domingo, 28 de dezembro de 2025

De volta a 1946

 

Minha Mãe, ontem fazias 79 anos

hoje faz 79 anos que foste registada.

em 1946 o mundo era outro,

menos a conjugação da saudade e do amor.

 

Ontem fui ao cemitério mesmo sabendo que não querias.

trago a garganta atada ao somatório dos dias sem ti,

no cemitério encontrei poucos caminhantes,

pouparam-me o embaraço deste lacrimoso andar.

 

Mesmo assim, desejei um bom ano a duas senhoras

habituadas ao local e às lides dos mortos,

o tempo desafazia-se em gestos incompletos, cinzentos,

o sibilar das aves obrigava-me a olhar para cima, diz-se céu!

 

Como todos os anos, ofereci-te duas rosas.

custa-me não ouvir: "são bonitas!"

De resto, nada de novo, dizem que o Natal já passou,

será por isso que as camisas debotaram luto e a pele sangrou rugas?



quarta-feira, 24 de dezembro de 2025

O Natal também é para orfãos

 

Luto filho da Mãe! Agradeço, mas não aceito convites passar a consoada com ninguém. Durante mais de cinquenta anos celebrei esta época pela minha Mãe, pelo meu Pai, pelo nascimento do menino Jesus. A nossa união. Na nossa pequena casa, tão humilde quanto acolhedora. Éramos um presépio vivo cheio de imperfeições e disfunções familiares O meu Pai era carpinteiro e gostava das luzinhas coloridas que enfeitavam a árvore e a mesa com filhoses e rabanadas brilhantes. Adormecia sereno a olhar para a televisão. A minha Mãe era funcionária pública sempre atarefada na cozinha, de volta das couves e do bacalhau, punha a mesa e arrumava o que eu desarrumava. De manhã trocávamos beijos em forma de presentes. O tempo não volta a ter o mesmo sabor.

Hoje não estou sozinho. Para além dos periquitos e das plantas, tenho a companhia dos espíritos que habitam todo este espaço divisível.  Este é o segundo ano que passo sem os meus pais. Fisicamente, falando, pois sinto que me sussurram ao ouvido palavras quentes e raspanetes protectores. Um arrepio na pele de quem nos passa a mão pela nossa falésia.

Cá em casa não há embrulhos coloridos prestes a rebentar de curiosidade. Ou melhor, recebi o melhor presente possível por parte da médica de família - saúde temporária em formato de comprimidos para a doença crónica de estar vivo. Não há presépio ou árvore de plástico com luzes irrequietas, fitas multicolores e um estrela sempre torta no topo. Tenho que reaprender a gostar desta época. Talvez para o ano frequente um curso no Christmas Institute. Acredito em Jesus.  Tenho fé, mas desconfio de muitos Homens.

O menino Jesus de barro trabalhou todo o ano para se exibir belo e sem falhas na pintura, juntamento com os outros elementos do presépio, na esperança de ocuparem, em cima da mesa da sala, o topo do nosso mundo. O mundo é liderado por fazedores de guerras e eu já não tenho mesa da sala onde possa sentar amigos arrependidos. Peço desculpa às figurinhas de barro, porém não tive coragem para vos libertar do escuro desse caixote empoeirado. O mundo é um lugar cada vez mais sombrio e em rota de colisão com o umbigo dos senhores da guerra. Contudo, tenho fé no brilho da manhã. Beijo um crucifixo que trago ao pescoço e procuro um suspiro em forma de parágrafo de esperança.

Ainda bem que estou a trabalhar no dia de Natal. Já vos tinha dito que trabalho por turnos. Não é mau de todo. Evito algumas estirpes de virus disfarçados de humanos. Em casa também fico doente mas isso é outra queda.

Com o computador na mão percorro uma avenida deserta dentro do meu casulo. Busco um local com luz natural. A janela grande da sala será o meu escritório, o meu espaço aberto para o mundo. Não oiço o barulho enervante dos vizinhos do andar de cima. Foram para a terra. Lá fora, procuro pessoas para inventar histórias piores que as minhas. Não vejo ninguém a passear o cão e entretenho-me com os pássaros que voam no jardim. Os melros continuam a não saber o que é o Natal e não é por isso que não são felizes no seu luto. 

Depois do dia de Reis, a minha Mãe embrulhava em papel de jornal os bonecos do presépio, a árvore de Natal, e colocava tudo dentro de um caixote de cartão na despensa. Até para o ano "natalinos"! A caixote nunca mais foi aberto. Sempre que olho para ele crescem-me os braços e o chão torna-se instável e madrugador. 


A mão da costureira

 


E se as agulhas ganhassem vida...

agora o dedal procura o seu confessor,

a cabeça do alfinete arde de saudade,

por lábios molhados que a segurem.

 

as baínhas das calças sem pernas de andor

os novelos desfiados enrolados em gatos tesoura,

imaginários, como a cor de uma sombra perdida,

"uns pontinhos no pijama velho - e dura mais um ano!"

 

aquele elástico-memória sempre branco demais

os botões casamenteiros das camisas que procuram casa,

dentro da caixa de sonhos por reparar,

anseiam pela mão de costureira íngreme até ao fim.



quarta-feira, 12 de novembro de 2025

Lagoa de Melides



No regaço da lagoa existe um ilhéu

com o agitar da ladainha ao vento suão

voam aves pela memória do céu

amansando águas num arrepio de mão


Pela força do arroz crescem novenas

e quando à lagoa chega o barqueiro

as moças destas terras morenas

voam pelas dunas num feitiço matreiro

 

Na vida tudo passa nada fica 

pela lagoa tudo voa e edifica

como se fosse este amor o primeiro.






terça-feira, 11 de novembro de 2025

Oftalmologista

 

Naquele tempo onde pouco era suficiente

fomos ao oftalmologista, eu não percebia,

quando chegámos a casa, sentado no sofá,

tapavas-me a vista direita e eu não entendia.


Porque me pedias para contar

quantos dedos a tua mão acenava de lonjura?

uma massa disforme baloiçava no nevoeiro vivo,

num vislumbre sombrio, eu não percebia....


Porque choravas perante a minha cegueira,

se me bastava o tacto do olho direito

para te sentir tão inteiramente bonita,

Sempre foste Mãe!

segunda-feira, 3 de novembro de 2025

O caminho desobediente

 


Camisa preta em cima da cama,

calças escuras engomadas,

corpo lavado em água tépida,

e barba escanhoada.


as roupas ajustam-se à pele,

os músculos procuram sustento,

na luz que faz as borboletas voar, 

de gesto perfumado, quase me apetece rir!


saiu de casa com encontro marcado

compro um ramo de rosas vermelhas,

o carro conduz-se pelos soluços da velocidade;

chego ao local combinado: está sol, o ar é negro.


sei que não me querias a caminho do cemitério,

mas que remédio tenho eu senão desobedecer? 

estou aqui, quase transparente, de boca seca,

falo contigo neste domingo de desencontrados. 





sexta-feira, 17 de outubro de 2025

Monte Santo - Uma viagem pelo parque florestal de Monsanto



Depois de 13 anos de fotografia e filmagens da biodiversidade do Parque Florestal de Monsanto, fui convidado a fazer parte da equipa que agora apresenta o documentário "Monte Santo - Viagem ao Parque Florestal de Monsanto". 

Estreia na SIC,  no próximo domingo, dia 19 de outubro, pelas 12:00. 

Estou grato por esta oportunidade, pois foi um orgulho trabalhar com esta equipa, ao mesmo tempo, um marco impactante nesta vida de constante aprendizagem. Aqui fica o convite para conhecer e respeitar o pulmão verde da cidade Lisboa e os seus curiosos habitantes.




De volta a 1946

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