quinta-feira, 26 de março de 2015

Vendaval






oiço o uivo das ervas aquáticas a remexer a garganta do lago
os braços fortes de taboas agitam as raízes feitas de vento,
depois os vendavais estremecem as asas transparentes dos sonhadores
e nada fica sobre nada.

tudo voa para longe da memória num fogo a pique
redemoinhos de cinza entram pelos teus olhos adentro
repito: nada fica sobre nada,
apenas um flor amarela ilumina a  nudez da noite
num assobio de oração ouve-se um silvo suave
tantas vezes dito

até ser silêncio.








domingo, 22 de março de 2015

Neptuno






Não te vi em Neptuno da última vez que te sonhei,
mas senti o frio das coisas em que tocaste
e que se tornaram noutras coisas depois disso; 
podes não acreditar porém,
o corpo do livro transformou-se num animal solitário
em poucos segundos, os postais das cidades que conquistaste
explodiram em raras borboletas,
as roupas que despiste deram vida aos fantasmas de outras mãos,
os teus anéis de pianista desenharam nos céus o meridiano de Saturno
e até a sensual curva do teu cabelo já foi cauda de andorinha.

Em Neptuno não se fala de outra coisa:
a renovação das águas em navios de palavras,
de grandes velas ao vento,
das ideias e das ondas vulcânicas;
um dia viajarás em pétalas de noite,
e quando aqui chegares também serás primavera.





sexta-feira, 13 de março de 2015

Leitura





leio nas linhas das tuas teias
no altar da tua boca,
nos sinais das tuas costas;
leio palavras curtas e abafadas,
sussurros de vozes brancas,
símbolos entre o pó e o corpo
de uma manhã descoberta
na margem de um copo de água.

leio simplesmente, complicado,
de cócoras, pino feito, deitado,  
leio nos carris dos comboios
dioptrias de luz lenta
em carruagens de palavras,
leio nos barcos que ficam em terra
as histórias dos homens que nunca viram o mar.

e de tanto ler
leio até que me falte o ar,
tampouco num livro te revejo
pois perco-me nas bibliotecas
de que me falas.

sábado, 7 de março de 2015

Fisga





armas destas nunca armaram guerreiros,
fisgas feitas dos ramos da nespereira,
câmara de ar e couro,
quando o alvo era um vaso sem flor
os tiros teimavam sair sempre ao lado;
falhar era um elogio da idade,
na contabilidade de quantas cabeças partidas
pouco importava se tinha frio na barriga
mãos trémulas ou pontaria zarolha.

com os joelhos esfolados e espinhos de cardos espetados nos dedos
as tardes de verão eram de conquista territorial;
figueiras escaladas na congestão da hora de maior calor
guerrilhas armadas pelos terrenos baldios
dez rapazes a correr de fisga nos dentes a saltar muros
onde as guerras eram combinadas e as pazes duradouras,
tantas sestas furadas pelo desafio dos miúdos fanfarrões,
os dias tinham mais horas e tantos eram os caminhos.

se não me engano hoje estourou a 43ª  guerra mundial das fisgas
aqui estou eu a atirar pedrinhas negras ao rio
assistindo ao rápido movimento com que cortam águas
explodindo em pequenas ondas concêntricas
à sombra o rio canta, a figueira ainda lá está e a nespereira também,
à espera que eu falhe e volte a falhar e volte a tentar e perca a cabeça.