segunda-feira, 21 de novembro de 2016

Leitura: 1984 George Orwell





Não tenho a pretensão de escrever critica literária sobre um livro que para mim é mais do que um livro. O que estão a ler é apenas a partilha de uma imagem muito pessoal do que ficou depois desta leitura. E de certa forma, um humilde reconhecimento, pelos momentos passados em que olhei por cima do ombro em busca de sentido para a palavra liberdade. Dei por mim a pensar que nada é para sempre; não podemos dar como certo e adquirido os valores da liberdade e da democracia. De um momento para o outro tudo pode mudar. E para pior. O mundo não pára de nos surpreender; atente-se ao resultado das eleições americanas e à saída do Reino Unido da Comunidade Europeia. Com isto posso parecer um pouco alarmista, porém tantos foram os murros no estômago, as bofetadas, que este livro proporcionou, que não pude ficar indiferente a esta analogia com os tempos actuais. Este livro foi escrito entre 1943 e 1948 e inicialmente teria como título " O Último Homem na Europa". Existe pergunta mais pertinente do que para onde caminhas tu Europa?

Hoje em dia temos a tecnologia que progride a olhos vistos. Porém, como tudo, existe um lado menos positivo, seja na televisão ou na Internet, ambos correm o risco de tornarem-se um vicio da estupidificação massiva. Hoje em dia assistimos ao "big brother" de formas diferentes. Já não falo do deprimente espectáculo televisivo, existem outras formas também elas preocupantes. Vejamos os consecutivos directos sobre os mais recentes crimes, ou as entrevistas com os presumíveis autores, mesmo antes de um eventual julgamento. Passando pelas redes sociais, com as suas virtudes e os perigos de nos afastarmos do essencial. do contacto "olhos nos olhos" com o outro. A constante localização geográfica dos nossos hábitos, dos nossos passos, o rasto das nossas pesquisas, daquilo que consumimos. Tudo está geograficamente localizado e referenciado no mapa da nossa intimidade. Essa informação é coligida pelas redes sociais na sua demanda pela globalização táctil. Não quero com isto parecer um "Velho do Restelo" a discorrer sobre os perigos dos novos tempos, tanto mais que participo em algumas redes sociais com regularidade. Todavia, estou ciente do apelo sub-reptício à constante necessidade de estar "ligado" à rede, de uma forma ou de outra nós somos o elo mais frágil desta emaranhada conexão de interesses. E já habituados deixámo-nos ir, amarrados a esta morrinha, até ficarmos mansos, subservientes, opacos e uniformizados. Até que uma qualquer formatação seja concluída!


Dentro da história 1984 temos a ambição pelo poder e sua manutenção. A pressão persecutória da sociedade que tende a engolir o "eu". Uma sátira ao totalitarismo e às manigâncias políticas dos arautos lideres políticos pelo poder, seguindo os obscuros caminhos da massificação. Resultado: a banalização do individuo e das suas diferenças. Com o vestir da camisola do partido, empresa, ou outra qualquer organização, que ostensivamente esfarrapa a pele do "eu" e das suas expectativas. O silencioso farrapo desumano-social em que nos podemos tornar.

Do livro como um monumento - esta foi uma das melhores histórias que tive o privilégio de ler. As 327 páginas acompanharam-me como um amigo por estações do metropolitano, túneis, jardins, mãos claustrofóbicas e noites vítreas, sempre colocando-me novas questões e desafios. Antes de o arrumar (momentaneamente) na minha biblioteca dos notáveis fica um singelo alerta. A realidade segue dentro de momentos fora de 1984. A actualidade assim o dita. Estejamos atentos para onde  nos levam estes novos e coloridos tempos.

Aqui ficam algumas passagens:

(...)

O objectivo do partido não se baseava apenas em evitar que se criassem entre homens e mulheres laços de fidelidade susceptíveis de escapar ao controlo. O verdadeiro propósito não explicito, consistia em privar o acto sexual de todo o prazer. O inimigo não era tanto o amor como o erotismo, quer dentro, quer fora do casamento, Todos os casamentos entre membros do Partido tinham que ser aprovados por uma comissão nomeada para o efeito, contudo - apesar de se tratar de um principio nunca claramente enunciado - a autorização era negada sempre que os elementos do casal em questão manifestassem sentir um pelo outro mínima atracão física.
A única finalidade do casamento reconhecida era gerar filhos para o serviço do Partido. O acto sexual era considerado como uma operacção desprovida de importância e vagamente repugnante, como um clister.

pág. 69 e 70

(...)

Havia também uma coisa chamada jus primeae noctis, que provavelmente não seria mencionada num livro para crianças. Tratava-se da lei segundo a qual todo o capitalista tinha o direito de dormir com qualquer operária das suas fábricas.

pág. 77

(...)

O quarto era um mundo, um refúgio do passado onde sobreviviam animais extintos.

pág. 153

(...)

Os mísseis que todo o dia caíam sobre Londres deviam ser provavelmente lançados pelo governo da Oceania «só para meter medo às pessoas».

pág. 156

(...)

O Grande Irmão prefigura a forma sob a qual o partido decidiu apresentar-se ao mundo. A sua função consiste em ser um pólo aglutinador do amor, do medo e da veneração, sentimentos mais fáceis de nutrir por um individuo do que por uma organização. Abaixo do Grande Irmão, vem o Partido Interno, cujos os efectivos estão limitados a seis milhões, ou seja menos de dois por centro da população da Oceania. Abaixo do Partido Interno, surge o Partido Externo, que, se definirmos o primeiro como cérebro do Estado, pode com justeza ser comparado às mãos desse mesmo Estado. Abaixo dele, só as massas sem voz que geralmente chamamos «proles», e que representam perto de oitenta e cinco por centro da população. Nos termos da nossa anterior classificação, os proles são a categoria Baixa: pois a população escrava das zonas equatoriais, que passa constantemente das mãos de conquistador para conquistador, não constitui um elemento permanente nem indispensável na estrutura.

 pág. 209

(...)

Quando saírem das nossas mãos não passam de invólucros vazios. Nada tinham lá dentro, excepto tristeza pelas suas acções, e amor ao Grande Irmão. Impressionava ver como o amavam. Suplicavam que os fuzilássemos depressa, para puderem morrer enquanto neles o espírito ainda estivesse puro.

pág. 257

(...)

Ficarás oco. Havemos de te espremer até ao vazio, e depois encher-te-emos com a nossa própria substância. ´

pág. 258

(...)

Os filhos serão tirados às mães à nascença, como se tiram os ovos às galinhas. O instinto sexual também será suprimido. A procriação transformar-se-á numa formalidade anual como a renovação dos cartões de racionamento. Aboliremos o orgasmo. Os neurologistas já estão a estudar o assunto.

(...)

Se queres uma imagem do futuro, pensa numa bota a pisar um rosto humano. Para sempre.

pág. 268



« *****  »


terça-feira, 15 de novembro de 2016

Super Lua




Dia 14 de Novembro pelas 17:49 estava a trabalhar quando a lua iria subir aos céus. Como não queria perder este momento, tive que deixar o material preparado no meu primeiro andar altaneiro, para registar a passagem deste modelo lunar no anoitecer lisboeta. 
Assim, antes de sair de casa, junto à janela programei a máquina fotográfica para tirar uma fotografia de 5 em 5 minutos, apontando para o céu onde estaria em breve a super lua. Tinha em mente realizar um pequeno filme em time-lapse deste fenômeno lunar. Infelizmente, por questões técnicas (maldita mancha no sensor), o filme não correu como esperado. Todavia, salvaram-se algumas fotos que recordam o ponto de órbita mais próximo da terra (o famoso perigeu), onde o tamanho da lua foi 14% maior e o seu brilho 30% mais intenso, fazendo o nosso satélite parecer mais perto de nós.


Desde à 68 anos que não se via nada assim, esta foi realmente a maior super lua. Para os mais optimistas, é já ali ao virar da esquina, no próximo ano de 2034, que iremos presenciar  um evento lunar com indicadores superiores a este. Até lá que não andemos aluados. 



No dia 15 também houve lua e ainda bem túrgida.  Nada melhor que aproveitar folga para fotografar o nosso satélite, em cima do telhado na companhia de gatos e telhas frágeis.




sexta-feira, 11 de novembro de 2016

Leonard Cohen e os amigos!




Hoje recordo o ano de 2008. Lembro-me de assistir a um concerto único, no passeio marítimo de Algés, onde um homem calmo e gentil entoava canções poemas numa voz grave e serena. De coração cheio e olhos lavados pelo vento, recordo aquelas horas que ficaram para sempre na minha memória. Tantas foram as vezes que aquela voz rouca e a poesia ofereceram inspiração aos meus humildes escritos. Em cima no palco, o homem tirava o chapéu e agradecia aos músicos e ao publico que o saudava em aplauso vivo, enquanto ele tratava todos por amigos. Amigos!

De céu cinzento a música toca na rádio. Não vale a pena aumentar o volume das sílabas. Não vai aproximar o eco da falta. Perplexo, fico imóvel e procuro um som grave na discografia que me ampara. Encontro um Homem capaz disso. Olho as fotografias que compõem o corpo do disco. De costas, um vulto segura uma guitarra. À sua frente estende-se uma paisagem de telhados velhos com segredos renovados e janelas por descobrir. Letras de canções e vidas. Talvez ainda hoje ele vá escrever ou cantar. Nunca se sabe as possibilidades que um génio tem para nos surpreender.  Noutra fotografia ele toca na biqueira da bota e segue-nos de semblante sedutor com um cigarro na boca. Coisas simples. Por cima das nossas cabeças ele continua a falar-nos aos ouvidos.

Ainda não chove mas por certo que hoje será o dia mais indicado para isso. Daqui, deste canto de anonimato, continuo a aplaudir o homem que um dia me chamou amigo, tal como apelidou de amigos a milhares de pessoas, e assim ficámos amigos sem nunca nos conhecermos. Talvez seja esta a melhor forma de amizade.

Lá em cima, há um palco onde cantam homens de alma eterna e sonhadora e nós cá em baixo continuamos a ouvir o mar das suas palavras, enquanto a chuva se encarrega dos nossos dias.


Leonard Cohen
1934-2016


quarta-feira, 9 de novembro de 2016

Borboleta-caveira e o terço




O céu gritava sentenças de chuva enquanto deslocava-me para mais uma consulta de rotina. Por entre as árvores que cercavam o caminho observei um estranho pássaro num voo desengonçado, culminando numa aparatosa queda. Aproximei-me do bicho que repousava por entre as folhas outonais e verifiquei que estava enganado na identificação do errante voador, pois a borboleta-caveira (Acheronthia atropos) nada tinha de passeriforme na sua fisionomia. Pequei no insecto e tirei algumas fotografias de onde sobressaia a sugestão ilusória de uma caveira desenhada no dorso. Com este inesperado encontro, o tempo tinha voado. Com cuidado deixei o animal abrigado numa concavidade entre dois troncos de uma árvore e apressei-me para o consultório. Uma hora depois, da consulta resultaram exames e mais exames, nada que não tivesse à espera. Antes de ir para casa, regressei à árvore onde tinha deixado a borboleta. Ela lá estava, porém, infelizmente, já sem vida. Restou-me o desejo, de que durante  as suas viagens, tivesse deixando espaço genético para outras surpresas voadoras. 

No outro dia festejava-se o feriado de Todos os Santos e eu sai de casa para o trabalho ainda o sol não tinha nascido. Quando cheguei à estação do metro encontrei a gare abandonada e no meio de sombras e escadas rolantes avariadas, ecoavam passos sem passageiros, tal como sombras sem ânimo. Por fim chegou o comboio, as portas abriram-se e quando entrei, num voo pendular, algo raspou ao de leve no meu rosto. O quer que fosse que me tivesse atingido, era de recorte fino e emanava um brilho rápido. Olhei para trás e de mão aberta capturei-o quando fazia o voo de regresso. Tratava-se de um pequeno crucifixo de madeira suspenso por um fio composto por muitas esferas negras.. Desconheço a motivação de quem atou o crucifixo no vestíbulo da carruagem, mas revejo-me no desígnio de fé anónimo. Estação após estação, viajei como se estivesse dentro de um fotograma móvel, seguindo as luzes e os rostos que entravam neste suposto filme. Ao mesmo tempo, contemplava o crucifixo embalado pelo ritmo das bênçãos o terço e do movimento da carruagem. Durante o percurso, a reacção dos passageiros ao símbolo religioso fez-se de espanto, sorrisos e esperança silenciosa, como qualquer viagem da qual se antevê o inicio mas desconhece-se o fim.


Com 13 centímetros de comprimento esta será uma das maiores borboletas e mais pesadas que por cá voa. Espécie migradora proveniente do continente africano é apreciadora de sol e de calor. É um dos poucos insectos que imite um som quando se sente ameaçada. Pode ser observada entre Maio e Setembro e apresenta 2 gerações durante o ano. A sua alimentação é variada, porém privilegia o mel, nem que para isso tenha que invadir colmeias e ludibriar as operárias que a defendem. Para não ser atacada pelas abelhas, faz jus do seu zunido para as acalmar, passando quase despercebida, podendo assim alimentar-se dos favos. Mas nem sempre consegue infiltra-se com sucesso e quando é detectada a história não acaba bem.