sexta-feira, 27 de fevereiro de 2015

Biomelides: Lagostim-vermelho-do-Louisiana




Este lagostim-vermelho-do-Louisiana (Procambarus clarkii) atravessou-se à nossa frente destemido e com ar de poucos amigos, exibindo orgulhosamente as suas pinças antes de entrar na lagoa. 

Estávamos nos anos 70 quando o lagostim-vermelho-do-Louisiana foi introduzido em Badajoz com fins estritamente alimentares. Porém, rapidamente esta espécie alastrou pelas bacias hidrográficas da Península Ibérica e tornou-se invasora, originando impactes negativos nos ecossistemas. Estamos perante um exímio escavador de túneis, esta actividade pode causar perca de água nos arrozais e consequentemente danos nas culturas. Sendo oportunista, alimenta-se de tudo um pouco, e devido à sua ampla capacidade de adaptação ao meio, suporta facilmente variações de salinidade e temperatura, contribuindo assim para a diminuição da biodiversidade existente nos habitats.

Trata-se de uma espécie de risco ecológico referenciado no inventário: 

Daise – Inventário de espécies exóticas invasoras na Europa (Comissão
 Europeia)








terça-feira, 24 de fevereiro de 2015

Berlim




sei que um dia virás do lado oriental do sonho
até lá dou de beber ao desengano do homem
nas asas mecânicas dos relógios da guerra fria,
cruel teia de luz de que falam os meus dedos.

(acerto o tempo em que não te vejo)

dia após dia salgo a saudade em carne viva,
leio-te nos livros onde diariamente nascem páginas novas
das quais arranco letras com a memória dos olhos
para saborear a caligrafia longínqua da tua concha abrigo.

(imagino que te prolongo para além dos abraços)

até que ao oitavo sol recebo-te num corpo postal
um eco a preto e branco de uma cidade dividida,
quando nasceste caíram muros e o mundo ficou mais perto
mas aqui estou eu no meu lado ocidental a florir sentado.

(em cima das raízes e dos destroços da tua paz)

sexta-feira, 20 de fevereiro de 2015

112+1




O veículo arrancou tão rápido como o sangue que lhe subia à cabeça,
deixando para trás luzes anónimas dos acidentes e dos destroços de alma,
ela sabia que não havia tempo para além do tempo que não tinha
e lamentava-se "como foi uma coisa destas acontecer..."

Dentro da ambulância reparava no vaivém do crucifixo atado ao espelho retrovisor,
um amuleto com tantas promessas por pagar,
ao seu lado alguém consertava a máscara de oxigénio da sua outra vida,
- o crucifixo baloiçava para trás e para a frente -
"ah se ao menos soubesse rezar..."
com carinho apertava a mão da sua outra vida e dizia baixinho:
" fica comigo esperança!"

Ela continuava:
"se não fosse a esperança...
não havia amanhã, não é verdade?"
as sirenes pulsavam com a morte das estrelas incógnitas.
"nunca te disse que tinha saudades tuas, pois não?"
a ambulância seguia em contra mão, sem regras ou abecedários,
"não me lembro de te dizer que te amo"
desprezava os semáforos, os carros transparentes desviavam-se,
"prometi-te que..."
a emergência da realidade em velocidades diferentes,
"um dia destes.."
as palavras eram condensadas em vapor de lágrima,
" havemos de ver..."
nas manchas de óleo sentia-se o respirar rápido da estrada,
"o Cristo Rei meu amor"
em vermelho denso, o trânsito plástico iluminava o crucifixo e o espelho retrovisor.
"fica comigo"
ela repetia tantas vezes o que nunca antes lhe tinha confessado
com medo de ficar com mais ausência do que estrada.




quarta-feira, 18 de fevereiro de 2015

Meo Kanal 747500 em destaque




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Hoje o meu canal encontra-se em destaque no Meo Kanal,







segunda-feira, 2 de fevereiro de 2015

Exposição de fotografia "A Água e as Aves"



A exposição de fotografia " A Água e as Aves" encontra-se em digressão pelo sul país e desta vez vamos estar de 7 de Fevereiro até 7 Março na Biblioteca de Grândola.






Um convite | uma biblioteca | numa vila morena | h2o| fotografias | Aves 


apareçam 


 por certo valerá a pena!




domingo, 1 de fevereiro de 2015

Às vezes só




Percorria a avenida em busca de uma livraria
escolhia um livro que já tivesse lido
e corria para casa junto ao parapeito da janela
recordava aquela altura
em que as páginas não eram pesadas e os risos fáceis e lia
até que o horizonte fosse esquecimento fio de noite
e o gato a provocasse para uma última brincadeira
por fim juntos adormeciam sem frio.

Às vezes só e ela dizia: Tu também.

ia ao cinema onde adormecia com as vozes que nada lhe diziam,
guardava o bilhete que pendurava numa árvore pequenina
junto à mesa cabeceira,
onde os santinhos eram adornados pela queda da cal das paredes
ali coleccionava o tempo que regava todos as horas.

tomava uma aspirina com receio que as dores lhe pudessem gritar
o quanto estava viva,
e cortava os pés às flores que lhe ofereciam às escondidas no hospital
tinha mais medo de manhã do que à noitinha
e esperava que nada lhe doesse mais do que os pés.
praia, bairro, rua, caminhadas por entre assobios e palavras ditas à desgarrada,
nomes bonitos, nomes feios, lágrimas escondidas, sorrisos de crucifixo e ladaínhas.
nada importava porque ela continuava a somar dias aos anos e anos aos dias
por entre corredores e portas que deixavam escapar ecos de esperança.

Sempre só ela dizia: Nós também.





Setembro 2009