terça-feira, 21 de dezembro de 2010

Monólogo da Espera - 1º acto -

a 05 de Novembro de 2010, aquando do 1º aniversário do Café Poema, foi apresentado um monólogo teatral que reflectia a espera de todos os dias, mesmo não sabendo pelo que se espera, nem o que se desespera.
posto isto, aqui fica o texto na integra e o registo fotográfico do momento.
o meu Obrigado,
Isabel Ayres pela excelente interpretação corporal que fez do texto.
Ana Freire pelo inigualável trabalho fotográfico.

Monólogo da Espera



1º Acto
Gregário

(Lisboa, 5 de Novembro de 2010, 22:30)



Rápido. Com fome de memória.
No quarto o candeeiro de chão projectava uma luz escura. Ele acordou com a boca seca e num pulo saltou da cama. Ainda quase a dormir procurou algo onde pudesse escrever. Em cima da mesa-de-cabeceira desfolhou um bloco de notas no qual redigiu umas frases soltas. Arrancou as folhas do bloco e leu em voz alta. Com a caneta na boca e a esbracejar, ele voava entre o quarto e o corredor. As frases não faziam sentido. Desorientado tentou recordar-se de mais alguns pormenores do seu sonho. Precisava de água. Na casa de banho encheu um copo que bebeu num trago, depois lavou a cara e verteu líquidos evitando acertar no rebordo da sanita. Lavou as mãos e amassou a toalha à pressa para dirigir-se ao quarto.

Do guarda-fatos extraiu uma mala preta de estilo executivo. De dentro de um saco plástico retirou 50 metros de cordel enrolado num novelo. Das gavetas situadas na parte debaixo do guarda-fatos removeu um suporte metálico composto por uma lupa com uma pinça de cada lado com hastes móveis e retrácteis. Depois, do interior de uma caixinha de cartão forrada com papel vegetal, desembrulhou uma lanterna de punho amarelo. Depositou os objectos ordeiramente em cima da cama. Do pouco que se conseguia lembrar não faltava nada. Nem mais nem menos.
A indumentária do sonho estava completa.

Ligou e desligou a lanterna. Olhou os seus dedos à lupa, aumentados dez vezes à escala real. Esticou a ponta do cordel para comprovar a sua eventual resistência à força. Material certificado. Tudo em ordem. Colocou os objectos dentro da mala que fechou num suspiro imediato. Por cima do pijama vestiu um roupão vermelho-escuro, guardou as folhas com os rabiscos do sonho na mala, calçou uns chinelos com um símbolo de um clube de futebol e sem olhar para trás, saiu de casa. Quando a porta se fechou, apenas ficou ligado o candeeiro que reflectia uma luz escura em estranhos propósitos de vazio.

Noite abaixo rua acima. Caminhou em silêncio durante alguns minutos. Posteriormente entrou na estação do Metropolitano do Saldanha. Perto de vinte pessoas compunham uma mancha cinzenta de transeuntes que deambulavam sem destino, como se fossem residentes eternos daquela colmeia subterrânea. Passou pelo meio da mancha derrubando um casal que se beijava cegamente no centro do átrio. Todos os outros transeuntes afastaram-se, enquanto o casal ficou espantado com a figura que os abalroara. Um homem de meia-idade despenteado, mais, com pijama e roube vestido, mais, com uma mala preta na mão, mais? Mais nada. Na melhor das hipóteses tratava-se de um doido fugido de uma casa de repouso; na pior das hipóteses, um bombista suicida que resolvera fazer-se explodir no Metropolitano. No fundo, a loucura e o heroísmo são tudo a mesma coisa. Talvez por isso, os namorados desatassem a correr, obedecendo ao chamamento da paixão e à voz do medo. Só a sobrevivência da espécie conduz a actos tão heróicos, pensariam os amantes. Ao ver o casal fugir, ele não pediu desculpa, não teve tempo para isso e prosseguiu viajem.

Junto da gare evitou os olhares dos curiosos. Um homem patibular caminhava de pernas arqueadas, com uma ínfima boina cinzenta a ornamentar a sua desproporcional cabeça, de onde sobressaíam enormes suíças farfalhudas e um nariz adunco. O homem patibular aproximou-se da máquina automática de bebidas, e espetou-lhe duas valentes cabeçadas no vidro, coçou os testículos, arrotou e uma garrafa de água caiu. Do outro lado da linha, uma menina da tuna universitária de totós apanhados com laçarotes amarelos, levantava a saia mostrando a sua roupa interior ao mesmo tempo que simulava, com gritinhos enervantes, uma queda triunfal na linha electrificada.

E ouviu-se um aviso sonoro:
" Atenção ao intervalo entre o cais e o comboio!"

Num banco, a um canto, um rapazola enrolava um charro que acendeu demoradamente, e de seguida abriu uma lata de cerveja. O rapaz cortou a língua ou o lábio, não interessa, o sangue era mais que muito e vertia-lhe da boca numa pasta vermelha. Uma senhora sexagenária aproximou-se e beijou o rapaz nas beiças ensanguentadas, depois de se separem as bocas, a senhora ofereceu amavelmente um lenço branco para que ele limpasse o sangue que ainda pingava abundantemente. O rapaz, incrédulo, olhou para a sexagenária e esta começou a pinchar como uma gaiata apaixonada. Era vê-la aos pulinhos, como se estivesse a jogar à macaca. Sabem como é? Saltar no chão, só com um pé, em 4X2x1 e...

E outro aviso sonoro suou:

"Informamos os nossos clientes que é proibido fumar em toda a rede do metro" 

Ora, depois do que foi visto nesta estação, ninguém iria levar a mal que ele estivesse vestido de roupão, pijama e chinelos, já para não falar da sua mala preta que poderia levantar algumas suspeitas. Ele pensou: 



" Esta mala bem que podia conter uma bomba que fizesse esta gente ir pelos ares. Era da maneira que se acabava de uma vez por todas com os loucos e extinguiam-se os heróis".

Sorriu e sentenciou qualquer observação persecutória, rematando:

"O que não falta para aí são malucos ostentando o seu novo pijaminha e o seu mais recente penico electrónico!"
Sentou-se num banco vazio à espera do próximo comboio enquanto ia remoendo o sonho que o obrigou a abandonar o conforto do lar. Volvidos poucos instantes, dos túneis subterrâneos chegou o transporte larvar-metálico, antecedido por um rugido feroz proveniente das entranhas da terra. Hesitou um pouco mas entrou no comboio no momento exacto. Seguiram-se dois apitos agudos e as portas fecharam-se com estrondo. Do lado de fora da carruagem os transeuntes protestavam por não conseguirem entrar. Reparou na expressão de espanto e revolta que essas pessoas manifestavam num simples esgar. Nos seus gestos de indignação. No fio de espera a que ficaram suspensas. Nas suas bocas inconclusas e nas palavras que podiam originar. No caleidoscópio de imagens e reencontros adiados. Do mal o menos, esperariam apenas 10 minutos pelo próximo comboio. O que são 10 minutos no meio de uma vida toda? Afinal podia ser pior. Como tudo, na vida toda, fica sempre alguém de fora.

Olhou em redor. Com uma mão agarrou-se ao varão situado no centro do vestíbulo e prendeu a mala entre as pernas. A carruagem estava quase deserta, apenas habitada por um cego que ia trauteando uma lengalenga, varrendo percurso com a sua vareta de metal. Quando o cego se aproximou ele desviou-se e fechou os olhos com força e em comunhão com o escuro. Um minuto e doze segundos depois, ouviu-se uma voz feminina, a alma da carruagem indicou:

"Próxima estação Picoas”

Voltou a abrir os olhos. Algo mudara. O cego desaparecera e no fundo da carruagem, quatro misteriosas criaturas estavam sentadas num banco. Estranhamente rodaram o pescoço na sua direcção, como se estivessem a olhar para ele mas sem o verem, como se quisessem falar mas sem terem boca para tal despesa. Quatro criaturas vestidas de castanho, amarradas na sua quietude bizarra, contemplavam-no como se não tivessem nada melhor para fazer, apenas existir, de vez em quando.

Incrédulo aproximou-se. Assim, à primeira vista podia tratar-se de uma alucinação, uma percepção errónea da realidade. Ou não tanto. Aquelas criaturas existiam, ocupavam espaço. Pior que isso, estavam completamente fora do contexto, muito por culpa da sua aparência de corda. Apresentavam o rosto enrolado em cordel e os pulsos e os pés atados em fio nylon, autênticos seres mumificados reclamando por atenção, contorciam-se atabalhoadamente, esforçando-se por imitar uma expressão qualquer. Ele afastou-se, pouco depois, as criaturas desapareceram e a carruagem ficou deserta. Mas não durante muito tempo. Elas voltaram a aparecer sentadas noutro banco mais à frente e assim sucessivamente, num jogo de cabra-cega constante. Confuso, retirou da mala preta as folhas que leu rapidamente, tentando obter respostas no imenso subterrâneo da memória. Atabalhoadamente tirou a lupa e com uma pinça entalou dedo, sentiu uma leve dor e um suave arrepio tão comuns à fria realidade. De imediato, apontou o olhar na direcção das criaturas e olhou pela lente. Para seu espanto, por intermédio da lupa as criaturas eram pessoas perfeitamente normais, sem a lente voltavam ao seu estado de atavio e cordel, tal e qual como no sonho. Entretanto a alma da carruagem comunicou:

"Próxima estação Marquês de Pombal”



Saiu do comboio e deixou-se levar pela escada rolante. As câmaras de vigilância do metropolitano seguiam-no ou pelo menos ficou com essa percepção. Enquanto fazia o trajecto de ascensão, seis indivíduos disformes, presos entre si com uma corda atada à cabeça, desciam apressados pela escadaria. À lupa não passavam de pessoas perfeitamente comuns (não, não existem) que olhavam para ele intrigadas e com exclamação. No patamar cimeiro da estação do Marquês de Pombal parou e olhou para baixo. Não sentiu vertigens, nem tonturas, porém descobriu o que fazer com o novelo que transportava. E assim, abriu a mala, desenrolou a ponta do fio de cordel e prendeu-o com dois nós ao fecho-ecler que servia de divisória no interior da maleta, depois, atou a outra ponta à engrenagem mecânica das escadas, junto do botão de stop que servia para isso mesmo, parar a subida ou descida dos patamares metálicos. Começou a andar, confiante, de passada larga. Da mala saia um rasto que se ia propagando a cada passo. Não tinha medo de se perder nos corredores da estação do metropolitano, mas também não queria libertar-se do seu sonho.

Cinquenta metros de cordel é muito cordel mas nunca é demais. Contudo, o novelo não tinha mais para dar, e num esticão a mala saltou-lhe da mão. Ficou parado a olhar para a mala preta de executivo, a estrebuchar no meio da passadeira rolante, como um peixe acabadinho de pescar. 


Libertou a corda do fecho-ecler e fechou a mala, deixando-se levar de costas pela engrenagem que o fazia caminhar sem se mover. Foi então que reparou que em cima da passadeira, mas em sentido contrário, uma bailarina vestida de negro dançava, esculpindo o ar com movimentos graciosos. Ela bailava como se o corpo se fosse partir em dois, num parto de alma e músculo, na elegância típica das nuvens e daqueles que conseguem pairar indeléveis sobre o temporal. A bailarina nunca saiu do estrado da passadeira rolante, contrariando o fim da linha sempre que este se aproximava. E recomeçava a dançar numa coreografia infinita mas em sentido contrário ao movimento rolante da passadeira. Ela existia naquele passadiço e tudo resto limita-se a observar. Ante aquele espectáculo improvável numa estação do Metropolitano, também ele deixou-se ir de costas, até que... O seu calcanhar avisou-o do final da linha, a língua móvel de metal que o transportara tinha terminado. Avançou dez metros e alguns segundos mais à frente, encontrou um pequeno café com uma esplanada no meio. Sentou-se numa cadeira vermelha perto de uma mesa branca com varias chávenas ainda sujas de borra e açúcar derretido. A esplanada era um deserto, e ele sedento por respostas, o seu mandatário. Ninguém o ouvia e ele gritou:

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