terça-feira, 21 de dezembro de 2010

Monólogo da Espera - 2º acto -


2º Acto
(pouco me importa o desalento dos outros)





Não há noite!
A noite não nos pertence!
Quando nela viajamos apenas atravessamos uma membrana escura, às apalpadelas, num total desconhecimento pelo contorno das suas sombras.
Realmente não vivemos a noite, ela é que vive por nós. Soberana. Sem desculpas, faz com que os sonhadores pareçam esperançosos sonâmbulos na busca por se encontrarem.

Meus amigos...
Fomos todos sonhados!


Quanto a mim... Eu sonhei que…
Por que razão não me lembro de mais pormenores?
Se ao menos conseguisse lembrar-me de mais alguma coisa.
Recordo-me apenas de alguns detalhes do sonho.
Uma lupa, um novelo de cordel, uma mala preta.
Um átrio de uma estação do metro com uma esplanada no meio.
Creio que se tratava da estação do Marquês de Pombal mas podia ser outra estação qualquer.
E uma mulher...
Essa mulher disse-me para eu esperar por ela aqui, pois seria desvendado o mistério pelo qual, recordamos apenas de alguns factos do sonho e não o sonho na íntegra.
Mais concretamente, a mulher do meu sonho dizia assim:




 "Inspira o ar e espera por acção, irei revelar-te o segredo dos sonhos.”

Lembro-me destas partes do sonho, porque escrevi todos os pormenores que consegui reter, nestes papéis que trago comigo.

Cá estou eu.
É estranho este lugar onde tempo não ocupa lugar, apenas esgota-se no vazio, lambendo a aresta de coisa nenhuma.
É pelo meu sonho que espero!

Entretanto, por aqui passam pessoas improváveis, nocturnas e apressadas, olham para mim com desconfiança e é bem provável que pensem:
"O que fará um tipo a estas horas, de pijama, robe e pantufas do Futebol Clube os Belenenses, sentado na esplanada do café, a olhar para nós com uma lupa como se fossemos objectos estranhos?”

Que se lixem!
Estas criaturas seguem o alegre caminho das suas vidinhas, num lastro incógnito, numa chusma cinzenta de apreensão. Dirigem-se para casa, para o trabalho, para o hotel, para o raio que as parta!
Chispem daqui!
Que eu..,.
Não acredito no quentinho entre quatro paredes, nem no aconchego do lar!
Pelo contrário, continuo a acreditar que as casas deviam situar-se no topo das árvores, e as camas das casas, por cima dos telhados das casas, em cima das árvores, no ramo mais alto. Assim, depois da queda do sonho, sempre podíamos colher os estilhaços dos sonhos que ficassem retidos nas ramagens.
Era tão bom apanhar os sonhos das árvores como se fossem cartas de amor moribundas.
Ah! Era tão fácil apagar o interruptor do dia quando existe sempre algo que se pode desligar!

Sim, é contigo que estou a falar.
Estas criaturas enervantes continuam a passar e não se escusam de olhar.

Pouco me importa o desalento dos outros!

Nunca esperaram alguém mesmo não sabendo por quem esperavam?
Nunca seguiram um sonho?
Respondam.
Meus amigos oiçam o que vos digo.

Fomos todos Sonhados!

Tecnicamente, psicologicamente, morfologicamente, “raios-partam-a-mente” falando do que sente, apenas é possível recordar durante poucos minutos o que sonhámos numa fracção de segundos!
Como se fosse algo...
Algo que se transferisse para o mundo das ideias e ficasse acessível, durante escassos instantes, às mãos do fazer.

E o que fazemos com os sonhos?
Bem...
Lembro-me de um Natal em casa dos meus pais, a minha mãe fazia bolinhos, doces sonhos, eu reclamava por atenção, e enquanto não obtinha o que queria, rebentava de punho fechado com os bolinhos recém-amassados e depois...
Anos mais tarde, deu no que deu...
Sonhos só no Natal, fora disso, torna-se perigoso andar ao murro aos sonhadores.

Eu não me lembro do que comi ontem, quanto mais do que sonhei hoje!

Já dizia, Freud e Jung, enquanto dormimos, o R.E.M (rápido movimentos dos olhos) mantém o estado de vigília necessário para processar uma acendalha de informação. Mesmo a dormir o cérebro está a carburar. E muito. Não assegura apenas os serviços mínimos. Imaginem um programa nocturno de rádio, na sessão de discos pedidos que ocorre durante o sonho, o disco riscado “sexo” e o disco obliterado “morte” são os mais solicitados. Não me espanta que assim seja, sempre gostámos da inevitabilidade da criação.
E mais...
12% da população sonha a preto e branco os restantes sonham a cores!
Porque não haveremos todos nós de sonhar a cores? Discriminação!


Vamos lá ver uma coisa...
E se a interpretação que faço do meu sonho estiver certa?
A culpada por olvidarmos grande parte do que sonhámos seria uma...
Raptora dos Sonhos?
Sim! Ouviram bem!
Eu disse, Raptora dos Sonhos. Mas podia ser outro nome qualquer.
Os nomes são tão vulgares, repetidos tantas vezes, até chateia!
Madalena? Não. Maria? Não. Açucena? Não. Raptora dos Sonhos? Sim!
Porque afinal, é o que ela é. Uma raptora dos sonhos. Dos meus sonhos, dos teus, daquele e do outro.
Ladra? Nem pensar. Ela apenas mantém refém os nossos sonhos durante umas horinhas. Depois liberta-os e fica um agradável cheirinho do que seria o sonho se fosse realidade. Mas só durante um bocadinho. Depois esvai-se. Foi um ar que lhe deu.
É preciso deixar bem claro que a Raptora dos Sonhos está acima de qualquer suspeita, é uma entidade idónea, quase divina, controladora e mentora de um esquecimento colectivo, contudo boa pessoa.
Raptora dos Sonhos… é bem.

Se alguém tiver outra explicação melhor, que diga.

É por ela que espero esta noite!
A minha Raptora dos Sonhos. A responsável por lembrarmo-nos apenas de alguns vidrinhos do espelho quebrado do sonho.
Que é como quem diz, a mentora do magnífico plano que nos faz esquecer;


Cores
Sabores
Odores
Pele
Reticencias
Intermitências
Virgulas
Ponto final do sonho.

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