terça-feira, 28 de junho de 2011

A menina da rádio



Quando eram 02:00 sintonizou a frequência de éter sem amparo ou sono
e esperou pelo início do seu programa de rádio favorito
depois deixou-se cair na cama de livros moribundos num suave deleite
ao sabor de uma voz infinita de aguarela colorida
que se desprendia dos frutos quentes da noite em calda doce e sílabas de mel

Por mais que uma vez, ele imagina o sorriso da voz,
nunca estabelecendo um paralelismo direto entre a locutora e o sibilar da fala que a habitava
como se a pessoa do outro lado das ondas hertzianas fosse uma entidade
e a sua voz fosse outra, numa janela de alma diferente
que jamais se juntariam num invólucro único e comum

Para ele, aquela voz era um fio de azeite e o corpo uma filigrana de água
passou a noite desfolhando as improbabilidades das parecenças
escutando o bater acelerado do seu coração
sempre que a locutora anunciava uma outra luz de canção

Por sua vez, no estúdio da rádio,
um corpo de transístor autómato proferia o canto das estrelas
em piloto automático de uma playlist sistematizada
nisto a menina da rádio chegou ao estúdio ensonada
mas ainda a tempo de desligar o computador,
por respeito de todos aqueles que se rendiam aos encantos invisíveis
que pairam no ar, sem rede, ante a vertigem do imprevisível,
a locutora ocupou o seu lugar e...

Abriu a emissão com a sua voz de sempre,
ele apercebeu-se da diferença e o sonho em aguarela de éter continuou.

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