sexta-feira, 30 de março de 2012

Genérico: 4 Estações sobre Monsanto

Hoje pelas 22:00 será projectado o documentário 4 Estações sobre Monsanto, no Café Poema, no Cappuccinos Coffee Shop, depois será a vez da televisão no Meo Kanal 747500, receber o filme no dia 04/04. Até lá fiquem com o genérico.



quinta-feira, 29 de março de 2012

Projecto Quatro Estações sobre Monsanto - Chapim-carvoeiro ( Parus ater)

Esta semana o Projecto Quatro Estações sobre Monsanto traz-nos o Chapim- carvoeiro no seu esplendor e intimidade antes do seu banho matinal.




I

na copa semiesférica,
no topo dos pinheiros mansos existem cidades voadoras em almas esvoaçantes
habitadas por criaturas tão pequenas que cabem na tua mão ainda mais pequenina,
que quando junta à minha mão: é uma cidade maior que todas as geometrias




II

a intimidade da nossa fala não tem corpo
por isso temos o Amor depois das palavras queimadas 
os incêndios das camas onde as pinhas e os pinhões são os nossos brinquedos
tantas vezes solitários, somos índios mascarrados de fuligem e resina na cara e nos braços;
crianças felizes e distantes:
quando tudo foge para dentro dos olhos.




  
III


no topo do pinheiro,
vives os teus dias de agulha em frugal delícia
não tens horas nem relógios pendurados nos ramos ou nas asas
na ponta do bico tens um beijo perpétuo pronto a cantar
cá em baixo tudo vive a um ritmo de húmus célere,
será que consegues amar o que fica depois de um livro fechado?



domingo, 25 de março de 2012

Café Poema - Primavera-poética 30|03 22:00





Chegou a Primavera e por isso,

é já na próxima sexta-feira que vamos falar sobre a Primavera Poética que vive em cada sorriso de esperança, em cada palavra, num renovar constante de horizontes.

Que da alma poética subsista a luz quando tarda tudo resto.

Não percam também a projecção do meu documentário:

4 ESTAÇÕES SOBRE MONSANTO


Sejam bem-vindos e Boas Primaveras.

SG

quarta-feira, 21 de março de 2012

Compreendes agora....





Compreendes agora porque olho nos olhos da madrugada?
de todas as coisas que te queria dizer
há uma que guardo sempre para amanhã
no desalinho eterno de adiar
como se quisesse naufragar
em todos os horizontes
fora de todas as coisas já ditas.
por isso, meu amor,
que hoje seja um dia qualquer
sem destino ou paragem,
apenas lábio de sol em flor 
e amanhã?
que haja sempre uma vereda 
corpo poema.

sábado, 17 de março de 2012

Semana da Primavera no Parque Florestal de Monsanto

Amigos, 

Apresento o programa para a comemoração da Semana da Primavera, a decorrer de 19 a 25 de Março, no Parque Florestal de Monsanto. Uma excelente iniciativa, organizada pela Divisão de Gestão e Manutenção do Parque Florestal de Monsanto da Câmara Municipal de Lisboa, que devem aproveitar em plena comunhão com a natureza. Vale a pena!

No dia 24, pelas 09:30, vou apresentar o Projecto Quatro Estações sobre Monsanto num Workshop criado para o efeito.

Desde já estão convidados.

Boas Primaveras


sexta-feira, 16 de março de 2012

Projecto Quatro Estações sobre Monsanto - Chapim-Rabilongo











Quando fecho os olhos,
é possível ver pequenos seres imaginários
por serem tão fantásticos,
têm lugar de honra no meu livro de biologia do 9º ano;
bichos que mais não eram do que pessoas pequeninas.

As coisas eram tão simples nessa altura;
No 9º ano, se determinado bicho não estivesse escarrapachado no livro de Biologia,
era caso para dizer que o bicho não existia.

Anos mais tarde, 
após o desencanto floral da idade,
certos seres minimais atravessaram-se à minha frente;
eram coloridos e pequeninos como se desejam as ilusões
e como tudo na vida como surgiram assim desapareceram.

Há quem diga que esses bichos banhavam-se na lagoa da serra,
tal e qual duendes em correrias loucas por entre veredas da madrugada;
há quem diga que ainda hoje aparecem nas noites de lua nova 
há quem diga muita coisa e acerte muito pouco.

quarta-feira, 7 de março de 2012

O que fazia uma mulher nua, de espingarda em punho, no último andar do hotel?




O que fazia uma mulher nua, de espingarda em punho, no último andar do hotel?
Ela não se importava minimamente com quem a estivesse a observar.
Satisfez o desejo que tinha reprimido durante a viagem na varanda do quarto.
Para que a geometria variável do corpo fizesse com que as curvas
fossem sexos por imaginar, ela amava o seu criador numa carícia solitária.
Ela, a espingarda e a imaginação de cada um.
Depois de satisfeita, percorreu o interior do quarto até encontrar os binóculos.

Por detrás das lentes, num gesto paciente, observou a cidade viva.
Visto de cá de cima, no décimo andar, tudo parecia miniatura.
Os homens sós eram bijutaria quebrável.
As suas vidas ordeiras de rotinas mecânicas e previsíveis eram  uma afronta aos valores familiares.

Este mês ainda não tinha limpo o cebo a nenhum.
Ela gostava de matar homens como viera ao mundo - nua -
Foi esse o pacto que fizera, era um pacto justo.
Foi esse o acordo com o seu criador, não com um diabo qualquer,
ela não acredita nos homens que passavam a vida sozinhos por um motivo qualquer:
divorcio, viuvez, opção, celibato, tudo desculpas para morrer mais depressa
por isso, ela só crê no seu criador, que era ao mesmo tempo:
médico, padre, professor,amante, pai, homem, e muitas coisas mais.
Como ele, não havia mais nenhum e como tal, todos os outros homens sós tinham que desaparecer.
E o quanto antes. Ela fazia por isso, esforçava-se cada vez mais, tornando-se numa excelente atiradora.

Diz quem a viu que não havia mulher mais bela.
Mas obviamente que não sabiam que ela matava homens.
Matava homens sós, aqueles bichos hormonais que estavam a mais na sociedade.
Esses homens eram perigosos.
Homens sós que nunca teriam oportunidade de olhar para ela, nem de lhe perguntar o motivo pelo qual ela só matava homens solitários.
Ela antecipava-se.
Não matava homens acompanhados por mulheres ou por outros homens. Só renegados.
Um homem sozinho é o pior animal ao cima da terra.
Que o diga a mulher que agora acaricia o gatilho da espingarda como se fosse o órgão genital adormecido.
Ela só matava desconhecidos solitários, assim nunca seriam potenciais concorrentes ao seu criador.
Como sabia que aquele seria um homem só?
O modus operandi era simples:

Sempre que chegava a uma cidade alojava-se num hotel e seguia os alvos da janela,
descortinando em cada um sinais de inegável solidão e abandono.
Depois de identificadas as rotinas e os hábitos dos alvos,
passados dias, estes acabam com um tiro na nuca.
Após dizimar uns quantos homens sós, ela seguia viagem para outra cidade e voltava a repetir a dose.

Neste caso o alvo foi identificado. Confere com o estereótipo.
Ela foi buscar o seu objecto de prazer e depois dirigiu-se à janela.
Pegou na mira, enroscou na espingarda, afinou a pontaria e disparou.
Por sorte do visado, ela não acertou no alvo, o homem só fugiu às regras da previsibilidade
e agachou-se no momento do tiro para pegar num objecto que caíra ao chão.

Incompreensivelmente falhou. Ela não costumava falhar. Alguém bateu à porta do quarto. Ela não ligou.
Como foi isto acontecer? Aquele animal abaixou-se no momento do disparo?
Ao ouvir o tiro os transeuntes assustados olharam para todos os lados.
Incrédula olhou para baixo, como foi possível ter falhado?
No quarto de hotel continuaram a bater à porta. O telefone tocou e ela voltou a não ligar.
De raiva, bateu com os punhos no parapeito da janela, abriu o pulso e um golpe sangrou.
Deixou cair a espingarda que disparou sozinha um tiro que atravessou o lobo frontal da sua amante.
Desta vez o seu criador acertou. Ela precipitou-se de olhos ainda abertos até ao solo.
Quando os homens sós viram uma mulher tão bela vinda do céu a beijar o chão, temeram que fosse  enviada por um anjo qualquer, e correram, correram, passaram a vida a correr.