domingo, 16 de julho de 2017

Aves do Parque dos Poetas - a Poupa



Foi por entre as estátuas dos poetas Jorge de Sena e Vitorino Nemésio que uma poupa desenhava os seus voos ondulantes em busca de alimento. Enquanto isso, não muito longe dali, uma pequena poupa ansiava pelo regresso dos progenitores e com eles a tão desejada refeição. Curiosamente o ninho situava-se num buraco escavado numa árvore, plantada em frente ao passeio muito frequentado.
As vocalizações da jovem poupa faziam-se ouvir à distância o que despertava a curiosidade de quem por ali passeava. Contudo, os andarilhos que usufruiriam das belezas do parque dos Poetas, passavam a poucos centímetros do ninho sem que a jovem ave se sentisse muito incomodada. Foram várias as pessoas que pararam para assistir às manobras daquelas aves em torno do ninho. Porém, jovem a poupa quando se apercebeu que os seus progenitores não lhe traziam comida intimidados com a presença humana, recolheu-se no buraco desaparecendo durante uns minutos. Assim que o caminho estava livre os progenitores regressavam de bico cheio de minhocas e outras iguarias que faziam as delícias da cria quase insaciável. Nunca tinha visto uma ave fazer o ninho numa árvore tão perto de um percurso frequentado por centenas de pessoas diariamente. É ainda de assinalar o comportamento de quem por ali passava, observando com cuidado e sem perturbar o quadro natural delineado por estes encantadores seres. Quando a mim, permaneci em silêncio a uma dezena de metros, por detrás de uma árvore, fazendo um esboço do que ali se passava, não sei se mais escondido das pessoas do que dos bichos. 



As manobras da poupa (Upupa epops)
















Agradecimento:

Benjamim Castro


sábado, 15 de julho de 2017

Espaço: 1999

Ainda era eu menino, quando subia a um banco para sintonizar a frágil antena da televisão  a preto e branco, evitando que uma eventual chuva de interferências pudesse por em causa um acontecimento por mim tão aguardado. Por isso não arredava pé em frente ao pequeno aparelho, certificando-me que estava tudo em ordem, e ali ficava à espera do meu momento televisivo favorito - o Espaço: 1999. A fantástica história da base lunar Alfa que devido a uma explosão nuclear, viu o satélite terrestre sair de órbita passando a navegar à deriva pelos confins do universo, iniciando-se assim a busca por um planeta que oferecesse condições semelhantes à terra. Eram momentos imperdíveis, isto porque na altura não havia a possibilidade de gravar um episódio ou outras confortáveis modernices dos nossos dias. Posso parecer saudosista (um pouco)  mas realmente aquilo era ver televisão a sério, sem possibilidade de parar a transmissão ou de andar para trás, verdadeiramente sem rede, era assistir a algo que ia esfumar-se em breve, e por isso mesmo com a urgência de guardar todos os pormenores na memória de menino. Foi com esta série que passei a gostar de ficção cientifica no pequeno e no grande ecrã, viajava pelo espaço, sem sair do mesmo lugar e sentia que os meus pés não tinham chão guiados pelo rasto de luz das inumeráveis estrelas.


Da realidade à ficção: Modulo lunar de comando Apollo com um volume de cabine de 6.1 m² e foi concebida para 3 tripulantes.



No quarto-sala lá estava eu de boca aberta a olhar para a televisão, a controlar os movimentos das naves e as suas perfeitas alunagens, a tentar entender as mensagens dos monitores com as suas luzes de piscar fulgurante e sequência hipnótica. Nada era mais importante que aquele acontecimento e eu permanecia imóvel, sem pestanejar e com a cabeça quase enfiada no ecrã, tentando descortinar as mensagens subliminares que dali saiam. Durante quase uma hora era exibido um manancial de assombrosa tecnologia (datada) que me deixava extasiado. Recordo os fantásticos túneis lunares, onde circulavam carruagens sónicas, num perfeito sistema de comunicação entre hangares, nos quais estavam estacionadas as naves águia. Tal como, um pequeno telefone portátil com câmara incorporada que tanto abria portas da base lunar, como servia de intercomunicador; uma visionária abordagem do que são hoje os smartphones, ou até mesmo as armas laser com diferentes níveis de dano. Hoje estes efeitos especiais podem parecer fracos, quase despiciendos mas na altura eram do melhor que a imaginação podia sorver. Presenciei encontros misteriosos com seres de outros espaços e de outros universos, no qual o meu pequeno mundo cabia numa cama de recolher com a almofada arrumada à parte, tudo isto sem sair do meu quarto-sala, sonhava com o dia em que... a humanidade descobre que não está sozinha no universo... Eram horas felizes para um menino que tinha fascínio pelo espaço e pela descoberta de novos mundos.


  

Esta foi o meu primeiro amor por séries de ficção, mas não a primeira grande pancada, essa foi com os Vikings, na altura desenhos animados, hoje uma série de sucesso,
Com o crescimento do sentido crítico do mau e bom gosto, surgiram-se outros momentos de ficção cientifica de que gostei, lembro-me da  Galáctica e dos Ficheiros Secretos e muitos muitos filmes entre eles:

2001 Odisseia no Espaço (vi muitos anos mais tarde),  A Guerra das Estrelas,  Alien,  Moon - O Outro Lado da Lua (2009), Distrito 9 (2009), Prometheus (2012), Gravidade (2013), Interstellar (2014) até chegar aos nossos dias, onde dou por mim no cinema numa sala quase deserta para assistir a filmes como o Primeiro Encontro (2016), Vida Inteligente (2017) Alien: Covenant (2017)

Pois bem, como admirador de filmes de ficção cientifica e com os pés bem assentes na terra fui ver a Exposição Cosmos Discovery Lisboa e redescobri os instrumentos reais dos meus sonhos. Aqui estão eles registados com o meu equipamento portátil que não abre portas nem comunica com uma base lunar mas que regista fotogramas de uma realidade possível.

Veiculo eléctrico de dois lugares utilizado pela primeira vez na lua em 31 de julho de 1971



Lunokhod foi o primeiro robot não tripulado soviético. O Lunokhod 2 aterrou na lua a 15 de janeiro de 1973 e pesava 756 kg. 


Luna 16 - sonda soviética concebida para recolher amostras do solo lunar


Cabine de pilotagem da Space Shuttle






Protótipo de uma sonda para exploração do planeta vermelho.




A minha homenagem a Martin Landau que nos deixou a 15 de julho e entre muitos outros filmes, foi também John Koenig, o comandante da Base Lunar Alfa na série Espaço:1999

Até sempre comandante!

quarta-feira, 12 de julho de 2017

Passadiços do Paiva



Caminhar, caminhar muito! Embarquei nesta saudável aventura com o intuito de fazer os 8 km dos passadiços do Paiva em pleno contacto com a natureza. De manhã, quando ainda  corria uma suave brisa, demos início à caminhada no sentido Areinho - Espiunca.

Lá fomos, entre as sombras e o rio, numa paisagem frondosa onde pontificam braços naturais dos salgueiros, enfeitando as margens do rio Paiva sob a forma de copa, construindo assim uma fantástica galeria rupícola. Os passos queriam-se lentos para usufruir dos encantos que aqui e ali espreitavam por entre árvores e as rochas. Lentamente a natureza revelava os seus encantos brindando os caminhantes com as suas histórias. O percurso fez-se com calma, de ritmo controlado, aproveitei para tirar umas fotografias, e claro... fui ficando para o fim do grupo. De quando em fez olhava para as margens do rio na expectativa de uma doce surpresa. Acalentava a esperança de observar lontras no rio Paiva, um dos rios mais limpos da Europa, porém não tive essa sorte. O facto de ser muita a gente a percorrer estes caminhos, tem como consequência que os bichos não se exponham tanto e procurem outras paragens. Como é caso das poucas aves observadas. Parámos a meio do percurso para descansar as pernas, encher as garrafas de água e pensar nos próximos passos. Depois foi sempre em frente até chegar às grandes escadarias. Uma subida íngreme de incontáveis degraus que nos afligia o fôlego. O desafio era chegar ao topo e olhar cá para baixo. Subir e contemplar a ascensão das coisas boas, a materialização dos limites em sucesso.  A lição que posso tirar deste desafio;  foi a força e determinação de uma senhora de 84 anos, que fez esta caminhada sempre na frente, sem se queixar, como os conquistadores de sonhos e outros mestres. No outro doía-me as pernas mas a alma procurava as janelas mais altas do tempo para se espreguiçar.

Os incêndios do ano passado devoraram tudo em seu redor, incluindo algumas estruturas dos passadiços. O homem voltou a construir escadas de pinho contornando as arribas, erguendo degraus e refazendo passagens. Agora, nas arestas da paisagem, as árvores erguem-se das cinzas, a par das construções que voltaram a serpentear a margem esquerda do rio. Por estes dias quase nada é intransponível.

Uma boa notícia para os caminhantes: Em breve os passadiços do Paiva irão contar com mais 4 km, de onde se prevê a ligação ao topo da Ribeira das Aguieiras. Tal como, a criação de uma nova ponte suspensa, com 400 metros de altura, na Garganta do Paiva. Haja pernas e Saúde!






A borboleta Melitaea deione reclamava o protagonismo entre as pedras e a vegetação.


Frente a frente com a borboleta Melanargia lachesis e as suas flores de estimação.



Algumas paisagens entre o rio Paiva e os passadiços





O cágado-mediterrânico (Mauremys leprosa) expunha a sua carapaça ao sol.


A lesma preta (Arion ater) desafiava a velocidade dos musgos.


Fotogramas de silêncios entre escadarias e arribas.



A força dos rápidos




Já falta pouco! 


A proximidade de um abismo de trazer no bolso.


É já ali...


Degraus infindáveis... 


O lume levou quase tudo - temos que aprender a mudar a mudança...


Algumas das escadarias reconstruídas após o fogo.


 Assim se faz o caminho - em frente!









terça-feira, 11 de julho de 2017

19:00


 





sentas-te ao meu lado e falas da agitação do trilho
o autocarro desvia-se das acidentais crateras
criadas pelo temperamento febril da estrada,
de repente as tuas mãos descem a língua curta da saia,
rente ao flanco desnudo da perna fêmea,
após sorriso de timidez  ajeitas a indiscrição das alças
seguiram-se vários solavancos fazendo estremecer as costas
das cidades plantadas no sopé amarelo.


não sei porque te gastei a vista
com palavras de vidro,
nem sei porque saltaste do outro banco
para o meu lado como um engano de vento,
gostei do paladar que deixaste nas coisas,
juntos rimos dos enganos dos bichos
e das viagens desenhadas nos pontos de interrogação.





segunda-feira, 10 de julho de 2017

depois do fogo rebentam eucaliptos








sabes porque ardem de velocidade as portadas?
lá fora o lume prende-se aos pés,
dos animais, das casas, dos egos,
lá fora é tudo tão frágil e rápido
como as folhas quadriculadas
onde aprendeste a somar 1+1 igual a sozinho
ou os fósforos que vês arder no cinzeiro
depois tentar adivinhar o futuro num chá,
tentas apagar o incêndio de todos anos mas não te apagas
das memórias, do sol, ou da serra enfeitada de ambulâncias.

sabes... num piscar de olhos e tudo muda,
a cor, os lábios secos, o calor, a pele aflita
tão rápido em cinza pincel,
fomos nós que fugimos por estas escadarias
até lá ao topo,
no alto das dores e dos músculos
fartos das doença do silêncio.

a madeira sangra o desleixo do homem,
o que fica desta paisagem queimada?
uma casa, uma eira, uma horta, lunar
um estendal de fogo remexido de nada;
e depois das chamas já rebentam eucaliptos das estradas

sabes porque não consegues fechar estas portadas?
uma senhora de idade limpa as cinzas do caminho,
com a bengala,
prenda do último natal de um dos netos de lá de fora.






terça-feira, 20 de junho de 2017

Pica-pau-malhado-grande no Parque Florestal de Monsanto


No âmbito do projecto 4 Estações sobre Monsanto tive o privilégio de observar algumas rotinas de uma família de pica-pau-malhado-grande (Dendrocopos major). Estes são alguns momentos de ternura. Foi curioso observar que o pica-pau juvenil instigava o progenitor a despachar-se na busca por mais alimento, bicando-o para ele se apressar.














segunda-feira, 19 de junho de 2017

Até quando o fogo?






ao manto de fogo que tudo arrasta
segue-se a dor de não ser chuva,
de não ser torrente de água madrugadora
sob a fogueira que consome este país.

o maior dos incêndios cava silêncios inexplicáveis,
e nós rendidos à força cruel desta besta de lume,
vemos calcinados carros de horror,
estradas sem saída, ladeadas por paredes infernais,
florestas de cinza e tantas vidas feitas ruína,

homens, mulheres e crianças de uma triste Pompeia Lusitana.


aos Bombeiros e aos Homens destas e de outras terras,
(quantos deles enlutados também, meu Deus)
que lutam para apagar este círculo de inferno:
com a força dos heróis que os move por não deixar cair,
a esperança do que fazer com a cicatriz do amanhã,
o que fazer com este punhado de terra queimada. 


silêncios de tantas vidas por florir.






sábado, 17 de junho de 2017

O torcicolo (Jynx torquilla)




Esta foi mais uma visita ao abrigo fotográfico do Parque Ambiental do Alambre, situado no Parque Natural da Arrábida, com o intuito de fotografar uma espécie que há muito me escapava - o torcicolo. Por ser véspera de feriado não apanhámos trânsito na ponte e a travessia do rio Tejo fez-se com rapidez e tranquilidade. Quando chegámos ao local, as nuvens eram escassas e já se faziam sentir os ecos de um verão anunciado. Antes de montar as máquinas fotográficas nos tripés, tivemos a necessidade de colocar uma segunda rede de camuflagem nas janelas do abrigo, uma vez que a rede camuflada que lá estava não apresentava as melhores condições. Contudo, o simples acto de abrir uma janela desencadeou uma guerra de imprevisíveis consequências. Nós bem esbracejámos, rogámos pragas e impropérios mas de nada valeu. As hostilidades estavam abertas. Um ataque certeiro, desferido por vespas irritadas, que sentiram o seu espaço invadido, obrigou-nos a fechar a janelas e a debandar. Fui picado na orelha e a dor foi forte, ainda tentei amenizar com água mas não havia muito a fazer senão deixar que o mal-estar diminuísse. Enquanto a dor não passava, os chapins e os verdelhões espalhavam encanto nos raminhos adjacentes e no espelho de água de tantas sedes. Com o passar das horas fiquei melhor porém não havia sinais do torcicolo. Já passava do meio-dia quando verificámos que o tronco seco de uma árvore contígua ao abrigo estava ligeiramente mais alto. O prolongamento desse tronco sofria do efeito de mimetismo do torcicolo. A ave estava no topo do tronco como se fizesse parte do mesmo, sem diferenças assinaláveis para os observadores mais experimentados. Esta espécie de pica-pau de plumagem críptica e que tem o curioso hábito girar o pescoço com um contorcionista, regressou mais duas vezes para gáudio das criaturas que tanto ansiavam o seu aparecimento. E já passava das treze horas, quando pedíamos só mais uma tentativa para fazer uma outra fotografia (aquela fotografia melhor do que qualquer outra), quando o aviso suou. Primeiro um som ténue, depois a movimentação de uma pequena sombra voadora, até que a vespa atacou novamente e eu fui atingido na minha face rubra de contentamento. Era este o preço a pagar para fazer algumas fotografias deste pica-pau e não havia tempo para lamentações. Estávamos a mais naquele local era hora de partir com os restos de uma sorte naturalmente efémera.
















Agradecimentos:

José Frade
Manuel Aldeias