domingo, 27 de dezembro de 2009

63



aos 63 anos, ela disse:

– já são 63... não é brincadeira!

à minha frente, a mulher de quem se diz ter inventado o mundo
enquanto eu contemplava o seu rosto de rosa perfeito - caleidoscópio de recordações
e desenhava nas rugas felizes a guelra do seu nome
percorrendo as vertigens que desaguavam na sílaba de cada sorriso

– 36! – respondi, desafiando-a.
ela a perscrutar no meu rosto o ínfimo sinal de criança
– parece que foi ontem, ainda eu...
siderado com o permutar colorido que subia da flor que lhe ofereci
até aos seus olhos que sem querer me presenteou
– obrigado

enquanto eu saía, a mulher de quem se diz ter inventado o mundo, ficou a olhar para a porta que nunca se fechava no trinco.

sábado, 26 de dezembro de 2009

mandrágora



um vulto em forma de mulher desagua na mandrágora repentina
esperei dias pelos dias numa dor silenciosa
arrastando-me pelas paredes surdas
passando incógnito por entre tanto fogo de artifício dos outros
explodindo nas bocas de incêndio que enfeitavam as festas solitárias
longe quedo a um canto mirando o desastroso tédio da noite
sabia onde estavas mas não…
não passei por aí
nem procurei colher uma pétala do teu nome
nem uma palavra
nada era tão bom como o vazio de um copo morto no trago triunfante
houve tempos que coleccionei-te na lamela microscópica de quem pergunta porquê
depois desisti
quando a resposta era sempre a mesma
porque sim
não havia mais nada a dizer
mas talvez houvesse
e eu dizia-te
“o que o mar leva a maré traz”
lembras-te?
hoje cruzámos sorrisos numa mesa de café
assim sem mais nem menos como quem diz olá tudo bem então como vais
fizemos figas cruzámos os pés
para que tudo fosse melhor do que realmente é
e para que não nos afogássemos na teia da realidade
há quem diga que somos assim
uma vez irmãos, irmãos para sempre
de armas, livros, sombras, corpos de partos diferentes
mas um café e um copo com água chegaram para matar a sede
que o silêncio nos obrigou a engolir
não fossem os nossos pais os mais discretos incógnitos viajantes
nunca teríamos sido amantes.
e isso não cabe em nenhum bilhete de identidade.

segunda-feira, 21 de dezembro de 2009

Café Poema

11 de Dezembro de 2009
–  Cappucinno 's coffee shop –



Num ambiente calmo e descontraído, uma casa cheia para ouvir poesia e essencialmente boa disposição. muitos foram os Poetas revisitados e outros tantos descobertos. tivemos de tudo um pouco. desde os mais tímidos aos mais destemidos, passando pelo Fado cantado à capela, e até uma jovem poetisa, com apenas 4 anos, brindou-nos com a alegria da sua livre interpretação.
E por fim, num exercício puramente descomprometido e espontâneo e sem mote previamente estabelecido, grande parte dos participantes compuseram uma estrofe de um poema que se queria colectivo.
Aqui fica!

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No silêncio da noite procuro por ti
a noite está fria e o café quente nesta noite há poesia e a alma o sente
a vida é como chocolate quente
e tu dizias:
“Só sei que nada sei”
enquanto isso, coisa nenhuma:
a árvore enobrece e acalma os meus sentimentos
eram quatro os olhos tristes postos em mim
cão de orelhas engomadas minha cadela estremunhada, só tu Milú
folhas de chá no fundo da chávena que dizem o futuro
e a noite fria, de repente torna-se agradável e quente
e viva a alegria!
tanta luz! Tanto grito que sai, da noite escura
e no meio de todos e de ninguém
disparo a bala do que sou
e lá vamos nós de volta ao principio
se o amor não existisse a vida perdia o sentido
hoje sonhei que sonhava contigo
ainda que eu faleça na língua do homem e do anjo
amor serei como o bronze que soa ou como o címbalo que retine
talvez amanhã, porque não hoje...
olhos de metal que nada vêem
minhas feridas só você
apaixonado por ainda estar apaixonado.

os Autores: As 21 Almas de um Café Poema.

domingo, 20 de dezembro de 2009

encontro por acaso



tanto tempo para não te ver
embarquei na canoa que leva o esquecimento
para terras sem margem ou volta
quando lá cheguei
feliz pelo acaso de me ter perdido
que logo me achei  na boca do teu sorriso
aberto
faz tanto tempo

domingo, 13 de dezembro de 2009

saldos cegos





do outro lado da montra a manequim convida-te a ocupar o seu lugar
acredita que é tão fácil por ser de plástico imediato prático e sintomático
ainda para mais em suaves prestações que te fazem esquecer 

o quão efémero é o desnorte da felicidade
e ela ali vai estar nesta loja ou noutra qualquer

rua abaixo bairro acima de olhos vendados num gesto convidativo à descoberta

e tu
que já passaste por tantas outras montras não ficas indiferente ao seu apelo
e quase inamovível permaneces petrificado a olhar para a loja
à tua volta tudo gira sem sair do mesmo lugar
num redopio cruel de tempo onde as ruas não são mais que jogos de sombras
e os seus passageiros de rostos incógnitos caminham nos seus sapatinhos de corda

depois de acender um cigarro de chocolate pensas que
não precisas de montra para te esqueceres que já foste assim
desvias o olhar da manequim que te vê partir
e sem mais
caminhas com os sacos cheios de nada até ao centro do mundo fechado .

água forte




a sede com que te entregas ao barro e à forma
como um animal rebelde que finge ser todos os dias um pouco mais selvagem
e passas a cara pela água escura - satisfeito -
depois desenrolas a língua na ânsia de sorver a imagem
que todos dizem ser de um animal procurado no bestiário
não ligas nenhuma ao que os outros dizem
calmamente certificaste-te que ninguém te seguiu até aqui


deixas o teu exoesqueleto a beira do riacho
limpas as últimas escamas para te livrares dos restos de carne
e raspas o que resta das unhas afiadas no sangue da pedra
por fim mordes o lábio até que a dor seja um caudal vermelho
e mergulhas na porta
onde do outro lado todos te esperam
em aplausos politicamente discretos.

azul de mim





às voltas pelas arestas de uma cidade que se tinge de fuga
paro junto ao bairro que se desfoca sempre que o recordo
ainda penso que pertenço a este lugar
às arestas de betão ou aos caixilhos das casas
aos elevadores que nunca desciam
ou aos patamares de ladrilhos de pedra e areia
onde uma luz vacilante hesitava
como eu
sempre que subia pelas escadas
as lâmpadas calavam-se na mais pura conspiração
depois às apalpadelas lá tirava a chave e entrava
numa toca escura e só - a minha casa -
e da janela reclamava todo o horizonte que inundava os meus olhos
lá em baixo era sempre abismo e via


o jardim a fonte que há muito deixou de ser caminho de água forte
as pessoas e os seus sacos de compras e até os putos de gritos primaveris
faziam-me sorrir de vida pequena maior que a minha
mas nem isso existe agora
o que existe é desfocado e irreal


acho que devia bater à minha porta
mas será que alguém vinha abrir
o melhor é passar despercebido e esperar
que um vizinho mostre algum arrependimento
e me volte a chamar com um palavrão qualquer
mas nem isso
nem os fantasmas gostam de voltar
quando não são chamados.