domingo, 2 de fevereiro de 2014

Um chá com Nadish






Do outro lado chove torrencialmente.
Porém, eu espero por Nadish na praia onde nunca chove nem nunca choverá.
O tempo passa pela curva da nuvem quando a vejo chegar.
A sorrir.
Traz um vestido laranja molhado, quase transparente,
onde sobressai um corpo branco, tingido pela cal de tantas casas que habitou sem saber.
Caminha descalça, sandálias na mão e com o cabelo a escorrer uma melodia de assobio.
Breve.

De onde vem Nadish, não pára de chover lágrimas da terra. 
Mas quando pisa o areal da praia onde nunca choveu e jamais choverá,
a sua pele fica seca e o sorriso transforma-se em pétalas de sol;
o seu vestido está agora seco e pronto para voar - impermeável a qualquer queda.
Estou contente por Nadish estar nesta praia, longe de todas as praias com nome ou direcção,
aqui o horizonte navega para cima e para baixo em horas de corpo quente,
equilibrando navios piratas,
de doce desejo pela conquista daqueles que vêm da terra onde chove...
Lamentos.

Nadish aproxima-se.
Sirvo-lhe um chá com nuvens de sonho e pequenas perpétuas roxas.
Não gastamos palavras. Para comunicar usamos gestos tímidos que desenhamos no ar.
Esses gestos perfazem símbolos que duram horas e em alguns casos anos sem tempo.
O rasto branco do que quisemos dizer fica ainda a levitar em órbita com o nosso nariz.
Rimos.
À nossa frente, o cenário é frágil mas as nossas mãos não tremem e os olhos não sabem mentir.
Ao longe toca um sino; doze vezes creio eu.
Depois, vem o silêncio e bebemos o tempo que ainda falta para amanhecer verão.

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