quinta-feira, 28 de fevereiro de 2013

O isolamento






[E o que dizias?]

é tão bom não dizer nada,
deixar o horizonte transformar-se
num verbo abstrato para qual não tenho nome,
como não tenho nome para o meu amor;
apenas queimo fósforos para acender
qualquer átomo da memória
onde reside a curva do teu lume
e os lampejos daquela partida.

[Agora que não estás aqui]

passo a mão pela casca do sobreiro
que cresceu depois do teu incêndio
e sinto a urgência da falta e a sua raiz; 
a revolta dos sonhos e dos amores saudáveis
seria inverter as regras com que se rege a chuva
mas em todas as direções oiço o canto dos pássaros
e isso faz-me lembrar a sílaba tónica do teu nome.

[E o que esperas de mim?]

espero que tudo seja tão ou mais silencioso
como o encostar  mortiço desta porta
ou o crescer desta árvore rumo ao sul.

quarta-feira, 20 de fevereiro de 2013

Nick Cave & The Bad Seeds e "Push The Sky Away"



Na primeira faixa do álbum "Push The Sky Away" emerge a sombra de Nick Cave, na minha opinião um registo de génio, talvez mais sereno, de voz mais contida, na construção de ambientes musicais maravilhosos e desassombradamente doces, que nos fazem sentir falta de melodias como estas em dias tão estranhos como estes. 

segunda-feira, 18 de fevereiro de 2013

A fala de Amândio Vaga-lume






Por todos os lados, 
os 63 habitantes da Vila adormeciam num sono induzido pelas máquinas mestras
menos um: Amândio Vaga-lume, o homem simples que só falava com as plantas,
jazia inconsciente no meio da plantação onde trabalhava,
após ter tropeçado no garrafão meio vazio de vinho
e apanhado com o cabo da sua enxada no meio da testa,
tombou como um Cristo no epicentro da cultura e por lá ficou.
      
foi nesse instante que surgiram nuvens escuras viúvas de luz,
depois duas síncopes rápidas de apagões.
a terra estremeceu e abriu-se uma fenda como um lanho na carne ferida
emergiram duas pás gigantes em forma de asa de borboleta
que remexeram as entranhas frias da rocha e das raízes mortas.
principiou-se uma erupção metálica concretizada por afiados espigões
que apartaram as margens terrenas em tesouradas mecânicas,
recortando uma cratera nos baldios circundantes.

do interior da boca da terra eclodiu um pequeno painel metálico
em formato de vela  de um qualquer navio pirata
essa estrutura abriu-se num leque e desdobrou-se no dobro do seu tamanho  
depois outra e mais outra, um exercito de velas de fibra metálica perfez um cerco perfeito,
numa extensão de 5 quilómetros, a fronteira da Vila estava traçada.
a fase seguinte demorou poucos segundos a acontecer;
da superfície das velas surgiram órbitas robóticas  
esses instrumentos cegos procuraram captar todo e qualquer feixe de luz
numa fome de insaciável demanda por energia solar.

dos 63 habitantes da Vila,
as máquinas mestras reduziram  para metade os batimentos cardíacos da população adormecida
menos um: o homem simples que só falava com as plantas,
e assim, lentamente, Amândio Vaga-lume recuperou os sentidos e caminhou pelo horto
constatou que em pleno meio dia, a noite era a sua casa e a sua Vila uma prisão.
o perímetro da sua terra estava circunscrito 
por enormes velas metálicas que cresciam em direcção ao céu para resgatar a alma do sol.
sem tirar os olhos das estruturas metálicas que absorviam a luz,
Amândio Vaga-lume via assim a concretização, por parte das máquinas mestras
do seu antigo projecto, aquele sonho perfeito que um dia tivera para a Vila,
antes de um mal do coração lhe ter levado o engenho e a comunicação,
deixando-o sem forma de expressar a fala da tecnologia que tão bem conhecera.
porém nem sempre é bom desejar o que não se conhece;
Amândio Vaga-lume agarrou na enxada e com convicção de quem já muito viu
arrancou pela raiz os girassóis com quem falava e deu por terminado a jorna.

quarta-feira, 6 de fevereiro de 2013

4 Estações sobre Monsanto:Toutinegra-de-cabeça-preta (Sylvia melanocephala)





Foi interessante observar a ordem e o preceito que este casal de Toutinegras empregou à arte de debicar medronhos. Primeiro o macho validava se a zona estava limpa de outras aves. Se assim fosse, em segurança, lá vinha ele para os ramos mais altos do medronheiro perfurar o fruto desprotegido. Só passado alguns minutos surgia a fêmea nas zonas mais baixas e escondidas da árvore, de onde iniciava a sua tarefa de degustação dos medronhos.  

Quando era para debandar, o casal demonstrava-se afinado e ao mínimo sinal de alerta cada um voada para seu lado. Era vê-los depois numa outra árvore num reencontro saudoso em alegre comunhão de segredos.