segunda-feira, 20 de janeiro de 2014

Coruja-do-mato (Strix aluco)


Estávamos em Agosto quando iniciámos uma viagem até à Reserva Natural do Estuário do Tejo, mais concretamente - Herdade de Pancas. O objectivo estava traçado: fotografar o Noitibó-de-nuca-vermelha (Caprimulgus ruficollis).

Os relógios marcavam poucos minutos depois das 21 horas. Por sua vez, os 16 º que se faziam sentir não anunciavam uma noite particularmente quente, ao mesmo tempo, a brisa fresca que soprava não deixava os insectos visivelmente activos. Segundo indicações facultadas pelos nossos amigos estávamos no local certo. Sem mais demoras iniciámos o trajecto pelos trilhos onde já tinham sido avistados os bichos. Os noitibós caçam insectos em voo, e permanecem poisados preferencialmente no solo, passando despercebidos devido a sua perfeita camuflagem. Sabendo disto, seguimos com muita atenção, a olhar para berma, percorremos a estrada de terra batida durante vários quilómetros. Na ânsia de os encontrar, confundimos a ave com pinhas e pedras. Todavia, depois de duas horas a conduzir em marcha lenta, a estrada tinha adquirido uma estranha aparência repetitiva e por vezes fantasmagórica. Das árvores altas fugiam esboços de sombras que iludiam os nossos sentidos. E nada de Noitibós. Com os olhos cansados de tantos enganos e já com alguma frustração nas palavras e nos silêncios intermédios, decidimos fazer uma última volta. Passámos perto de uma estrutura de rega e foi nesse momento que a noite coroou-se de boaventura. Para nossa surpresa levantou voo uma outra visitante nocturna, inicialmente não foi possível identificar que ave seria, mas depois de poisar num poste, não restaram dúvidas - era uma Coruja-do-mato (Strix aluco)


A ave não aparentou estar assustada, pelo seu comportamento, voava de poste em poste para depois voltar ao ponto de partida, presumivelmente estaria a caçar. Minutos depois, foi curioso verificar que outra coruja aproximou-se e poisou num poste mais à frente. Nós seguimos com cuidado e observámos este magnífico predador no seu trono nocturno. Porque o que vem da noite será sempre soberano, para fazer algumas fotografias, respeitámos a distância e o território do animal.

Assim é a vida; feita de escolhas, oportunidades e momentos certos. Com todas estas emoções esquecemos os noitibós, não fosse a coruja-do-mato lembrar-nos desta experiência única, quase diria: que saudades tenho eu do luar de verão!  


E os seus chamamentos?
Quando a noite acordou com o arrepio de um grito trémulo, até o medo teve medo dele próprio.


A coruja-do-mato é predador nocturno. Alimenta-se de pequenos roedores e insectos, nidifica em orifícios de árvores de folha caduca. É uma ave muito territorial e zela pelas suas crias de forma agressiva, não permitindo aproximação de intrusos. 


Um episódio verídico de um homem ainda com medo

Sobranceiros, às vezes, confiamos em demasia nos instrumentos humanos. Porém, a natureza rege-se por desígnios insondáveis, onde a lei do mais forte estabelece o ritmo e a força do instinto animal. 

Que o diga o homem, quando num trabalho de orientação cientifica, preparava-se para anilhar juvenis de coruja-do-mato que estavam dentro de uma caixa ninho. O homem não deu pelo regresso de um dos progenitores. E foi nesse momento que uma coruja atacou-o de costas, impiedosa, ao crivar as garras nas orelhas, rasgando-as de forma sumária e sanguinária. Depois foi vermelho sangue em queda e medo. Por certo, o homem não pode criticar a ave que zelou pela segurança do seu ninho. Tal como ele o faria se sentisse ameaçado.


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