terça-feira, 19 de janeiro de 2010

e a terra tremeu - parte I -



- Acreditas?
- Acredito no quê?
- nele?
- Em quem?
- deus!
- Porque escreves “deus” em vez de Deus?
- Sei lá. Acreditas ou não?
- Porque perguntas?
- Todos nós temos dias assim. Dias em que não se acredita - em nada. Ainda para mais quando...
- Quando o quê?
-Não me respondas com outra pergunta! Acreditas ou não?
-Claro. Claro que sim.
-E tu?
- Eu perguntei primeiro.
- E eu já respondi. Mas o que te levou a fazer essa pergunta?
- Tu não tens o direito de perguntar. Tu não podes perguntar. Lembras-te?
-Ah não? Tenho o mesmo direito que tu. Ainda para mais foste tu que começaste. Agora quero saber.
- Tantos... Depois do que aconteceu no Haiti, desgraça atrás de desgraça. Tantos...  mortos. Inocentes. Crianças que ficaram sem tecto sem qualquer familiar. Será que depois disto ainda acreditam?
- Claro.
- Porquê?
- Porque sim. Acredita-se e pronto. São daquelas coisas que não se explicam.
- Como sabes?
- Fé.
- Fé no quê?
- Nele.
- Tens a certeza?
- Acho que sim.
- Achas ou tens realmente a certeza?
- Sinto. Apenas.
- Tu não sentes e mesmo que sentisses.... Foi lá tão longe... Não foi nada contigo ou com um familiar directo.
- Não sejas parvo. Não sejas assim.
- Não tens o direito de me dizer como hei-de ser.
- Está bem. Sabes que sempre houve catástrofes. Já aconteceu antes. Lembra-te de Pompeia ou até mesmo do terremoto que devastou Lisboa, entre tantas outras calamidades? Não foi por isso que as pessoas deixaram de acreditar.
- Pois não. Tu já não estavas cá.
- Dessa forma. Da tua forma, não. É verdade.
- É por isso que acreditas?
- Também mas não só.

quinta-feira, 7 de janeiro de 2010

antes de morrer Efémera disse:

raio-x efémera

não-frio não-calor não-voz não-coisa-nenhuma
no ano passado
( pelo menos metade dos dias em que dei conta que era dia em vez de noite )
senti que muita gente que me rodeava escolheu partir
eu aceitei que
amigos camuflados de efémeros e amores secretamente efémeros
todos escolhessem o que era melhor
e eu também
escolhi que não voltava a poisar nas flores altas dos trigais
ou abrir a portinhola floral a quem a fechou com estrondo do silêncio
escolhi
que não voltava a poisar nos espinhos que ardiam nos dias de calor
e que não voltaria a perde-me nas zonas cinzentas
onde encontrei estranhos brilhos há uns tempos atrás
de facto
todos escolheram por bem e eu respeitei as suas escolhas uma a uma
optei pela candura dos prados em zunido e queda
no meu canto de flor e cardo em lençóis de vento e mar
não-frio não-calor não-voz não-coisa-nenhuma
apenas o silêncio feito em segundos na paz das asas
quem ficou para curar a ferida dos espinhos?
foram aqueles não-éfemeros
enquanto isso
das cinzas construi olhos de leão e fiz deles abrigos de inverno
depois…
Efémera durou apenas umas horas no tempo do homem
e teve tempo para tudo isto e muito mais
enquanto nós
andamos meio cegos a chamar-lhe tira-olhos.