quarta-feira, 25 de junho de 2014

Tybak




No deserto Tybak perdeste-te um dia.
Eu parti à tua procura. 
Segui pegadas invisíveis guiado pela lua cheia de mariposas.
Os teus ecos ficavam suspensos nas asas das borboletas, 
formando uma aurora azul e verde de manto calmo.
Para onde quer que olhasse eras tu que eu via: 
num reflexo, numa sombra, tronco, erva, pedra ou brilho da areia;  
É nessa dimensão que habitas: no espaço que existe entre as coisas e os gestos.
Às vezes ouvia um eco que não durava mais do que 2 minutos.
Creio que fosse o rasto do teu nome feliz pelo esquecimento das estrelas mais distraídas.
Um grito sem se ouvir o tempo.

Muitas vezes, desesperado, entrei no deserto, 
percorrendo círculos de demanda e loucura;
tentei encontrar-te, mas tudo o que consegui foram saudades.
Anos mais tarde, o deserto de Tybak foi baptizado com o teu grito. 

Sabes perfeitamente...
Nunca desisti de te procurar em todas as pedras que à noitinha mudam de lugar. 
Não te encontrei e ainda me perco no areal que penso ser o teu corpo. 
Tantas são as vezes que te toco com a imaginação vermelha das cores da terra incógnita.

Não há olhos que te tragam para aqui.
As mãos mentem-me. 
Não há oásis sem que se chore primeiro.
Não há pele sem chuva. 
Enquanto isso...
O deserto move-se até à membrana citadina da civilização.
Qualquer dia o deserto está cá dentro. Ocupa-me.

Tenho a certeza que um dia vou encontrar-te mas até lá...
Sabes porque te escrevo deste sitio inóspito sem posto de correio ou mensageiro de boas novas?
Para que nunca me esqueça como é uma linda mulher no meio dos destroços de um dia esperança. 

quinta-feira, 12 de junho de 2014

Uma viagem de dirigível





Lembro-me do teu rosto,
muito antes de nos conhecermos,
recordo-me da tua face felina muito para além de esfinge,  
lembro-me do teu corte de cabelo em curva e contracurva
do teu jeito rebelde de trono desafiante,
salto alto encanto e andar seguro.

Recordo os poemas declamados pelos teus olhos  
da forma como, sem te aperceberes, pronunciavas as vogais 
que existiam dentro dos nossos silêncios.
e deixavas-me adivinhar qual seria o próximo livro que ias ler
ou a peça de teatro que irias improvisar.

Brincávamos a tudo e mais alguma coisa
e às vezes chorávamos sem motivo aparente,
felizes daqueles que não sabem porque choram;
a sonhar tudo nos acontecia.
Guardo para sempre a tua reação, quando um dia te perguntei: 
"verdes ou cinzentos, a que espécie alienígena pertences?"
Sabes qual foi a tua resposta?

Lembro-me do teu corpo.
do traço de luz que descia da tua anca,
e os búzios amestrados que subiam pelas tuas mãos; 
A imaginação da tua boca.
As manobras curiosas dos teus lábios sempre que comias um dióspiro 
e uma gota sensual descia pelo teu queixo, 
dizendo bom dia ao último sol.
A pele do teu nome num beijo de fruto.
Depois a crueldade da distância e a invenção da saudade.

Por favor, lembra-me que estarei a mentir, se algum dia negar tudo isto.
Eu sei que nada disto existe ou existiu. Ainda.
Enquanto isso, espero pela chegada do último dirigível de ar quente.
É nesse momento que te vou reconhecer. 




quarta-feira, 4 de junho de 2014

Inquietude por excelência


Quando me convidaram para escrever e declamar um poema para a cerimónia de entrega dos Prémios Excelência aos filhos de colaboradores da Portugal Telecom - aceitei o desafio com muito orgulho. 
Porém, estava ciente que nem sempre temos a lua ou a sorte para escrever "aquele poema", mesmo quando procuramos o melhor momento para tal. Isto porque não existe - o momento certo. Muito menos, palavras que traduzam a urgência de escrever "o tal poema".  Assim, depois de muitos esboços e rascunhos, nasceu a Inquietude por excelência, inteiramente dedicado ao mérito dos alunos com extraordinário aproveitamento escolar. Aos obreiros do futuro deste país, aqui deixo estas humildes palavras.


Numa plateia repleta de excelência e mérito,


ouviu-se um simples poema 



Inquietude por excelência




De onde vens?
na mansidão de horas calmas,
do nome da terra e de todas as nuvens que desenhamos ao longe,
do local onde foste dia, para além das noites em claro,
em bibliotecas construídas no topo das árvores,
onde nos ramos das estantes mais altas,
os livros concretizavam impossíveis em páginas de vento;
nesse local de abecedário infinito,
surge na curva do teu olhar um brilho.
esse é o engenho com que se ergue um sorriso
e se fecha um caderno diário de conquistas.
Tu vieste da terra onde as portas são voadoras
e as janelas mudam de céu a cada tempo teu.

Agora que olhas para trás e pensas:
- Aqui cheguei!
pelo esforço do dia-a-dia,
feito fogo na palma dos olhos,
de tantas cidades dentro de cidades,
onde crescer para fora das fronteiras
é o grito que precisamos de ouvir em silêncio;
Assim...
do livro, do estudo e do prolongamento da mão,
das ruas desenhadas a régua e esquadro e dos seus passageiros binários;
tudo pode acontecer numa folha quadriculada.
Já para não falar dos bichos-carpinteiros que te obrigam a roer o lápis,
de nervoso miudinho, ou até da falta dele,
sem perder um minuto de atenção pois a atenção não se perde sozinha:
dos comboios de sensações e das suas fórmulas indecifráveis,
das escolas, das universidades, dos intervalos, das pautas, dos colegas,
do toque de entrada, ao toque do telemóvel, da mensagem adiada,
e da nota conquistada na órbita do sonho,
dos beijos e abraços que quase tudo diziam,
forrados em papel memória e doce afecto.
Estás aqui.

Por fim, no calmo aconchego,
onde nasce o sorriso de soslaio do pai e o orgulho triunfal da mãe,
outros dizem em surdina: “Está feito um Homem!” Ou “Ah grande Mulher!”
Porém, como será amanhã?
depois destas explosões de mar à vista e terra prometida,
após tantos rascunhos e quimeras;
Como será?
Há outra luta, é verdade, mas que seja de inquietude por excelência;
porque até aqui meus amigos, vocês foram fazedores de sonhos!