sexta-feira, 23 de setembro de 2011

Convite: Café Poema 30-09-2011







Um desafio.
É certo que a voz da poesia não tem sexo. Contudo, curioso será ouvir;
um poema escrito por uma mulher declamado e defendido por um homem, e
um poema escrito por um homem interpretado e protegido por uma mulher.

Numa batalha de versos conjugais, que se quer pacífica, onde os sentimentos das vozes que sentiram serão diferentes dos ecos que as repetem.

O desafio está lançando. Não se sintam rogados e venha de lá essa voz.








quinta-feira, 22 de setembro de 2011

Ciclo de entrevistas - Café Poema com Branca Rodrigues



Devagar...  Vamos dar início a um ciclo de pequenas entrevistas  com os artistas que assistem ao Café Poema no Cappuccinos Coffee Shop em Carcavelos.


A nossa primeira convidada é Branca Rodrigues, pintora e frequentadora assídua da nossa tertúlia e com uma exposição de pintura patente no Tea Lounge na Parede.


Entrevista com Branca Rodrigues, em 4 perguntas:
 
SG: Para si, como nasceu o gosto pela pintura?

BR: Já veio comigo desde pequenina. Aos sete anos fiquei fascinada com a revista “ Fagulha” e o "Cavaleiro Andante". Lá em casa, todas as revistas que eu apanhada, era o suficiente para ir ver logo as ilustrações, e era isso que gostava mais. Nos livros, as ilustrações Conde Monte Cristo tornaram-se marcantes. Tal como as histórias do meu pai sobre bruxas e o lobisomens. Gostei muito de geometria, que o meu irmão estudava, era o rigor. E visitava os Oleiros ( havia 9 nove em Árgea, concelho de Torres Novas distrito de Santarém) e fascinava-me com os desenhos que eram feitos. E até ajudava...
Sempre gostei de desenhar. A minha primeira exposição de pintura foi no clube Naval em 2001.

SG: Onde se inspira?

BR. A minha pintura é uma viagem.
É o que me vem à cabeça ( ou de outro lado qualquer) e vou-me lembrando das coisas que acontecem durante essa viagem; começo a pintar os sítios, às acções, às emoções, recordações e as sensações. O meu o trabalho não é auto-biográfico, é antes, movimento gestual expressivo . Uma viagem até à praia é inspirador. Já pintei na rua. No meio de muita confusão fico concentrada. Dá-me liberdade de pensar. É um gesto rápido, uma pincelada de cor, e no fim fica bem...
 
 SG: Pintores que mais admira?

BR: O meu primeiro contacto com Pablo Picasso foi marcante. Tal como a vida dele e a maneira como ele via a arte. O tamanho da Guernica fascinou-me. Em El Greco, identifico-me muito com a linha das figuras no expressivo movimento das mãos. No caso dos portugueses, gosto muito do Pomar e do Júlio Resende.
 
SG: E a Poesia?

BR: Gosto de poesia porque tem muito movimento e ritmo... O meu poema favorito é do Cesário Verde o “piquenique de burguesas” e claro o "Livro do Desassossego" do Fernando Pessoa.

Então, para Branca Rodrigues, aqui fica:

DE TARDE

Naquele pique-nique de burguesas,
Houve uma coisa simplesmente bela,
E que, sem ter história nem grandezas,
Em todo o caso dava uma aguarela.

Foi quando tu, descendo do burrico,
Foste colher, sem imposturas tolas,
A um granzoal azul de grão-de-bico
Um ramalhete rubro de papoulas.

Pouco depois, em cima duns penhascos,
Nós acampámos, inda o Sol se via;
E houve talhadas de melão, damascos,
E pão-de-ló molhado em malvasia.

Mas, todo púrpuro a sair da renda
Dos teus dois seios como duas rolas,
Era o supremo encanto da merenda
O ramalhete rubro das papoulas!

Cesário Verde (1855-1886)

quarta-feira, 21 de setembro de 2011

Guarda-rios




Para Carlos Rio:

Dizem que naquele dia roubaram o sol;
a chuva era uma sílaba que se desejava de rápido sabor
do rio até às nuvens estendia-se uma escadaria de degraus infinitos,
quando uma flecha de azul celeste cruzou o estuário das almas,
e da infértil terra de cemitério nasceram flores
que ainda hoje voam.

quarta-feira, 14 de setembro de 2011

Sisão / The Little Bustard / (Tetrax tetrax)

No Alentejo, quando se sai da cidade Pax-Julia,
virando à direita, em direcção dos vinhais de Vitigeria,
há um ponto de coordenadas mágicas;
uma janela dimensional suspensa entre duas árvores de sobro
que mudam de lugar todas as noites:
audazes daqueles que a descobrem e fazem o tempo parar.

Nesse instante,
a voz do vento e da mulher despida de paisagem disse-me para ficar:
“só mais um segundo, por mais ínfimo que seja,
apenas mais um segundo, só meu e das coisas só nossas
não é pedir muito, pois não?”

Antes de desfazer as asas brilhantes de película binária que me trouxeram até aqui
contemplo o cosmos que trago na ponto dos dedos,
imagino que no topo dos sobreiros possam existir cidades tão pequenas
que fazem inveja às cidades inimagináveis do que nunca fui.

sexta-feira, 9 de setembro de 2011

Monólogo da Espera editado na Revista-me

 

Na terceira edição da excelente revista Revista-me podem ler o meu conto, O Monólogo da Espera, adaptado para teatro o ano passado no Café Poema. Agora em formato digital e de fácil leitura aqui




quarta-feira, 7 de setembro de 2011

Sisão

No cume da planície Alentejana,
há quem diga;
que o sol é um ilhéu em pleno naufrágio
e a lua, uma mulher que dança no pião e na malha do tempo

Há também quem conte;
que nos braços das ilhas do Alqueva existem pontes imaginárias,
onde os homens ainda não descobriram a cor nem o sal das lágrimas,
e o brilho do terço das viúvas tem o encanto de rejuvenescer as almas

Na beleza única das rugas do delta além Tejo
há quem cante a Deus por estas e outras vinhas,
num corpo de árvore feito alto madrugar
e tudo mais vive sem que se dê conta.

segunda-feira, 5 de setembro de 2011

Rã-verde

Por uma questão de honra anfíbia:
nunca ficamos no parapeito da janela mais do que dez minutos,
sorvemos as novidades dos desorientados insectos mensageiros
e submergimos logo a seguir nos ecos verdes que se propagam na água;
às vezes somos tentados a sair para outro reposteiro mais soalheiro,
mas não é mesma coisa, nada se compara com o nosso charco.
por isso, fazemos fé nos pulos que o mundo dá para não saltar daqui para fora.

domingo, 4 de setembro de 2011

Andorinha-das-chaminés

A rapidez com que dizes primavera
é a mesma com que cortas as correntes de ar,
e as flores deixam de ser flores e passam a ser perfume,
quando o azul nasce todos os dias no caule do sol,
com a mesma rapidez com que dizes Setembro.

Chapim-azul

De cabeça para baixo tu dizias que:
o mundo estava de pernas para o ar.
eu concordava; na expectativa de te ver desenhar uma cambalhota acrobática,
roendo-me de inveja pelo teu malabarismo que conferia aos optimistas
uma outra visão, só ao alcance daqueles que buscam o cume da fragilidade
transformando-a na maior das virtudes: um canto de esperança.

Vespa-do-papel

E da dor que um dia foi ferida aberta ao sol
a picada do insecto de papel fez capturar o cupido
na teia de âmbar que vive para além luz crepuscular,
e quando se queria libertar das asas dos ventos idos,
apenas restou arma afiada da saudade
que na têmpera do tempo foi apenas
ínfimo milímetro do que poderia ter sido .

Joaninha-amarela




No teu dorso amarelo salpicado por pintas negras,
imagino o requinte da joalharia que inunda os olhos
dos fabricantes de sonhos e outros dissimuladores virtuais;
como desejaríamos andar enfeitados por insectos vivos de luz!
no colarinho da camisa, na gravata aperaltada, 
ou na língua bifurcada por um piercing insectívoro;
mais  tarde e talvez mais satisfeitos...
sentiríamos que a linguagem da dor,
proferida pelas alfinetadas ao rasgar o melindre da pele,
são o único sabor que a realidade nos oferece.