o empedrado e até o passadiço, tudo foi desventrado pela sopro ímpio de uma onda com mais de vinte metros de altura.
Algumas pedras foram arremessadas a mais de oitocentos metros da praia, caindo perto da estação dos comboios.

E o corpo de uma alga gigante cobriu a marginal no sentido Cascais Lisboa como se uma enorme cabeleira ruiva de uma deusa grega descansa-se sob a estrada.
Enquanto que, peixes e polvos foram parar à Quinta dos Ingleses, levados pela mão feminina da onda branca descontrolada.
A Protecção Civil não tinha lançado nenhum alerta, mas depressa helicópteros e lanchas foram enviados da Capitania do porto de Lisboa para apurar a dimensão da tragédia.

Quando a maré desceu e o mar permitiu os primeiros bombeiros desceram até à praia.
O que viram?

Outubro de 1924
A Praia de Carcavelos, num hiato de tempo dimensional, onde Fernando Pessoa passeava por entre a fina membrana de espuma que dividia o passado do presente. Dez minutos depois o arrebol pintou a realidade de Athena e tudo voltou a ser partícula actual. No chão um elástico azul boiava numa poça sem reflexo. Ninguém apanhou o elástico e naquele dia ninguém se magoou.

quinta-feira, 27 de outubro de 2011

a menina das tatuagens que voavam

na anca nua e voraz de pele ainda morena
a menina mandou fazer uma tatuagem de uma íbis pequena
mas a ave negra não se deixou aprisionar e escapou
dos poros da pele picotados a jacto de tinta num explosivo voo

a menina passou o verão a toque de espanto
e não satisfeita com tal desencanto
erigiu outra tatuagem no delta do umbigo
uma linda cegonha que ardia no ventre em quente castigo

mas a cegonha não teve vergonha e com o prenuncio do frio
bateu as asas e da pele da menina a cegonha fugiu
triste ficou a pequena que não sabia mais o que fazer
no mapa do corpo louco,
toda e qualquer tatuagem era uma miragem que tendia a desaparecer

o tempo passou e com ele veio a raiz da mudança
agora a menina inscreve na pele da vida
a tinta permanente o embalo de uma nova criança

domingo, 23 de outubro de 2011

Falco Naumanni



Passaram 101 anos após a catástrofe.
a atmosfera transformou-se num miasma irrespirável
obrigando os homens e os animais a uma grande debandada,
e com eles desapareceu a cadência da noite e dos dias
numa penumbra ácida sem sombras nem receios,
porque afinal;
não havia homens nem bichos dos quais pudéssemos ter medo,
só a sede e a seca fazia sangrar as últimas ervas daninhas.

Hoje, 101 anos depois,
um bando de sobreviventes cruzou o sol vermelho,
sobrevoando a planície deserta das terras inférteis
num planalto cinzelado,
lá de cima contemplam a ausência do toque humano
sem vestígios da história ou remorsos do tempo
como se fosse a primeira conquista dos que voltam
 e a última descoberta dos que ficam

Se algum dia a humanidade entrar em vias extinção
passaremos a dar valor às ruínas e às casas abandonadas
das quais, um dia fizemos livros,
e outros mecanismos de contar sobrevivência.

domingo, 16 de outubro de 2011

Ciclo de entrevistas - "Pinturas com a boca" de Nuno Rodrigues


Está patente no Cappuccinos Coffee Shop, em Carcavelos, a exposição de Nuno Rodrigues, "Pinturas com a boca"

Sem mais delongas,  segue-se uma lição de vida!


 
Pintar com a boca exige um outro esforço, uma outra dedicação?

Pinto à seis anos. Foi algo que nasceu por acaso e depois foi algo que se foi aperfeiçoando.





Onde se inspira para pintar?

Pintar é um desafio. E não desisto à primeira. Sou exigente comigo. Quando assino o quadro está pronto. Os quadros que me dão mais trabalho, sinto de pena de os perder, mas por um lado também é bom; é sinal que as pessoas reconhecem o meu trabalho.





  

Quanto tempo demora a fazer uma tela?

Uma semana ou duas, mas depende do grau de dificuldade. 




Os pintores que admira?

O professor António Dulcídeo.
E claro, pintores de referência como Pablo Picasso ou Salvador Dali.



Na sua pintura pode-se dizer que existe um apelo à natureza?

África inspira-me porque nasci em Moçambique. Actualmente pinto algumas elementos naturais, porém inicialmente, comecei por pintar paisagens e nus, o que no fundo também é natureza.

_________________________________________________________________________


E para ti, Nuno Rodrigues.

Ainda que os rios nunca cessem o seu curso
e a luz do dia nos leve a acordar
numa ilha por cima dos céus
em todo o tempo infinito esperança.


Existem Super Heróis que não usam capa, 
nem mascara, 
ou refugio,
não fossem eles...
homens para lá dos homens,
que fazem coisas para lá da força das coisas,
num dom único só alcance da simplicidade,
que habita as grandes constelações de Sonhadores.

Eles que sustentam o eixo do sorriso 
afinal, na forma mais pura d 'arte.

SG






terça-feira, 11 de outubro de 2011

Guarda-rios

a um Guarda-rios chamado Amélia

Amélia tão só Amélia, simplesmente um dia
chegava tarde sem que tarde fosse
ao lugar onde todos os nomes foram inventados
escritos, baptizados na negra pedra angular do rio
para que a força da corrente os levasse para longe
o nome que julgava seu
e assim noutros lugares a voz da maré repetiu
por toda a parte o nome que ninguém mais ouviu
apenas Amélia destino tão só um dia.

Noitibó-de-nuca-vermelha


Em Évora,
depois de darmos uma dúzia de voltas de reconhecimento
pelo monte e pela casa cimeira que sustinha Vénus de cair
na garganta térrea, no vitral crepuscular que nos lava os olhos,
encontrámos os pequenos seres de que falavam os insectos amedrontados.

Os anjos nocturnos querem-se discretos, mas acima de tudo,
desejam passar despercebidos por entre o canto motor da noite,
onde confiamos tanto na camuflagem dos pecados
que quase pisamos as virtudes.

segunda-feira, 3 de outubro de 2011

Peter Murphy - Concerto em Lisboa - 02-10-2011



a Peter Murphy (Ulissipo, 2ª lua de Outubro negro, ano 11)



descalço, de voz sem igual,
a mesma pose imponente de sempre,
animal de pó de palco nocturno no adejar de braços que já foram asas
do tempo das capas negras
e dos vampiros em vermelho fragmentado quase água forte


"Bella Lugosi's Dead" 


o momento que já não volta mas que nunca se esquece,
como as  coisas boas que aprendemos e não subtraímos o seu sabor

"Silent Hedges”
o palco cheio, o anfiteatro cheio, e eu, por instantes, num escafandro corporal vazio, sem pinga de sangue,
a minha voz sem fala, a minha alma sem dor (pelo menos daquelas)

“She’s in parties”



“All I ever wanted was everything" 
com a estranha sensação que já estive ali,
naquele mesmo sítio,
que já vivi aqueles momentos
talvez numa outra vida dentro deste invólucro invisível

“Hurt”
foi uma noite onde se celebrou o regresso das coisas cá de dentro;
uma noite em tudo diferente de tantas outras
onde o fluxo sanguíneo foi invertido pelo mecanismo cardíaco das palavras novas,
memorial de sentimentos divergentes, cambiantes originais, matérias primordiais e memória.

“The Prince And Old Lady Shade”




“All Night Long”
isto porque...
nunca voltamos ao mesmo sitio e sentimos as mesmas coisas de forma igual;

“Cuts You up”


sentimos-nos diferentes,
como um livro que redescobrimos que não tem pontos finais,
quanto mais não seja, uma virgula de fala embargada,
e lemos o que fomos um dia:
aquilo que não voltaremos a ser, recordamos apenas,

a calda quente de uma noite em assobio lunar
vertigem, saudade, amor e fogo que não queima os dedos,

E no final, uma canção que não pertence a esta vida,
mas a outras vidas dentro e fora desta.

“Strange Kind Of Love”


sábado, 1 de outubro de 2011

Abelharuco


Da chaise-longue despida de corpo na Ericeira
ela lembrou-se daqueles dias espreguiçados numa folha de calor:
dos cafés frios, dos gelados mornos, dos bolinhos da pastelaria matinal,
das correrias ao fim da tarde, dos sorrisos de nata queimados em juras,
da língua salgada da praia e dos corpos derretidos na falésia;
e de tudo o resto marginal que foi promessa breve
que não almejou ser desejo apenas queda da pele transparente.

Antes de fechar a porta das águas furtadas, poiso de férias,
ela enrolou o rosto num incógnito e multicolor turbante,
pegou nas malas cheias dos segredos que as saudades calam
e por fim, certificou-se que perdia a chave no local do costume.

sexta-feira, 23 de setembro de 2011

Convite: Café Poema 30-09-2011







Um desafio.
É certo que a voz da poesia não tem sexo. Contudo, curioso será ouvir;
um poema escrito por uma mulher declamado e defendido por um homem, e
um poema escrito por um homem interpretado e protegido por uma mulher.

Numa batalha de versos conjugais, que se quer pacífica, onde os sentimentos das vozes que sentiram serão diferentes dos ecos que as repetem.

O desafio está lançando. Não se sintam rogados e venha de lá essa voz.








quinta-feira, 22 de setembro de 2011

Ciclo de entrevistas - Café Poema com Branca Rodrigues



Devagar...  Vamos dar início a um ciclo de pequenas entrevistas  com os artistas que assistem ao Café Poema no Cappuccinos Coffee Shop em Carcavelos.


A nossa primeira convidada é Branca Rodrigues, pintora e frequentadora assídua da nossa tertúlia e com uma exposição de pintura patente no Tea Lounge na Parede.


Entrevista com Branca Rodrigues, em 4 perguntas:
 
SG: Para si, como nasceu o gosto pela pintura?

BR: Já veio comigo desde pequenina. Aos sete anos fiquei fascinada com a revista “ Fagulha” e o "Cavaleiro Andante". Lá em casa, todas as revistas que eu apanhada, era o suficiente para ir ver logo as ilustrações, e era isso que gostava mais. Nos livros, as ilustrações Conde Monte Cristo tornaram-se marcantes. Tal como as histórias do meu pai sobre bruxas e o lobisomens. Gostei muito de geometria, que o meu irmão estudava, era o rigor. E visitava os Oleiros ( havia 9 nove em Árgea, concelho de Torres Novas distrito de Santarém) e fascinava-me com os desenhos que eram feitos. E até ajudava...
Sempre gostei de desenhar. A minha primeira exposição de pintura foi no clube Naval em 2001.

SG: Onde se inspira?

BR. A minha pintura é uma viagem.
É o que me vem à cabeça ( ou de outro lado qualquer) e vou-me lembrando das coisas que acontecem durante essa viagem; começo a pintar os sítios, às acções, às emoções, recordações e as sensações. O meu o trabalho não é auto-biográfico, é antes, movimento gestual expressivo . Uma viagem até à praia é inspirador. Já pintei na rua. No meio de muita confusão fico concentrada. Dá-me liberdade de pensar. É um gesto rápido, uma pincelada de cor, e no fim fica bem...
 
 SG: Pintores que mais admira?

BR: O meu primeiro contacto com Pablo Picasso foi marcante. Tal como a vida dele e a maneira como ele via a arte. O tamanho da Guernica fascinou-me. Em El Greco, identifico-me muito com a linha das figuras no expressivo movimento das mãos. No caso dos portugueses, gosto muito do Pomar e do Júlio Resende.
 
SG: E a Poesia?

BR: Gosto de poesia porque tem muito movimento e ritmo... O meu poema favorito é do Cesário Verde o “piquenique de burguesas” e claro o "Livro do Desassossego" do Fernando Pessoa.

Então, para Branca Rodrigues, aqui fica:

DE TARDE

Naquele pique-nique de burguesas,
Houve uma coisa simplesmente bela,
E que, sem ter história nem grandezas,
Em todo o caso dava uma aguarela.

Foi quando tu, descendo do burrico,
Foste colher, sem imposturas tolas,
A um granzoal azul de grão-de-bico
Um ramalhete rubro de papoulas.

Pouco depois, em cima duns penhascos,
Nós acampámos, inda o Sol se via;
E houve talhadas de melão, damascos,
E pão-de-ló molhado em malvasia.

Mas, todo púrpuro a sair da renda
Dos teus dois seios como duas rolas,
Era o supremo encanto da merenda
O ramalhete rubro das papoulas!

Cesário Verde (1855-1886)

quarta-feira, 21 de setembro de 2011

Guarda-rios




Para Carlos Rio:

Dizem que naquele dia roubaram o sol;
a chuva era uma sílaba que se desejava de rápido sabor
do rio até às nuvens estendia-se uma escadaria de degraus infinitos,
quando uma flecha de azul celeste cruzou o estuário das almas,
e da infértil terra de cemitério nasceram flores
que ainda hoje voam.

quarta-feira, 14 de setembro de 2011

Sisão / The Little Bustard / (Tetrax tetrax)

No Alentejo, quando se sai da cidade Pax-Julia,
virando à direita, em direcção dos vinhais de Vitigeria,
há um ponto de coordenadas mágicas;
uma janela dimensional suspensa entre duas árvores de sobro
que mudam de lugar todas as noites:
audazes daqueles que a descobrem e fazem o tempo parar.

Nesse instante,
a voz do vento e da mulher despida de paisagem disse-me para ficar:
“só mais um segundo, por mais ínfimo que seja,
apenas mais um segundo, só meu e das coisas só nossas
não é pedir muito, pois não?”

Antes de desfazer as asas brilhantes de película binária que me trouxeram até aqui
contemplo o cosmos que trago na ponto dos dedos,
imagino que no topo dos sobreiros possam existir cidades tão pequenas
que fazem inveja às cidades inimagináveis do que nunca fui.

sexta-feira, 9 de setembro de 2011

Monólogo da Espera editado na Revista-me

 

Na terceira edição da excelente revista Revista-me podem ler o meu conto, O Monólogo da Espera, adaptado para teatro o ano passado no Café Poema. Agora em formato digital e de fácil leitura aqui




quarta-feira, 7 de setembro de 2011

Sisão

No cume da planície Alentejana,
há quem diga;
que o sol é um ilhéu em pleno naufrágio
e a lua, uma mulher que dança no pião e na malha do tempo

Há também quem conte;
que nos braços das ilhas do Alqueva existem pontes imaginárias,
onde os homens ainda não descobriram a cor nem o sal das lágrimas,
e o brilho do terço das viúvas tem o encanto de rejuvenescer as almas

Na beleza única das rugas do delta além Tejo
há quem cante a Deus por estas e outras vinhas,
num corpo de árvore feito alto madrugar
e tudo mais vive sem que se dê conta.

segunda-feira, 5 de setembro de 2011

Rã-verde

Por uma questão de honra anfíbia:
nunca ficamos no parapeito da janela mais do que dez minutos,
sorvemos as novidades dos desorientados insectos mensageiros
e submergimos logo a seguir nos ecos verdes que se propagam na água;
às vezes somos tentados a sair para outro reposteiro mais soalheiro,
mas não é mesma coisa, nada se compara com o nosso charco.
por isso, fazemos fé nos pulos que o mundo dá para não saltar daqui para fora.

domingo, 4 de setembro de 2011

Andorinha-das-chaminés

A rapidez com que dizes primavera
é a mesma com que cortas as correntes de ar,
e as flores deixam de ser flores e passam a ser perfume,
quando o azul nasce todos os dias no caule do sol,
com a mesma rapidez com que dizes Setembro.

Chapim-azul

De cabeça para baixo tu dizias que:
o mundo estava de pernas para o ar.
eu concordava; na expectativa de te ver desenhar uma cambalhota acrobática,
roendo-me de inveja pelo teu malabarismo que conferia aos optimistas
uma outra visão, só ao alcance daqueles que buscam o cume da fragilidade
transformando-a na maior das virtudes: um canto de esperança.

Vespa-do-papel

E da dor que um dia foi ferida aberta ao sol
a picada do insecto de papel fez capturar o cupido
na teia de âmbar que vive para além luz crepuscular,
e quando se queria libertar das asas dos ventos idos,
apenas restou arma afiada da saudade
que na têmpera do tempo foi apenas
ínfimo milímetro do que poderia ter sido .

Joaninha-amarela




No teu dorso amarelo salpicado por pintas negras,
imagino o requinte da joalharia que inunda os olhos
dos fabricantes de sonhos e outros dissimuladores virtuais;
como desejaríamos andar enfeitados por insectos vivos de luz!
no colarinho da camisa, na gravata aperaltada, 
ou na língua bifurcada por um piercing insectívoro;
mais  tarde e talvez mais satisfeitos...
sentiríamos que a linguagem da dor,
proferida pelas alfinetadas ao rasgar o melindre da pele,
são o único sabor que a realidade nos oferece.

domingo, 7 de agosto de 2011

Poema Colectivo - 29-07-11- Anti-crise

Meus Amigos,

as vossas palavras num poema colectivo "quasi" bilingue.

 




É agora ou nunca: temos a oportunidade para acontecer
Je crois que dans le ciel il ya une fleur d'espoir
Talvez com menos ganancia e um pouco mais de amor
Ajuda-me que eu preciso dá-me sempre a tua mão
não fiques indeciso porque eu de ti preciso
Crise tempo de crescimento
tempo para reinventar a alegria e o abraço
meu amor, o mar...
o tempo que faz lá fora é o calor que temos cá dentro
A crise serve de desculpa para o que corre mal
mas nesta fase de transição vou deixar a palavra crise
e troco-a por uma esperança
pois a vida é composta por mudança
já dizia o poeta...
Correu-mal as provas de aferição
e para resolver isso tenho que estudar mais
e ter atenção às aulas
Mas continuamos vivos!



Agradecimentos:

a todos os que apareceram
aos que desapareceram
aos que escreveram 
a todos os de coragem
aos outros da outra margem
Amigos em noites de palavra e partilha 




Ah....quase me esquecia
ao Rafael Melo pelo registo fotográfico "desfocado"
e à Manuela pelo Licor Beirão sem pedras de gelo.

segunda-feira, 1 de agosto de 2011

Vila dos prazeres descalços



Na vila não se falava de outra coisa...
esta manhã a dona Aurora,
púdica confessa todos os dias, incluindo feriados e domingos,
mas capaz de violar o enteado leiteiro no meio de tanta fominha
deparou-se com um fenómeno estranho:
Vários tipos de calçado, suspensos  pelos atacadores nos fios eléctricos baloiçavam ao vento como corpos dependurados,
para que conste: uns mokasans pretos nº36, uns sapatos-vela castanhos nº 42, e umas sapatilhas de ginástica nº 34

E não é que...
cem metros mais à frente, na rotunda, como quem vai para a drogaria do vinagreiro chunga
um casal de jovens em pelota, entretidos na degustação libinal,
marcavam no empedrado em preceito bem aprumado,
uma erótica acrobacia das quais projectavam sombras gigantes num relógio de sol em carne humana
numa alusão espíritos protagonistas do kamasutra
tal não era a composição sexual num acto perene sem desfecho à vista

Era bonito de se ver, tal labor e empenho na satisfação mútua,
a vila centrava-se num fio de baba a escorrer pela boca aberta dos seus habitantes
uns, montados em carros de bois, de velas nos faróis e  pneus em câmara de ar remendada, badalavam chocalhos numa alegre romaria e chinfrineira,
enquanto outros, empoleiravam-se nas janelas batiam tachos e panelas numa algazarra endiabrada;
porém o casal mantinha-se na deles como se nada fosse,
entretidos por fazer cumprir o desejo em acto contínuo

Ora quando a Dona Aurora viu os jovens naqueles impróprios preparos no meio da rotunda em plena circulação diurna
veio de lá com a sua besta de estimação, uma esfregona vileda de última geração, daquelas que chegam aos sítios mais difíceis,
e toca de arrear a bom ritmo nos miúdos que ainda agora descobriam as valências da boca nos sexos e dos sexos nas bocas
Os jovens de tez branquinha e suada, com nódoas negras ficaram de tanta pancada
e com medo de apanhar ainda mais
lá se separaram da boda húmida que os unia
nesse precioso momento uma enorme descarga eléctrica fez-se ouvir
e começou a cair dos fios eléctricos todo o tipo de calçado que ali estava pendurado,
seguiu-se um clarão os jovens nus evaporaram-se

Há quem diga que o casal seriam Anjos dos 7 Pecados ou Demónios alados
opinião contrária teve a Dona Aurora que fez figura de tolinha
com a sua esfregona vileda no meio da rotunda
a esbracejar à maluca num preceito de ébrio policia sinaleiro
nada mais foi igual desde então e toda a população
em memória de tal aparato passou andar de pé descalço
 
Após esse dia a vila foi baptizada com um letreiro
no qual se podia ler:

" Vila dos prazeres em pés descalços, terra dos que fazem em público, aquilo que outros sussurram em privado”

segunda-feira, 25 de julho de 2011

Café Poema - 29-07-2011 - Anti-Crise







Sejam bem-vindos a este cantinho Portucalense, 
onde, desde de tempos imemoriais,
temos andado de braço dado com a senhorita crise
numa dança de pé descalço e desajeitada pisadela. 
porém, 
dos Poetas, visionários, sonhadores fizemos corpo 
e num triunfal engenho contornámos ratoeiras
impostas pelo plano inclinado do soalho em curva  
tantas vezes envernizado a jeito do trambolhão 
e da monumental palhaça
mas na dança do pé descalço levantámos a palavra
na valsa do sonho por um cantinho melhor.

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e assim será o próximo café poema, apareçam!


SG

terça-feira, 28 de junho de 2011

A menina da rádio



Quando eram 02:00 sintonizou a frequência de éter sem amparo ou sono
e esperou pelo início do seu programa de rádio favorito
depois deixou-se cair na cama de livros moribundos num suave deleite
ao sabor de uma voz infinita de aguarela colorida
que se desprendia dos frutos quentes da noite em calda doce e sílabas de mel

Por mais que uma vez, ele imagina o sorriso da voz,
nunca estabelecendo um paralelismo direto entre a locutora e o sibilar da fala que a habitava
como se a pessoa do outro lado das ondas hertzianas fosse uma entidade
e a sua voz fosse outra, numa janela de alma diferente
que jamais se juntariam num invólucro único e comum

Para ele, aquela voz era um fio de azeite e o corpo uma filigrana de água
passou a noite desfolhando as improbabilidades das parecenças
escutando o bater acelerado do seu coração
sempre que a locutora anunciava uma outra luz de canção

Por sua vez, no estúdio da rádio,
um corpo de transístor autómato proferia o canto das estrelas
em piloto automático de uma playlist sistematizada
nisto a menina da rádio chegou ao estúdio ensonada
mas ainda a tempo de desligar o computador,
por respeito de todos aqueles que se rendiam aos encantos invisíveis
que pairam no ar, sem rede, ante a vertigem do imprevisível,
a locutora ocupou o seu lugar e...

Abriu a emissão com a sua voz de sempre,
ele apercebeu-se da diferença e o sonho em aguarela de éter continuou.

sexta-feira, 10 de junho de 2011

O enforcado falhou!



Agora que nos preparávamos para chorar em conjunto, o enforcado falhou!
Convocou toda a gente para o seu derradeiro momento e sem mais nem menos, o enforcado não foi enforcado.

Logo agora!
que estávamos em directo para as televisões, rádios e Internet,
muito atentos para assistir ao enforcamento do enforcado que mesmo antes de ser enforcado já tinha falhado.

Bem me avisaram que ele não era de fiar. Nem um pouco!
Não é à toa que se convoca um padre, dois policias, um taxista (não percebi o motivo da presença do fogareiro) uma prostituta, um autarca, duas irmãs gémeas siamesas, um gestor bancário, uma agente de seguros, um cobrador especializado, dois cães e um caracol. E ele mesmo assim falhou.
Desiludiu toda esta malta acérrima depositária das suas esperanças e tão sedenta por juras de sangue (mas não muito, vá lá só no colarinho)

E ele... o maldito enforcado falhou!
A corrente que dava duas voltas ao pescoço não o estrangulou e pior do que isso não susteve o peso do homem. Há coisas do arco da velha - dizia ela enquanto afastava o fumo de um cigarro alheio, ao mesmo tempo que dois bombeiros e um policia retiravam o corpo completamente depenado que tinha caído ao poço.

Há quem diga que  o enforcado sentiu-se atrapalhado quando viu muita gente junta.