domingo, 12 de dezembro de 2010

da minha janela





um mundo secreto e pequenino debruça-se nos estendais da minha janela
as vizinhas incógnitas de rolos na cabeça e roupão cor-de-rosa descortinam novidades,
dos muitos carros de vidros embaciados que albergam namoricos proibidos,
das luzes das escadas que ficam acesas  toda noite,
das portas que se fecham com estrondo, 
quem entra e quem sai? nada lhes escapa por detrás do olho de boi ou da persiana.

da minha janela vejo uma escola tão velha mas muito mais nova que eu
o que me faz pensar nos danos que o tempo faz às paredes das casas e aos ossos da memória
de manhã é uma gritaria pegada entre mochilas e apalpões secundados por olhares traquinas
a caminho da escola tudo se aprende ao ritmo de um novo dicionário. 

da minha janela, quando chove é assim, quando faz sol só me apetece fugir
não para a praia! toda a gente morre na praia pelo menos uma vez na vida,
apetece-me fugir para onde não haja luz nem olhos de açúcar
fecho os estores e rezo para que o tempo morra mais depressa que a expectativa.

da minha janela quase vejo o mar e a mão esquerda do Cristo Rei
o que torna a pequenez um acto grandioso de tão imaginativo
vejo a dona Noémia  e o seu filho que trabalha na morgue
o senhor David e a filha que trabalha no talho do supermercado e...

pela forma como se cumprimentam creio que já dormiram na mesma cama
os quatro corpos iluminados à luz de velas numa orgia ensanguentada pelo cutelo
credo!
isto sou eu a pensar, isto sou a ser coscuvilheiro, isto sou eu a ser vizinho
também posso, de vez em quanto, quando me dá na telha!
mas fiquem descansados...
acho que não me conhecem o que torna as coisas bem mais simples
e assim não desperdiço um bom dia.

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