domingo, 22 de agosto de 2010

21%




a pairar no rebordo da costa quase bronzeada
em frenesim do ínfimo alfinete pela prospecção
eis que da derme desprende-se uma gota salgada
seguindo-se um zunido irritante e uma picada 
de ponta afiada eles lambuzam-se em secreta degustação

de que me vale
enrolar-me em papel vegetal feito mortalha
ou besuntar-me em repelentes não mais que acendalha
tão pouco desenhar no ar uma elipse em tom de protesto
ou afugentá-los à paulada estalada palavrão e manifesto?

eles lá estão
na antecâmara que ladeia o meu flanco
expiam a miragem do meu contra-ataque
ante tamanha surpresa de um alvo ainda em branco
voam para cá e para lá deixando o meu corpo a saque

e voltam às voltas
a flanquear o cúmulo do meu labor voam na eminência
de chupar até ao tutano o que resta da pele da minha paciência 
já agora.. seus.... grandes...

grandessíssimos sanguinário pernilongos cruéis
de fato e asa com poleiro bancário tantas vezes parlamentar
este meu corpo que usam como pisa-papeis
tenham lá dó e deixem um poro ou outro por sangrar.

quinta-feira, 12 de agosto de 2010

e morrem florestas

não fosse este rectângulo
um país que caminha em pés de barro para a fornalha da desculpa
onde morrem jovens-árvores-bombeiros e morrem florestas-viandantes
onde se brinca ao faz-de-conta-que-somos-ricos-e-bonzinhos
tudo seria diferente
doidos? não. malucos? muito menos. digamos antes assim,
assassinos que se masturbam ante a sua façanha de tresloucada piromania,
sem que ninguém lhe abra a goela e de tição inflamado siga rumo até aos intestinos.

arde-me os olhos por isto não passar disto mesmo
um desabafo a quente.

segunda-feira, 9 de agosto de 2010

aluga-se



[porque a vista também come]
a estrear o corpo e o soalho fino
mais o tecto falso as aduelas e os caixilhos
das janelas o vidro duplo e o silêncio interior
o espaço sempre maior que o canto
nas paredes a imensa tela virgem de histórias por contar
o cheiro a diluente tinta misturada e distendida
no encanto da cal em miniatura de sonho
as portas sempre abertas para arejar o cheiro a novo
a marca subtil da mão no jeito da maçaneta

[porque às vezes a boca também vê]
vistas largas, desafogadas, áreas honestas
sem rumores de vizinhos e ainda sem fantasmas
sem discussões, sem estrondos nem dormidas no sofá
nem fila para ir à casa de banho que aflição medonha
para isso é wc no quarto e já está

[porque bem vistas as coisas - não é muito caro]
muito pelo contrário T1 e T2 ou T3
as divisões sem divisão na sala na cozinha
ou no hall ou até quem sabe open magnífico space
e depois é ver os risos presos por duas molas nos estendais da roupa
e assim se vive feliz
nesta casa novinha em folha, suspensa no cimo da única árvore
que resistiu aos incêndios de outras tantas partidas estivais

[porque a memória também se alimenta do erro]
aluga-se ou arrenda-se, melhor que isto só dado.

domingo, 8 de agosto de 2010

apenas isso



[apenas noite branca e silêncios]
lembro-me de ver-te entrar no mar de Janeiro
carregando o peso de um longo véu branco
de passo calmo serena sem que nunca olhasses para trás

[apenas um tratado entre as mãos e a fúria de ficar]
do areal deserto gritei para que voltasses
na esperança que o medo te colhesse
como o frio que abençoa os solitários 

[apenas ida em frente apagando o rasto do que ficou por dizer]
e tu sem hesitar rasgaste a primeira vaga
depois outra e mais outra, até perder-te de vista
naquele mar fechado de um livro e nua era a tua página

[apenas isso e tão só uma marca de água]

domingo, 1 de agosto de 2010





visto de longe, imóvel em horas a um canto de pó

não tenho dúvidas sobre isto

[ dúvidas sobre o quê?]

não sou eu que habito esta página

[ então? ]

quando pego em algo para escrever há uma força que me obriga

a inclinar-me, declinar, pensar, registar todo o movimento que respira fome de criação.
às vezes dou por mim a infligir rudes golpes na ponta dos dedos.

[ mas és tu que escreves... ]

mais ou menos. é como se a caneta de prenhe de ideias fosse um prolongamento do meu corpo
e o corpo não passasse de uma biblioteca de recados e nódoas vivas de tinta.

[ e porque dizes isso? ]

não sei. há dias assim.

[ espaço ]

as palavras são tão brancas que tingem a língua de silêncio em aftas de fala

[ assim como?... ]

não me apetece escrever. não me apetece ser. não me apetece ir. só ficar em pó e mais nada.

[ só isso? ]

e não basta ? olha lá uma coisa.se começasse a esgravatar, só iria escrever o que não me apetece que seja escrito

[ se tu o dizes. mais nada! ]

ninguém me levava a sério!

[ isso é verdade!]

maldita hora em que não amarrei os dedos à boca

[ ainda bem que o dizes, e não o escreves. ]