domingo, 16 de julho de 2017

Aves do Parque dos Poetas - a Poupa



Foi por entre as estátuas dos poetas Jorge de Sena e Vitorino Nemésio que uma poupa desenhava os seus voos ondulantes em busca de alimento. Enquanto isso, não muito longe dali, uma pequena poupa ansiava pelo regresso dos progenitores e com eles a tão desejada refeição. Curiosamente o ninho situava-se num buraco escavado numa árvore, plantada em frente ao passeio muito frequentado.
As vocalizações da jovem poupa faziam-se ouvir à distância o que despertava a curiosidade de quem por ali passeava. Contudo, os andarilhos que usufruiriam das belezas do parque dos Poetas, passavam a poucos centímetros do ninho sem que a jovem ave se sentisse muito incomodada. Foram várias as pessoas que pararam para assistir às manobras daquelas aves em torno do ninho. Porém, jovem a poupa quando se apercebeu que os seus progenitores não lhe traziam comida intimidados com a presença humana, recolheu-se no buraco desaparecendo durante uns minutos. Assim que o caminho estava livre os progenitores regressavam de bico cheio de minhocas e outras iguarias que faziam as delícias da cria quase insaciável. Nunca tinha visto uma ave fazer o ninho numa árvore tão perto de um percurso frequentado por centenas de pessoas diariamente. É ainda de assinalar o comportamento de quem por ali passava, observando com cuidado e sem perturbar o quadro natural delineado por estes encantadores seres. Quando a mim, permaneci em silêncio a uma dezena de metros, por detrás de uma árvore, fazendo um esboço do que ali se passava, não sei se mais escondido das pessoas do que dos bichos. 



As manobras da poupa (Upupa epops)
















Agradecimento:

Benjamim Castro


quarta-feira, 12 de julho de 2017

Passadiços do Paiva



Caminhar, caminhar muito! Embarquei nesta saudável aventura com o intuito de fazer os 8 km dos passadiços do Paiva em pleno contacto com a natureza. De manhã, quando ainda  corria uma suave brisa, demos início à caminhada no sentido Areinho - Espiunca.

Lá fomos, entre as sombras e o rio, numa paisagem frondosa onde pontificam braços naturais dos salgueiros, enfeitando as margens do rio Paiva sob a forma de copa, construindo assim uma fantástica galeria rupícola. Os passos queriam-se lentos para usufruir dos encantos que aqui e ali espreitavam por entre árvores e as rochas. Lentamente a natureza revelava os seus encantos brindando os caminhantes com as suas histórias. O percurso fez-se com calma, de ritmo controlado, aproveitei para tirar umas fotografias, e claro... fui ficando para o fim do grupo. De quando em fez olhava para as margens do rio na expectativa de uma doce surpresa. Acalentava a esperança de observar lontras no rio Paiva, um dos rios mais limpos da Europa, porém não tive essa sorte. O facto de ser muita a gente a percorrer estes caminhos, tem como consequência que os bichos não se exponham tanto e procurem outras paragens. Como é caso das poucas aves observadas. Parámos a meio do percurso para descansar as pernas, encher as garrafas de água e pensar nos próximos passos. Depois foi sempre em frente até chegar às grandes escadarias. Uma subida íngreme de incontáveis degraus que nos afligia o fôlego. O desafio era chegar ao topo e olhar cá para baixo. Subir e contemplar a ascensão das coisas boas, a materialização dos limites em sucesso.  A lição que posso tirar deste desafio;  foi a força e determinação de uma senhora de 84 anos, que fez esta caminhada sempre na frente, sem se queixar, como os conquistadores de sonhos e outros mestres. No outro doía-me as pernas mas a alma procurava as janelas mais altas do tempo para se espreguiçar.

Os incêndios do ano passado devoraram tudo em seu redor, incluindo algumas estruturas dos passadiços. O homem voltou a construir escadas de pinho contornando as arribas, erguendo degraus e refazendo passagens. Agora, nas arestas da paisagem, as árvores erguem-se das cinzas, a par das construções que voltaram a serpentear a margem esquerda do rio. Por estes dias quase nada é intransponível.

Uma boa notícia para os caminhantes: Em breve os passadiços do Paiva irão contar com mais 4 km, de onde se prevê a ligação ao topo da Ribeira das Aguieiras. Tal como, a criação de uma nova ponte suspensa, com 400 metros de altura, na Garganta do Paiva. Haja pernas e Saúde!






A borboleta Melitaea deione reclamava o protagonismo entre as pedras e a vegetação.


Frente a frente com a borboleta Melanargia lachesis e as suas flores de estimação.



Algumas paisagens entre o rio Paiva e os passadiços





O cágado-mediterrânico (Mauremys leprosa) expunha a sua carapaça ao sol.


A lesma preta (Arion ater) desafiava a velocidade dos musgos.


Fotogramas de silêncios entre escadarias e arribas.



A força dos rápidos




Já falta pouco! 


A proximidade de um abismo de trazer no bolso.


É já ali...


Degraus infindáveis... 


O lume levou quase tudo - temos que aprender a mudar a mudança...


Algumas das escadarias reconstruídas após o fogo.


 Assim se faz o caminho - em frente!









terça-feira, 11 de julho de 2017

19:00


 





sentas-te ao meu lado e falas da agitação do trilho
o autocarro desvia-se das acidentais crateras
criadas pelo temperamento febril da estrada,
de repente as tuas mãos descem a língua curta da saia,
rente ao flanco desnudo da perna fêmea,
após sorriso de timidez  ajeitas a indiscrição das alças
seguiram-se vários solavancos fazendo estremecer as costas
das cidades plantadas no sopé amarelo.


não sei porque te gastei a vista
com palavras de vidro,
nem sei porque saltaste do outro banco
para o meu lado como um engano de vento,
gostei do paladar que deixaste nas coisas,
juntos rimos dos enganos dos bichos
e das viagens desenhadas nos pontos de interrogação.





segunda-feira, 10 de julho de 2017

depois do fogo rebentam eucaliptos








sabes porque ardem de velocidade as portadas?
lá fora o lume prende-se aos pés,
dos animais, das casas, dos egos,
lá fora é tudo tão frágil e rápido
como as folhas quadriculadas
onde aprendeste a somar 1+1 igual a sozinho
ou os fósforos que vês arder no cinzeiro
depois tentar adivinhar o futuro num chá,
tentas apagar o incêndio de todos anos mas não te apagas
das memórias, do sol, ou da serra enfeitada de ambulâncias.

sabes... num piscar de olhos e tudo muda,
a cor, os lábios secos, o calor, a pele aflita
tão rápido em cinza pincel,
fomos nós que fugimos por estas escadarias
até lá ao topo,
no alto das dores e dos músculos
fartos das doença do silêncio.

a madeira sangra o desleixo do homem,
o que fica desta paisagem queimada?
uma casa, uma eira, uma horta, lunar
um estendal de fogo remexido de nada;
e depois das chamas já rebentam eucaliptos das estradas

sabes porque não consegues fechar estas portadas?
uma senhora de idade limpa as cinzas do caminho,
com a bengala,
prenda do último natal de um dos netos de lá de fora.






terça-feira, 20 de junho de 2017

Pica-pau-malhado-grande no Parque Florestal de Monsanto


No âmbito do projecto 4 Estações sobre Monsanto tive o privilégio de observar algumas rotinas de uma família de pica-pau-malhado-grande (Dendrocopos major). Estes são alguns momentos de ternura. Foi curioso observar que o pica-pau juvenil instigava o progenitor a despachar-se na busca por mais alimento, bicando-o para ele se apressar.














segunda-feira, 19 de junho de 2017

Até quando o fogo?






ao manto de fogo que tudo arrasta
segue-se a dor de não ser chuva,
de não ser torrente de água madrugadora
sob a fogueira que consome este país.

o maior dos incêndios cava silêncios inexplicáveis,
e nós rendidos à força cruel desta besta de lume,
vemos calcinados carros de horror,
estradas sem saída, ladeadas por paredes infernais,
florestas de cinza e tantas vidas feitas ruína,

homens, mulheres e crianças de uma triste Pompeia Lusitana.


aos Bombeiros e aos Homens destas e de outras terras,
(quantos deles enlutados também, meu Deus)
que lutam para apagar este círculo de inferno:
com a força dos heróis que os move por não deixar cair,
a esperança do que fazer com a cicatriz do amanhã,
o que fazer com este punhado de terra queimada. 


silêncios de tantas vidas por florir.