sexta-feira, 18 de janeiro de 2013

Ainda de madrugada


sinto um animal vazio a espernear na cama;
ao acender a luz acalmo o torso rebelde dos lençóis,
o candeeiro projeta sombras disformes dos seres que abandonaram os livros de cabeceira,
no canto do quarto, em cima da cadeira manca de um pé,
vejo a dança feliz da roupa que despeja o corpo da sua morada,
mais à frente, dentro da boca do guarda-fatos,


os cabides pendurados ostentam as fragilidades dos tecidos por usar
e por baixo, as gavetas lacradas em pó de alma sussurram nomes por abrir.

ainda de madrugada sento-me na cama e pergunto; "o que faço aqui? "
para depois caminhar descalço por uma casa que começa e termina num corredor,
palmilho as paredes onde mãos de cal fazem-me sentir o frio da urgência
“tenho que sair o quando antes, senão ainda acabo como eles!”
“corpo-casa-corpo”
arrasto-me até a extremidade mais distante deste casulo,
onde habito, às vezes, tantas outras vidas fora de mim,
num ato rápido recorro a uma mortalha liquida para incentivar a lucidez,
a torneira principia um dialogo que termina no espelho em bofetadas de água;
“casa-corpo-casa”
a lâmina de barbear corta a pele
e só assim consigo terminar"-me" por hoje
o que ontem comecei.






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