quarta-feira, 9 de novembro de 2016

Borboleta-caveira e o terço




O céu gritava sentenças de chuva enquanto deslocava-me para mais uma consulta de rotina. Por entre as árvores que cercavam o caminho observei um estranho pássaro num voo desengonçado, culminando numa aparatosa queda. Aproximei-me do bicho que repousava por entre as folhas outonais e verifiquei que estava enganado na identificação do errante voador, pois a borboleta-caveira (Acheronthia atropos) nada tinha de passeriforme na sua fisionomia. Pequei no insecto e tirei algumas fotografias de onde sobressaia a sugestão ilusória de uma caveira desenhada no dorso. Com este inesperado encontro, o tempo tinha voado. Com cuidado deixei o animal abrigado numa concavidade entre dois troncos de uma árvore e apressei-me para o consultório. Uma hora depois, da consulta resultaram exames e mais exames, nada que não tivesse à espera. Antes de ir para casa, regressei à árvore onde tinha deixado a borboleta. Ela lá estava, porém, infelizmente, já sem vida. Restou-me o desejo, de que durante  as suas viagens, tivesse deixando espaço genético para outras surpresas voadoras. 

No outro dia festejava-se o feriado de Todos os Santos e eu sai de casa para o trabalho ainda o sol não tinha nascido. Quando cheguei à estação do metro encontrei a gare abandonada e no meio de sombras e escadas rolantes avariadas, ecoavam passos sem passageiros, tal como sombras sem ânimo. Por fim chegou o comboio, as portas abriram-se e quando entrei, num voo pendular, algo raspou ao de leve no meu rosto. O quer que fosse que me tivesse atingido, era de recorte fino e emanava um brilho rápido. Olhei para trás e de mão aberta capturei-o quando fazia o voo de regresso. Tratava-se de um pequeno crucifixo de madeira suspenso por um fio composto por muitas esferas negras.. Desconheço a motivação de quem atou o crucifixo no vestíbulo da carruagem, mas revejo-me no desígnio de fé anónimo. Estação após estação, viajei como se estivesse dentro de um fotograma móvel, seguindo as luzes e os rostos que entravam neste suposto filme. Ao mesmo tempo, contemplava o crucifixo embalado pelo ritmo das bênçãos o terço e do movimento da carruagem. Durante o percurso, a reacção dos passageiros ao símbolo religioso fez-se de espanto, sorrisos e esperança silenciosa, como qualquer viagem da qual se antevê o inicio mas desconhece-se o fim.


Com 13 centímetros de comprimento esta será uma das maiores borboletas e mais pesadas que por cá voa. Espécie migradora proveniente do continente africano é apreciadora de sol e de calor. É um dos poucos insectos que imite um som quando se sente ameaçada. Pode ser observada entre Maio e Setembro e apresenta 2 gerações durante o ano. A sua alimentação é variada, porém privilegia o mel, nem que para isso tenha que invadir colmeias e ludibriar as operárias que a defendem. Para não ser atacada pelas abelhas, faz jus do seu zunido para as acalmar, passando quase despercebida, podendo assim alimentar-se dos favos. Mas nem sempre consegue infiltra-se com sucesso e quando é detectada a história não acaba bem.



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