sexta-feira, 30 de setembro de 2016

Borboleta-monarca (Danaus plexippus) em Vila Nova de Milfontes



Nem queria acreditar quando me perguntaram se gostaria de observar uma colónia de borboletas-monarcas.
A resposta não coube no contentamento de uma palavra e foi reforçada por um sorriso aberto. E lá fomos. O amigo Rui conduziu-nos por caminhos íngremes e labirínticos, descemos por terrenos complicados que puseram à prova o veículo de tracção às quatro, até chegarmos uma pequena clareira de um bosque com uma ribeira de água corrente. Após alguns passos surgiu o primeiro avistamento; a deslizar por entre a copa das árvores, voava uma borboleta monarca, desenhando no ar toda a graciosidade de um aceno de boas-vindas, para depois pousar suavemente numa folha altaneira. O ângulo para fotografar não era o melhor, contudo viver e sentir a paz daquele momento vale muito mais do que uma fotografia. Com o olhar mais treinado conseguimos vislumbrar mais 5 borboletas, conferindo um colorido edílico ao bosque e à memória.



A borboleta-monarca é uma espécie nativa do continente americano do qual realiza longas e numerosas migrações, podendo ser observada na Austrália, Nova Zelândia e pela Ásia. Por cá, a borboleta-monarca é considera uma espécie migradora, visitando os Açores e a Madeira, raramente é observada no litoral de Portugal continental. No entanto, recentemente, foi descoberta uma colónia destas borboletas residente em  Vila Nova de Milfontes e de lá não migram. A sua reprodução ocorre tanto no Outono como na Primavera, curiosamente durante o verão, só se observam machos, muito embora continuem a nascer borboletas. Apesar de ser uma espécie exótica este insecto não revela comportamento invasor nem foi observado um aumento da população. A planta hospedeira é  Gomphocarpus fruticosus e uma das aves que pode predar a espécie é o papa-moscas preto (Ficedula hipoleuca)

Os dados técnicos aqui apresentados resultam de um excelente estudo efectuado pelos alunos da Escola Secundária Dr. Manuel Candeias Gonçalves.


                               

Agradecimentos:










Em busca do borrelho-ruivo (Charadrius morinellus)


Partimos cedo para Vila Nova de Milfontes com intuito de fotografar o borrelho-ruivo (Charadrius morinellus) uma espécie que visita o nosso país de passagem, nos meses de Setembro a Outubro, privilegiando o sul de Portugal para a sua curta estadia. Das quatro espécies de borrelhos que ocorrem por cá está é a mais rara.

Cientes desse facto, partimos confiantes da nossa sorte e determinação (madrasta ou coragem - seja lá o que isso for). Chegámos ao local indicado pelo amigo Rui Jorge, quando eram 09:00 horas e calcorreamos os terrenos lavrados de binóculos nos olhos e objectivas preparadas, na esperança de avistar a ave.

De trás para a frente, várias vezes, entre sombras e falsos alarmes, contudo nem sinal do borrelho-ruivo. No meio dos terrenos surgiu este alcaravão (Burhinus oedicnemus) bem disfarçado e sempre atento.



Tal como as calhandrinhas (Calandrella brachydactyla) que apareciam e desapareciam por entre as ondas de calor.


Fomos almoçar ao restaurante Oásis com vista privilegiada para o Rio Mira e porque os olhos também comem, deliciei-me com a paisagem enquanto degustava uma carne de porco à alentejana, acompanhada com um vinho bem encorpado e que dava asso à contemplação.

Do outro lado, o Moinho da Asneira cintilava em variações de azul liquido num sempre desejado empreendedorismo por estas terras.


Depois do almoço fomos até Vila Nova de Milfontes, altura em que me perdi em recordações da minha última passagem por esta terra de mão dada com o sol, foi há 15 anos e as diferenças são assinaláveis mas a luz, essa é sempre generosa.



Depois das 17:00, o amigo Rui Jorge juntou-se na busca pelo borrelho e foi graças a ele que o encontrámos. No total eram oito indivíduos que corriam rapidamente, como se a terra lhe queimasse as patas, movidos de uma curiosa vontade, aproximando-se do carro para depois desaparecerem por entre montinhos de terra remexida com o mesmo repentismo encorajador e frenético. Este estranho comportamento contrapunha com o descanso de poucos minutos que algumas aves aproveitavam para fazer depois da corrida de peito feito. Ficavam imóveis e só o olhar mais atento conseguia discernir um borrelho-ruivo no meio das terras.











Missão realizada com sucesso. Foi nesse momento que o amigo Rui Jorge nos perguntou se estávamos interessados em observar a única colónia de borboletas-monarca em Portugal...






Agradecimentos:




quinta-feira, 29 de setembro de 2016

Prémio: Concurso de Fotografia de Aves NaturAlqueva







É sempre gratificante ver o nosso trabalho reconhecido.

Confesso que fiquei surpreendido e muito satisfeito quando a minha fotografia "Fuga" foi a
foto vencedora na categoria de hidrohide no II Concurso de Fotografia de Aves NaturAlqueva.

Obrigado por este prémio num concurso internacional!




domingo, 25 de setembro de 2016

Osga-te muro





O muro conta que das suas paredes brancas
descem corpos de sangue frio deste findado verão,
osgas de cauda entrelaçada, bailarinas,
roçando as escamas e o ventre pelas arestas da pedra usada,
perseguindo bruxas que no calor nocturno se levantam do chão.
porém, as osgas quando ameaçadas pelo pudor ou pela desconfiança
largam a cauda que fazem rabear no fôlego de artifício novo.

Agora lá estão elas de cabeça para baixo,
exibindo o sensual rendilhado da devoluta pele branca,
com dedos discretos e ventosas regeneradas,
olham para mim atentas aos meus movimentos
mastigam em silêncio as sílabas dos meus passos
enquanto eu contorno o gingar lento das suas pregas.

Elas movem-se entre o saibro e a caliça
e com as suas sombras desenham esboços
de mãos onde lhe sobram dedos
ou bocas de onde espreitam corações,
eu aproximo-me um pouco mais,
elas libertam-se das brancas projecções e fogem

Resignado guardo a toalha de praia e os protectores
até para ano, onde de novo espanto se irá repetir,
porque nas fissuras do muro riem-se criaturas.













segunda-feira, 12 de setembro de 2016

Dupla despedida







digo adeus ao fiel da estrada
que me embalou pelas escamas
afiadas na tua pele de praia.

digo adeus aos reencontros das luas,
das visitas aos museus em exposições,
de portas escancaradas ao sentimento.

despeço-me da cadeira que ocupaste
nos jantares de répteis meigos
que agora baloiça manca de uma perna,
como qualquer falência sentimental,
digna de ausência.

digo adeus ao amor fora da caixa
que não se encaixa dentro do músculo.
digo-te que partas rápido, sem olhar para trás,
enquanto tento abrir a porta da casa-cubo
que me silenciará em todas as arestas.

agora, antes do teu carro desaparecer
e a minha mão cair de adeus dormente,
conforta-me a miragem do teu eventual regresso
só não sei com que fôlego te direi "olá".

ando em círculos, descalço, neste areal carbonizado,
onde até a maré se despede da costa várias vezes por dia,
entre levantar e voltar a cair não serei o último,

                                                 e o mar disse...