terça-feira, 26 de abril de 2016

BioMelides: Cuco-canoro (Cuculus canorus)






Eram 06:30 quando acordei com o sinal evidente da chegada da primavera. Do alto dos pinheiros ecoava o alerta sonoro do cuco-canoro (Cuculus canorus). Uma onomatopeia dissilábica num característico "cucu-cucu". Esta ave não faz ninho, muito pelo contrário, opta por colocar um ovo no ninho de outras espécies hospedeiras (petinhas, rouxinóis) para que estas possam assegurar a sua descendência. Aqui impera a lei do mais forte e do mais dissimulado. O cuco recém-nascido começa por remover do ninho os ovos da espécie hospedeira, garantindo assim o centro de todas as atenções e cuidados. Os pais multiplicam-se em esforços para que nada falte ao falso filhote. Nem desconfiam do tamanho da ave que estão a criar ser muito superior ao seu.  Por vezes, a sobrevivência de uma espécie faz-se com os insondáveis voos da natureza.




domingo, 24 de abril de 2016

Em laboração contínua








Neste trabalho não se pode adiar uma segunda feira,
não há sábado, feriado ou festividade;
uma simples terça feira repete-se sete dias por semana,
sempre que a urgência incendiar a expectativa
assim segue a vida em contraciclo social.

Em laboração contínua de 8 oito horas de trabalho imediato,
o calendário é um mapa de minas esquecidas,
enquanto as nuvens movem-se ao contrário das efemérides,
o tempo é um bicho rápido que foge a sete pés dos afectos,
Porém  gosto do que faço!
porque nada do que me explode nas mãos
é suficiente para invejar quem dorme descansado.

Eu sei... e todas as famílias sabem:
das 09:00 às 17:00 o mundo é outro,
ficamos mais tempo no presente;
as cores, os cheiros, o transito das sombras espectrais é lento
depois, ao domingo, é ver famílias inteiras a passear pelos reptilários sociais
enquanto eu desenterro recordações em anomalias orbitais
em transmissões digitais de "zeros" e "uns".
como eu, existe tanta gente que não dorme de noite:
bombeiros, enfermeiros, médicos, policias, taxistas e artistas
e porque a falha não escolhe hora nem local,
também temos ladrões e vigaristas.

Aqui estou eu às 04 da manhã como se fossem 04 da tarde,
orgulhoso representante de uma nova espécie humana-radar
de olhos esbugalhados orelhas proeminentes e mãos tentaculares
capaz de “morcegar”, “toupeirar” ou "felinar"...
pelos recantos deste labirinto à prova de míssil, terremoto ou fogo,
sem que me faltem interruptores para desligar.



sexta-feira, 22 de abril de 2016

Abstracção da primavera







Em dias cinzentos a abstracção da primavera 
torna a espera um local habitável,
quase não sentimos a falta dos nossos erros maiores,
nem a ausência das pessoas que nos sobrevivem diariamente.
sentimo-nos capazes de suportar  o peso da lua noutra órbita.

nestes dias somos maiores que as nossas faltas
mas depois, porque há sempre um depois,
fica uma porta por fechar, uma gaveta por arrumar,
uma palavra que não encaixa no terço do nosso pensamento,
um se - um longo, abjecto e  curvilíneo se -
que nos conduz pelas estradas dos desertos caseiros
até ao novelo de todas as dúvidas.

temos que voltar,
no bolso, o peso das chaves de casa serve de aviso,
tudo seria diferente se hoje não tivesse saído e arrastado os pés pelo bosque,
não fosse o desespero dos abraços de mato e dos espinhos das silvas
contra o corpo que agora avança,
 e quase não dava pelo silencioso canto do sol.




quinta-feira, 14 de abril de 2016

Leitura: A Morte de Ivan ILiitch





Foi uma sensação única ler Lev Tolstói nestas brilhantes páginas que reflectem as escolhas e as consequências perante o julgamento de uma morte anunciada. Esta obra começa e acaba com as derivações da morte e com as interrogações sobre a vida e as oportunidades que ela nos concede. 
Se me é permitido errar (porque é, e será sempre um erro) qualificar um livro; de uma forma simplista estamos perante uma obra forte, de escrita limpa e objectiva que nos leva a questionar: Será que estamos a viver a vida da melhor forma? Essa foi a pergunta que Ivan Iiicth fez, após uma queda que feriu fatalmente o rim; seguiram-se 3 meses de agonia, sofrimento e dúvidas, numa fuga pelos túneis mais escuros da alma humana. 

Alguns momentos:

"A expressão que levava para a cova era a de que tinha sido o feito o que devia ser, e bem feito. E havia nela, também, uma censura, ou uma advertência, aos vivos"

pág. 11

"Forte, saudável, visivelmente apaixonada, e tão indignada com a doença, o sofrimento e a morte, um estorvo para a sua felicidade"

pág. 78

"Sentia que o seu sofrimento advinha tanto do processo de se atafulhar no buraco negro como, ainda mais, de não conseguir encontrar lá. Ora, o que o impedia de deslizar para o saco era o reconhecimento de que a sua vida tinha sido boa. Era a auto-justificação da sua vida que o agarrava, que não o deixava avançar, e isso torturava-o mais do que tudo."

pág. 94


Este livro inesquecível foi e é uma excelente companhia.

*****

quarta-feira, 13 de abril de 2016

Metro da Reboleira


O metro chegou! Há 12 anos que esperava por este dia. Desde que comprei casa nas imediações da Reboleira, que sonhava ir a pé para o trabalho e deixar o automóvel em casa. Menos poluição, menos confusão, menos gasolina, mais saúde e mais ambiente!
Por isso fui à inauguração da estação de Metro da Reboleira, na linha azul, e fiz a segunda viagem tripulada (a primeira foi para o Sr. Primeiro Ministro e a Sr. Presidente da Câmara)


A viagem da estação do metro da Reboleira até ao Marquês de Pombal realizou-se em 20 minutos e no sentido contrário em 19 minutos. Temos que mudar hábitos de mobilidade e acessibilidade nas grandes cidades, isto se queremos ter um ambiente ecologicamente mais sustentável e este já é um bom começo!