terça-feira, 21 de dezembro de 2010

Monólogo da Espera - 3º acto -




3º acto
(o arrependimento às vezes é escrito a sorrir)


E com isto...
Que horas são?
Daqui a pouco a estação de metro vai encerrar e com ela todas as portas, todas as esplanadas, todas as sombras e todos os barulhos nocturnos, tudo se vai apagar no mundo subterrâneo da memória.
E depois...
Estou...
Preso no labirinto destes túneis onde nada me servirá porque eternamente tudo me sobeja.
Ficarei.
Sem medo ou rumor de falhar mas antes…
Falham-me as ideias e creio que só possuo apenas o que já perdi.
O meu relógio é tanto meu como os meus sapatos, apenas me servem por instantes.
Ou as mãos, os pés, ou a boca.
Tudo o que tenho é uma folha em branco, onde uma janela pode ser descoberta.
Enquanto isso a Raptora dos Sonhos, apodera-se da memória preliminar e fica com ela para que andemos às cabeçadas às paredes.

Ah, como eu queria recordar-me daquele sonho!
Uma queda eterna e eu a berrar como um desalmado.
Aquela queda que me diziam, motivada por estar a crescer, nunca acreditei nisso.
Muito sonhei eu com quedas e não cresci por aí além.
Eu a berrar a gritar! Assim:

O arrependimento às vezes é escrito a sorrir!


É certo que a desilusão pode ser maior e o desengano tamanho, mas não foi assim que nos ensinaram a viver?

Quando a Raptora dos Sonhos chegar, vou arrancar-lhe os sonhos. Um a um. Deste, daquele e do outro. Isto porque não sou invejoso, nem presunçoso, nem valentão, ou alarve.
Não guardo para mim a derrota colectiva ou a vitória solitária.
Se tivermos que cair numa orgia de sonho...
Cairemos todos.
Será mais interessante rebolar em conjunto do que uma cambalhota solitária.
Não acham?

Já estou a imaginar:
Toda a malta a recordar o que sonhara e antecipar a sua concretização.
Mais ou menos assim:


Eh pá eu ontem sonhei que era aumentado e que a minha chefe disse-me que eu era um gajo porreiro, competente, bem parecido e tal, e não é que...
Não é que?
Nada disto aconteceu.
Pus-me a salivar, à frente dela, à espera do momento da consagração:

  • chefa, chefinha...
  • sim...
  • chefa, chefinha... venha cá, chegue-se aqui!
  • mas... que modos são esses? o que se passa consigo?
  • nada... ou melhor dizendo, estou feliz. sabe eu hoje sonhei consigo... não tem nada para me dizer?
  • sonhou comigo? mas o que vem a ser isto?
  • sonhei que tinha algo de muito, muito importante para me comunicar. diga lá...
  • digo lá, o quê?
  • aquilo...
  • aquilo?
  • do au...
  • o au?
  • sim.
  • do aument...
  • do aument?
  • homem, esteja quieto! saia de cima de mim. você deve estar doido!

E pronto.
Instaurou um inquérito disciplinar, alegando assédio, quando afinal, só manchei de baba a manga da camisa e o decote provocador. Ela não gostou da ideia da proximidade. É certo, quase a engolia com os olhos, estava apenas a cinco centímetros do seu nariz, peludo por sinal. Foi uma desilusão. E quanto ao inquérito disciplinar? Creio que não era caso para tanto!




E tu, conta lá o que sonhaste?
Olha...
Eu sonhei que me envolvia com uma rapariga daquelas do tipo da Playboy, num bairro escuro, ali para os lados do Sol Oposto.
E então?
E então... Fui lá ver se ela lá estava e...
E?
E...
Nada.
Nada?
Não estava lá rapariga nenhuma.
Fui antes comido por parvo, por um bando de criminosos, que para além de serem criminosos, eram tarados, e não me roubaram porque...
Porque?
Não tinha dinheiro nenhum comigo.
Tinha apostado toda a massa na chave do euro milhões.
Sonhei com uma sequência de números, desatei apostar compulsivamente, mais tarde reparei que aquela sequência de números, era afinal o número do teu telemóvel.
Que cena. Foi por isso que me ligaste ontem à noite?
Sim, foi.
Continuando, fiquei com a conta a arder, com a conta e não só!
Os ladrões tarados queriam... Bem...queriam, era o que faltava, empurrar o meu cocó para dentro e fazer outras coisas que nem me passava pela cabeça fazer com a rapariga da Playboy.

Escapaste de boa.
Mais menos. Olha...
Sim?
Tenho uma coisa para te dizer.
Então diz.
Eu sonhei no teu sonho.
Não pode ser. Eu sonhei o teu sonho.
Não sejas parvo.
Tu?
Não...
Eu…
...

Adiante. Interrompemos este triste diálogo para comunicar que:

Estes são só alguns exemplos do que seria o mundo na eterna especulação do real se nos lembrássemos do que sonhámos na íntegra. Tim tim por tim tim.

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