domingo, 9 de janeiro de 2011

A iniciação # 3



Agosto 2010. é importante andar camuflado.

Calor muito calor. Ontem estava eu no aconchego do mato, totalmente tapado pelo camuflado, à espera que algum passeriforme pousasse, quando um cãozinho aproximou-se muito intrigado, de orelhas arrebitadas, focinho afunilado e não teve de meias medidas, começou a farejar-me.
Ai que vai ser desta!" - pensei.
Primeiro que convencesse o animal que eu não era um arbusto bipolar? Nem uma árvore falante? Muito menos um tronco perfeito para uma marca territorial? Foi complicado! Mas consegui dissuadir o bicho com um rasgado impropério e de rabo entre as pernas debandou sem olhar para trás. Por sorte, ou talvez não, naquele momento logrei passar disfarçado. Isto só veio comprovar a eficácia da camuflagem mas cuidado, ainda na semana passada, esta mesma indumentária chamou atenção de um agente da autoridade. Só visto! O que penei para lhe explicar que estava assim disfarçado porque andava a (tentar) fotografar passarinhos. Por certo o senhor guarda pensou que eu era um caçador fora de época, ou na pior das hipóteses, um terrorista biológico prestes a concretizar um atentado e quis ver o material que trazia comigo. Até consigo compreender a curiosidade do agente. Bem vistas as coisas, ninguém sai da mata contígua à Quinta dos Ingleses naqueles trajes, coberto por um manto verde, mascarado de arvoredo andante, ainda para mais armado com uma objectiva bacamarte 500 mm Bigma e carregando às costas um tripé tipo aranhiço gigante. Convenci o polícia da minha causa pacífica e ficámos amigos. Como são as coisas? O guarda até me confessou que tinha um canário preso numa gaiola, pelo qual nutria enorme estimação, havia semanas que o animal cantava dia e noite como um tenor eufórico animando o lar como ninguém. Este facto não mereceu qualquer comentário da minha parte e tive que ouvir sem ripostar. 
 
Depois destas peripécias de mimetismo bucólico decidi planear uma viagem diferente e deixei o meu poiso em Carcavelos por uns tempos.

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