sexta-feira, 20 de fevereiro de 2015

112+1




O veículo arrancou tão rápido como o sangue que lhe subia à cabeça,
deixando para trás luzes anónimas dos acidentes e dos destroços de alma,
ela sabia que não havia tempo para além do tempo que não tinha
e lamentava-se "como foi uma coisa destas acontecer..."

Dentro da ambulância reparava no vaivém do crucifixo atado ao espelho retrovisor,
um amuleto com tantas promessas por pagar,
ao seu lado alguém consertava a máscara de oxigénio da sua outra vida,
- o crucifixo baloiçava para trás e para a frente -
"ah se ao menos soubesse rezar..."
com carinho apertava a mão da sua outra vida e dizia baixinho:
" fica comigo esperança!"

Ela continuava:
"se não fosse a esperança...
não havia amanhã, não é verdade?"
as sirenes pulsavam com a morte das estrelas incógnitas.
"nunca te disse que tinha saudades tuas, pois não?"
a ambulância seguia em contra mão, sem regras ou abecedários,
"não me lembro de te dizer que te amo"
desprezava os semáforos, os carros transparentes desviavam-se,
"prometi-te que..."
a emergência da realidade em velocidades diferentes,
"um dia destes.."
as palavras eram condensadas em vapor de lágrima,
" havemos de ver..."
nas manchas de óleo sentia-se o respirar rápido da estrada,
"o Cristo Rei meu amor"
em vermelho denso, o trânsito plástico iluminava o crucifixo e o espelho retrovisor.
"fica comigo"
ela repetia tantas vezes o que nunca antes lhe tinha confessado
com medo de ficar com mais ausência do que estrada.




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