sexta-feira, 28 de janeiro de 2011

Fantasma Branco # 4

Meio quarto de tempo depois.


A noite ainda não tinha terminado e quando menos se esperava… 

Um vulto castanho atravessou-se à nossa frente. Parámos. Sai da viatura. Não vi nada de anormal. Entrei no carro e quando o motor voltou a trabalhar, um coelho olhava-nos com  curiosidade. Sem vergonha nenhuma, seguiu em frente, aos pulinhos, sem olhar para trás. Achei piada ao animal espevitado pelas luzes do automóvel. Não tivemos outra alternativa senão segui-lo em marcha lenta. O coelho parecia querer indicar-nos o caminho de saída. Foi então que do lado esquerdo uma Coruja-das-torres apresentou-se num voo silencioso, depois do lado direito outra Tyto alba surgiu numa escolta perfeita. Fiquei intrigado. Um carro a seguir um coelho, com uma Corujas-das-torres de cada lado. O que se significaria aquela estranha manobra? Durante mais dois minutos o coelho e as corujas escoltaram-nos até à saída. Depois desapareceram num manto negro onde todas as palavras ficaram por escrever. 

Para nosso bem, há sítios que por mais que queiramos são de todo impossíveis de habitar.


Fantasma Branco # 3



(22:30  um segredo revelado indevidamente)


Dois quartos de tempo depois.

Quando acabei de imitar um rato a ave levantou voo. Pelo visor da máquina olhei para algumas fotos, estava satisfeito com o resultado obtido. A coruja aceitou a nossa presença e quando achou que já tinha mostrado a magnificência do seu porte nocturno, deu por terminada a sua actuação. Quando somos convidados para uma festa, temos que ter noção do nosso tempo, por isso mesmo, o carro fez inversão de marcha e seguimos em direcção da saída.




Um quarto de tempo depois.

Ponta da erva, à beira do rio, uma paisagem única e melancólica, uma velha casa emparedada por duas árvores e uma constelação de estrelas, apenas e só a noite como testemunha bastava.
A brincar, o meu Guia Humano contou-me que aquele lugar foi em tempos assolado por almas penadas. Lembrei-me das histórias que ouvira contar aos meus pais sobre as corujas que poisavam nos estendais da roupa, nos portões, ou nos telhados das casas, era presságio de mau agouro (qual Corvo, Corvus corax), mais concretamente, anunciavam o falecimento de um membro da família, nunca tal profecia se concretizou, para bem todos os protagonistas. Limitei-me a guardar máquina na mochila. Já não havia espaço para nenhuma outra fotografia. Devemo-nos contentar com as pequenas grandes coisas que nos são oferecidas sem que nos seja pedido nada em troca. Por isso mesmo, se me pudesse fechar dentro da mochila também o teria feito. 

Fantasma Branco # 2




Esta ave de rapina nocturna pertence à ordem dos Stringiformes e obedece à designação científica de Tyto alba, mas é mais conhecida por Coruja-das-torres. Mede de comprimento, entre 33 a 39 cm, de envergadura, 85 a 93 cm e pesa entre 290 a 350 gramas. A plumagem das asas é constituída por pequenos “ganchos” que abafam o ruído possibilitando um voo silencioso, quase imperceptível. O bico curvado é um utensílio precioso para rasgar carne. A face em forma de coração serve de radar, tipo amplificador auditivo. Os ouvidos estão situados de forma assimétrica, permitindo-lhe localizar a proveniência do som, estabelecendo assim as coordenadas exactas para a localização da sua dieta preferida, ratos, musaranhos e aves de pequeno porte. É possuidora de uma excelente visão nocturna, uma vez localizado o alvo, peneira levemente sobre ele (a dois metros de altura), para depois deixar-se cair a prumo num ataque mortal. A Coruja-das-torres não constrói um ninho propriamente dito, nidifica em edifícios abandonados, troncos de árvores, ou cavidades rochosas, onde sobre um manto de regurgitações deposita os ovos



As regurgitações da Tyto alba apresentam os restos mortais das suas presas, crânios e outros ossos. Tantas vezes, monogâmica, sem registo de divórcios, a fêmea (maior que o macho), eclode os ovos, enquanto o macho se encarrega de caçar. Após 4 semanas nascem entre 4 a 6 crias, mas infelizmente só metade sobrevive. A longevidade desta espécie ronda os 18 anos. 

É uma espécie protegida.




Fantasma Branco # 1


(21:00 – Lua cheia, céu estrelado, temperatura exterior, 18º)


De noite aberta, o caminho encurtava-se ante a aproximação do próximo desafio. Para mim era a concretização de um desejo antigo, algo que polvilhava de encanto o meu imaginário nocturno; ver de perto o maravilhoso “Fantasma Branco”. No primeiro quilómetro da estrada principal, já no interior da Ponta da Erva, o espectáculo anunciava-se único e também assustador devido ao sibilo que ecoava pelos campos, assemelhando-se ao barulho de um pano a rasgar.

O primeiro avistamento surgiu com surpresa. Em cima de uma estaca de madeira que sustentava uma vedação de arame farpado, um espectro branco voou como se fosse um véu de noiva caído do altar. Com cuidado para não incomodar o frágil equilíbrio nocturno, o carro avançou devagar iluminando o caminho com os faróis. A menos de 40 metros do alvo, a 30 metros, a menos de 20 metros, e depois a sensivelmente a 5 metros, não resisti e empoleirei-me no parapeito da janela do carro. O meu Guia Humano desligou os faróis da viatura durante alguns segundos com o intuito de realizar uma aproximação sem nenhum distúrbio. Guinou o carro para a esquerda até a uma vala próxima do poiso do “Fantasma Branco”. Os faróis acenderam-se; primeiro os mínimos, depois médios, por fim os máximos. Tão perto e magnífico, lá estava ele. Assustadoramente rodou a cabeça 270 graus para a esquerda, fazendo-me recordar a enigmática jovem do filme Exorcista no seu leito de possessão. No preciso instante em que me preparava para focar e depois disparar, algo me fez hesitar. No visor da máquina o alvo estava perfeitamente focado e parecia entretido com qualquer coisa que fugia à minha percepção. Ao contemplar aquele cenário nocturno fiquei petrificado como se uma cãibra me tivesse atingido a mão direita. O “Fantasma Branco” oscilou a cabeça para a direita e para a esquerda, para cima e para baixo. 


Contei até dez e mexi os dedos para comprovar as minhas faculdades motoras. Ainda assim, não fiz disparar o obturador da máquina com medo que o som pudesse assustar para sempre aquele encanto. Optei por algo mais natural mas ao mesmo tempo menos consensual. Imitei um rato. Mas não um rato qualquer, um rato caseiro, escondido num carro, preso por uma curiosidade móvel. O meu guia humano olhou para mim de soslaio. Eu sorri. Ele baixou a cabeça para não rir. E continuei na esperança que tal manobra chamasse atenção do “Fantasma”. Nunca pensei que surtisse efeito a minha imitação de roedor. Após vários “ic ic” que tinham tanto de estranho como de absurdo, o “Fantasma Branco” não achou completamente descabida minha prestação e decidiu investigar. Olhou-me, tentando descortinar que som seria aquele. Depois pedi desculpa à noite ante tal intromissão e fotografei. 

terça-feira, 25 de janeiro de 2011

Fotos e o Poema colectivo do Café Poema 21-01-2011

                                                                         
pela Poesia nem a noite fria nos fez arredar pé.
viajámos pela Lusofonia, percorremos vários continentes, visitámos diversos Poetas, e em todo lado sentimos a dinâmica da língua Portuguesa. o meu obrigado à escritora convidada Gisela Campos e a todos os Poetas viscerais pelo empenho manifestado nesta noite de verbo.
aqui fica o vosso poema colectivo ilustrado pelas asas dos sorrisos.


...

" navegando
 alcançámos o céu do mundo
ai ai mãezinha
sem gala renascida nesta pena no desejo feito corpo de um poema
das velas dos meus braços quero eu tecer as teias
pelo caminho pisei as pedras da calçada, 
os carreiros de terra modernos
sim vim ao café poema encher a minha alma de poesia
se disser que a lua era cheia naquela noite poderá parecer mentira
daqui, dali a Dili o poema café é aqui
esta é a nossa história, 
importamos as dores de um império
 e exportamos a alma sob a forma de palavras
na noite da poesia no café poema - a lusofonia
 abismo é o oco da tua boca na minha
um poema vim dizer na noite fria
respiro, recordo e canto o poema como um corpo sem nome 
palavras semeadas...  "

                        ...





















     



o astrolábio que hoje nos prende é o mesmo que ontem nos guiou, 
alma audaz e descobridora.

quinta-feira, 13 de janeiro de 2011

Café Poema - 21-01-2011 - 21:30


e eis que desce mais um ano, ainda no espreguiçar típico da surpresa, sempre que agiganta a esperança.

assim, aqui fica o convite para mais um Café Poema onde iremos degustar a Lusofonia e as suas cambiantes.

 



a entrada ( sempre pela porta) é de borla.

por vezes sentado, outras de .

que não falte a voz,

nem o livro pendurado nas noites brancas,

que do corpo poema
a fala logo se lê.

A iniciação # 10

Outubro 2010. algumas horas depois. de quem do ar se faz em terra.




Meio labirinto percorrido, depois de muitos avistamentos e algumas dezenas de fotografias, decidimos interromper a nossa sessão. Após um jantar não muito frugal num restaurante do Porto Alto, deixámos a noite cair para partirmos em direcção ao santuário do “Fantasma Branco”. Na estrada Nacional 118 era grande a mortandade de animais que sucumbiram ao tráfego automóvel. Desviei o olhar com um nó no estômago e tentei não pensar em mais nada. Impossível.

A iniciação # 9

Outubro 2010. quinze minutos, aproximadamente, um quilómetro do ponto de partida.


Avistei algumas Limícolas.
As Íbis Pretas (Plegadis falcinellus) sagravam-se campeãs na prospecção de alimento, ao seu lado algumas Gaivotas-d'asa-escura (Larus fuscus) e uma Garça-branca-pequena (Egretta garzetta) não ficavam alheias ao evoluir da degustação concorrente. Ninguém se chateou. Registo em serena luz.



A trinta minutos. sensivelmente a dois mil metros da entrada do sonho.

Alguma tensão. Uma brigada de trânsito bloqueou a via. Uma operação stop comandada por um grupo de Colhereiros (Platalea leucorodia) fez-nos encostar à berma. Felizmente a documentação estava em ordem e deixaram-nos ir sem nenhuma repreensão. 
 
 


Quarenta minutos. a dois mil e quinhentos metros do início do percurso.

No alto do sol. Tendo como pano de fundo o pulsar incandescente da cidade longínqua, uma Águia Pesqueira (Pandion haliaetus) voava de poste em poste observando as movimentações piscatórias. Consciência terrena. 

 
e continuamos por entre a estrada e o sonho de voar.


 

A iniciação # 8




Outubro 2010. poucos instantes depois. 

Uns metros mais à frente o Guia Humano sugeria, “Olhe ali e ali e ainda ali!" Eu com a cabeça à nora não sabia para que lado me virar. Tentei ser lesto, contudo fiquei ainda mais atrapalhado quando o cinto e o cordão da máquina se enlaçaram nos meus movimentos. De tão desajeitado, mais parecia uma marioneta que ganhava vida após longa privação, "São os nervos" – pensei; ao mesmo tempo que mordia o lábio e idealizava o complexo "homem-máquina", um ser humao munido com uma potente teleobjectiva acoplada às órbitas oculares e um chip no cérebro onde seriam registadas e armazenadas centenas de imagens por segundo. Confesso, foi uma triste imagem que desejei verosímil. Resultado; nem uma fotografia. Deixei-me de ficções improváveis e remeti-me à minha lentidão de processos. As aves voaram num bando, segundo o meu Guia Humano, superior a cem indivíduos. Fiquei a olhar o horizonte de boca aberta, maravilhado, sem saber o que contar.

quarta-feira, 12 de janeiro de 2011

A iniciação # 7



Outubro 2010. a dez minutos, talvez a quinhentos metros dos portões, quando os pés carregam toda a esperança do corpo.

Ponta da Erva. Liguei a máquina, e de modo mal-amanhado e engenho guloso, tirei uma foto ao caminho que se nos oferecia tortuoso.

Trata-se da zona mais húmida do país. A nível da biodiversidade é uma das áreas mais importantes da Europa com cerca de 14.192 hectares de terreno, composto por montados, arrozais e sapais, onde mais de 200 espécies de aves têm ocorrência regular. No inverno o número de aves aquáticas pode atingir os cem mil indivíduos. Este espaço irá acolher em 2012 o projecto evoa (Espaço de Visitação e Observação de Aves), resultante de uma parceria entre a Brisa – Auto-estradas de Portugal e a Companhia das Lezírias

Os primeiros metros foram soletrados com a cabeça fora da janela. Deixei-me levar pelo suave torpor da paisagem, completamente indiferente às mordidelas dos insectos, qual criança de volta à terra.  queria lá saber! O importante era usufruir de cada instante. Por isso mesmo o percurso foi feito em marcha lenta. No meio da estrada um Lavagante-do-Rio ergueu as suas tenazes em sinal de ameaça prometedora, como quem diz "desvia-te do meu caminho!" Com rodinhas de lã o carro avançou sem o atropelar.

A iniciação # 6




Outubro 2010. quando inventamos um fuga, por favor, não nos perguntem pela saída. 

De volta à realidade visível, a minha viagem continuava a bom ritmo.

Enquanto olhava o céu, tentava escrutinar da eventual vinda de um aguaceiro, por seu lado, o meu Guia Humano relatava as inúmeras observações que tinha concretizado a certas aves raras. Eu já tinha avistado algumas aves singulares mas poucas com penas. Ciente da minha capacidade imberbe de observador, respondia com monossílabos reveladores da minha parca experiência. Olhei para trás, a estrada ficava cada vez mais pequena. Os grandes braços metálicos da ponte de Vila Franca de Xira desfaziam-se em patamares de fuga, enquanto os meus olhos tentavam focar a interminável Recta do Cabo. O fim da viagem (início da expedição) anunciava-se num breve adejar de horizonte limpo. O carro abrandou e eis que cheguei ao princípio cruel da incerteza. Um cartaz anunciava a promessa de Reserva Natural.
O meu Guia Humano disse, “Chegámos Os portões estavam fechados. Reparei que o acesso era condicionado mediante autorização prévia. Os portões abriram-se após o meu Guia Humano autenticar o seu cartão no leitor magnético. Espreitei pela janela da viatura com intuito de avistar alguma ave que nos recebesse de asas abertas. 

Entrámos na Reserva Natural Ponta da Erva.

domingo, 9 de janeiro de 2011

A iniciação # 5




Outubro 2010. local e hora marcada.


Encontrei-me com o meu interlocutor Guia Humano e demos início à jornada. Saímos de Lisboa e entrámos na auto-estrada com relativo tráfego acelerado. Estava ansioso por chegar ao local. Os meus dedos não paravam quietos tamborilando uma melodia enervante no banco da viatura. Para me acalmar, verifiquei o material. Com medo que algo corresse menos bem, tirei a máquina fotográfica da mochila e limpei a lente da objectiva. Por fim, certifiquei-me que o cartão de memória estava formatado e as baterias carregadas. Digitalmente mais descansado, deixei-me levar por pensamentos e considerações.



Em algumas espécies, as alterações climatéricas estão na origem da variação do número de posturas, diminuído assustadoramente o números de juvenis. As alterações climatéricas contribuem para a mudança nas rotas de migração fazendo com que muitas aves antecipem ou atrasem destinos. Todavia, é notável o aguçado engenho manifestado ante a necessidade de sobrevivência. Sem bússola ou GPS que lhes valha, a força da natureza impõe o seu chamamento. Um bom exemplo de quem não faz uso das nossas fabulosas passarolas tecnológicas para se orientar são os Fuselos (Limosa Lapponica). Estas aves, no seu movimento migratório, voam mais de onze mil quilómetros, do Alasca à Nova Zelândia em apenas nove dias, sem parar para abastecimento ou descansar as pernas (asas). Ou então, o Falcão-peregrino (Falco-peregrinus) a ave mais rápida do mundo que consegue atingir os 200 km/h em voo picado. É obra. Justiça seja feita, é obra da Natureza.

A iniciação # 4



Setembro 2010. acredito que nunca se esteja verdadeiramente preparado.

Falta sempre qualquer coisa. Experiência, sabedoria, às vezes paciência.
Ao empreender uma viagem/expedição cujo principal intuito seria observar aves sentimo-nos descobridores ofuscados por uma terra misteriosa. Confesso que os meus conhecimentos em Ornitologia não são muitos. Por isso, pedi ajuda a quem sabe e faz destas saídas pelágicas um modo de vida. Contactei a empresa Birds and Nature e coloquei imensas perguntas, umas mais disparatadas que outras, um verdadeiro manancial de interrogações sobre a observação de aves e os melhores locais para a efectuar. Durante o telefonema fiquei a saber que do outro lado estava alguém que já pertencera à SPEA (Sociedade Portuguesa para o Estudo das Aves), e pensei, “este Guia Humano só pode estar a altura do desafio”. Sem razão aparente, apelidei a pessoa com quem estava a falar como sendo o meu interlocutor junto das aves: O meu Guia Humano. A conversa sobre o tema gerou empatia necessária para marcarmos uma saída pelágica. Depois de desligar o telefone tentei conter o entusiasmo. Tinha que ter calma. Nada me garantia que, lá por ir acompanhado por um mestre, eu fosse bom aprendiz. Tampouco poderia adivinhar se iria fotografar muitas aves ou avistar muitas raridades. Sim; uma coisa é observar aves, outra completamente diferente, será fotografar com o mínimo grau de proximidade sem ser denunciado. São patamares de observação diferentes. Completamente. Aliás, nos tempos que correm, onde impera a era do digital, é fácil tirar uma fotografia, mais difícil será observar ou fotografar aves (Birdwatchers), se não tivermos a paciência, o empenho e o estudo necessários para tal tarefa. Eu gosto de fotografar mas com as devidas distancias que o material e a experiência obrigam. Sei de antemão que os pássaros não ficam parados num ramo, à espera que nos decidamos qual é o melhor enquadramento. Vão à sua vida e fazem eles senão bem. Eu fazia o mesmo; fugia a sete pés se visse uma árvore que não era árvore nenhuma, a olhar para mim com um olho enorme, que não era olho coisíssima alguma.

Continuando. Apenas com pesquisa e investigação conseguimos obter resultados minimamente satisfatórios. Isto porque, só após incomensuráveis horas de olhos postos no ar (e não só) poderemos ter uma identificação oportuna e assertiva. Mas mesmo assim a margem de erro é considerável. Às vezes ficamos sem saber quem é quem. Até recorrendo a um guia de campo, onde se fazem constar grande parte dos passeriformes que ocorrem em Portugal surgem dúvidas de catalogação. A fotografia é o melhor registo para tirar as teimas. Se formos persistentes e com alguma dose sorte podemos almejar um registo de qualidade razoável. Como não me considero nem um eficaz observador nem um bom fotógrafo, entretive-me a contar os dias para viagem; onde do ar tudo podia acontecer.

A iniciação # 3



Agosto 2010. é importante andar camuflado.

Calor muito calor. Ontem estava eu no aconchego do mato, totalmente tapado pelo camuflado, à espera que algum passeriforme pousasse, quando um cãozinho aproximou-se muito intrigado, de orelhas arrebitadas, focinho afunilado e não teve de meias medidas, começou a farejar-me.
Ai que vai ser desta!" - pensei.
Primeiro que convencesse o animal que eu não era um arbusto bipolar? Nem uma árvore falante? Muito menos um tronco perfeito para uma marca territorial? Foi complicado! Mas consegui dissuadir o bicho com um rasgado impropério e de rabo entre as pernas debandou sem olhar para trás. Por sorte, ou talvez não, naquele momento logrei passar disfarçado. Isto só veio comprovar a eficácia da camuflagem mas cuidado, ainda na semana passada, esta mesma indumentária chamou atenção de um agente da autoridade. Só visto! O que penei para lhe explicar que estava assim disfarçado porque andava a (tentar) fotografar passarinhos. Por certo o senhor guarda pensou que eu era um caçador fora de época, ou na pior das hipóteses, um terrorista biológico prestes a concretizar um atentado e quis ver o material que trazia comigo. Até consigo compreender a curiosidade do agente. Bem vistas as coisas, ninguém sai da mata contígua à Quinta dos Ingleses naqueles trajes, coberto por um manto verde, mascarado de arvoredo andante, ainda para mais armado com uma objectiva bacamarte 500 mm Bigma e carregando às costas um tripé tipo aranhiço gigante. Convenci o polícia da minha causa pacífica e ficámos amigos. Como são as coisas? O guarda até me confessou que tinha um canário preso numa gaiola, pelo qual nutria enorme estimação, havia semanas que o animal cantava dia e noite como um tenor eufórico animando o lar como ninguém. Este facto não mereceu qualquer comentário da minha parte e tive que ouvir sem ripostar. 
 
Depois destas peripécias de mimetismo bucólico decidi planear uma viagem diferente e deixei o meu poiso em Carcavelos por uns tempos.

A iniciação # 2



Julho 2010. deixa-os pousar.

Saber esperar é uma virtude. Às vezes a espera conduz a um estado de letargia inquietante. Acreditem. Passa-nos cada coisa pela cabeça após permanecer imóvel durante várias horas à espera que uma ave dê ares da sua graça. Todavia, é sempre reconfortante constatar o diálogo entre a natureza e os seus habitantes, mesmo quando os nossos amigos irrequietos não estejam para aí virados e teimosamente insistam voltar costas à nossa demanda. Passei horas no meio do mato perto da minha casa, como um caçador, mas com uma grande diferença; o troféu da “caça” resumia-se a uma simples fotografia. Porém existem regras a cumprir. É importante não perturbar nem alterar habitats, muito menos os ninhos. É essencial deixar tudo como encontrámos sem nenhuma marca da nossa presença. Um amigo meu disse-me que o birdwacthing seria uma variante de paparazzi dos pássaros. Talvez seja. No entanto, diametralmente oposta aos interesses monetários que movem fotógrafos e gente famosa, uma vez que no birdwacthing, os modelos tentam apenas sobreviver com o que a natureza lhes oferece, enquanto os fotógrafos fazem desse registo um documento de arte e não uma forma lucrativa de negócio. Para mim observar aves serve de catarse, é uma busca primordial por paz interior, quiçá um momento de contemplação, por não possuir asas que me façam voar.

A iniciação # 1



Junho 2010. intrigante esplendor.


Decidido a palmilhar terreno baldio, agarrei na máquina fotográfica com intuito de fotografar libélulas. Não haja dúvidas; as libélulas são modelos exemplares. Muito bonitas e bastantes colaborantes, permanecem imóveis pousadas ao sol durante vários minutos, o que favorece a composição de macro fotografia. Sem que nada o fizesse prever, naquele dia houve greve. Sem pré-aviso, as libélulas evaporaram-se e nem uma apareceu para a sessão fotográfica. Resignado, sentei-me numa pedra para descansar da recente frustração, quando nisto um silvo despertou a minha curiosidade.


Aos pulos surgiu uma ave negra. Assim há primeira vista parecia um melro ou talvez um estorninho. Estava enganado. A ave vestia de preto mas vários pormenores invulgares faziam toda a diferença. Entre eles; um pequeno tufo de penas junto da base do bico, duas listas brancas nas asas, os olhos de um amarelo muito vivo e as patas também amareladas conferiam-lhe um ar bastante exótico. Tentei fotografar aquele estranho espécime e a objectiva esforçou-se ao máximo para trazer a ave para perto de mim. No instante que estava prestes a disparar, surgiu outro exemplar da mesma espécie. O presumível casal permaneceu a debicar o solo durante escassos instantes para depois voarem alvoraçados como se estivessem atrasados para o almoço. Ainda tirei três fotografias com a objectiva de macro, como seria de prever, o resultado não foi lá muito famoso. Quando cheguei a casa decidi investigar na internet, e após alguma pesquisa encontrei um fórum sobre aves. Não perdi tempo. Inscrevi-me, coloquei on-line uma das fotos que tinha tirado ao pássaro e solicitei ajuda na sua identificação. Passado pouco tempo obtive resposta, tratava-se de uma ave de origem asiática, presumivelmente introduzida, mas actualmente com colónias no território nacional, seu nome: Mainá-de-Crista (Acridotheres cristatellus). 


Como um vício que cresce, assim foi a minha necessidade em apurar o engenho e a sabedoria em torno dos pássaros. De tantas fotos que vi nesse fórum, apanhei-lhe o gosto e quase me desgracei (no bom sentido). Investi algum dinheiro numa teleobjectiva, mais um tripé e um camuflado, depois só me apeteceu fugir para o campo. Tive que me conter.

sábado, 1 de janeiro de 2011

novo carro de fogo

e
não foi assim há tanto tempo que ele
atirava pedrinhas num charco de inverno
e brincava na praia com o cão
e pedia pão por Deus no rebate da porta das vizinhas loiras e tão altas
e andava descalço pela estrada por alcatroar
e soltava o papagaio na praia
e comandava um carrinho teleguiado no passeio deserto
e roubava figos na quinta do Marquês
e partia vidros das varandas com a bola de couro e trapos numa grande penalidade falhada da qual nunca se arrependeu
e disparava chumbinhos  de uma porção de ar contra os pneus do carro da professora de matemática
e chateava a menina de sardas que se sentava à sua frente na aula de religião e moral
e descobria por detrás do pavilhão de ginástica o que fazer com a boca da boca
e

agora
ouve o gotejar de uma torneira mal fechada
"deixa cair é sinal que a casa tem fala"
abre a porta de alumínio que dá para varanda
e de pijama vestido com um copo de vinho velho na mão
assoma-se da noite nova

uma ambulância corre apressada
um cacho de pessoas de volta de um corpo
estendido na estrada
ela ainda jovem quase sem nada vestido
"abismos que se esvaziaram em álcool"
um corpo arrombado pela sobra
no alcatrão uma mancha líquida ao lado da cabeça dá o sinal 
as pessoas gesticulam aflitas 
os paramédicos afastam as pessoas mas não calam os gritos
a festa adormeceu realidade

ele deixa cair o copo do terceiro andar até à estrada
mais um estilhaço explosão que ninguém nota, mais um. 

fecha a janela
desliga a televisão
e os concursos onde todos perdem alguma coisa.