quinta-feira, 30 de janeiro de 2014

Boa companhia






Oiço um chamamento clandestino a ecoar pela casa. 

mais um passo e entro na câmara escura do quarto, 

onde um animal fêmea queima os lençóis de prazer; 

os seus longos dedos percorrem o interior das ancas num desejo eléctrico, 

a acção decorre em camara lenta e os membros não parecem ter fim, 

nem a massa corporal alguma vez terá principio reconhecível. 


Não consigo identificar aquele corpo, 

contudo, vejo as suas longas mãos a untarem as pernas com óleo de oiro 

para depois subirem pelo rebordo burilado do umbigo 

até à margem lateral do pequeno seio; 

estético e bem feito, tal e qual a morfologia do que parece ser 

um esboço fêmea desenhado no pó que voa, 

dou mais dois passos e aproximo-me. 


O ar rarefeito do quarto liberta o gemido das madeiras velhas, 

na mesa-de-cabeceira antiga repousa uma garrafa e dois copos, 

o animal fêmea vê-me encostado à porta e convida-me 

com gesto rápido, à junção das bocas num beijo de absinto; 

quando me sente próximo da cama, redopia duas vezes no seu ninho, 

eu avanço. 


No quarto está escuro, porém, mais escuro está dentro de mim. 

tento o interceptar o prolongamento dos afectos que me são dirigidos 

do animal fêmea apenas vejo o contorno dos lábios molhados, 

e a electricidade que se prende aos cabelos 

tudo isto faz parecer… um momento mulher. 


Dou um último passo e quando tento esquecer-me onde estou e porque vim,

ao apagar a luz o interruptor eléctrico morde-me,

o fundo de um copo vazio nunca foi boa companhia.

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