sábado, 23 de agosto de 2014

Faia Brava




Há muito que ansiava conhecer a reserva da Faia Brava, situada entre os concelhos de Pinhel e Figueira Castelo Rodrigo, distrito da Guarda. O fascínio era antigo, talvez por ter sido a primeira área protegida privada em Portugal, inicialmente  criada com intuito de proteger o britango (Neophron percnopterus). A riqueza da biodiversidade e a conservação da natureza ocupam um lugar de destaque nos 850 hectares geridos pela ATN (Associação de Transumância e Natureza)
Assim, no início de Abril, visitei o local com intuito de fotografar algumas aves rupícolas e conhecer um pouco do Vale do Côa.

5:50 da manhã - o ponto de encontro estava marcado para a igreja de Algodres.  Os braços da noite fria prologavam-se rapidamente pela madrugada. Depois de um longo périplo tínhamos à nossa espera um colaborador da ATN. Sem tempo a perder demos início a uma viagem de jipe por caminhos acidentados e veredas com inclinações impossíveis de ultrapassar por uma viatura que não tivesse tracção às quatro rodas. Chegámos ao abrigo instantes antes do sol nascer e depositámos vinte quilos de ossos e carne (com a devida licença e controlo de qualidade) para que se concretizasse o chamamento das aves necrófagas. Entrámos no abrigo enquanto o nosso guia dirigiu-se para um ponto de observação altaneiro, onde controlaria a chegada das aves. Uma vez devidamente acomodados, usufruíamos de uma visão desobstruída do local onde poderiam pousar os abutres, enquanto isso, aguardávamos com expectativa qualquer sinal dos nossos anfitriões vindos dos ares. 

Do céu carregado por nuvens escuras irromperam tímidos raios de sol e com eles vieram dois grifos (Gyps fulvus) que poisaram no topo de uma árvore. Observaram as ossadas, contudo mantiveram-se calmamente de sentinela. Discretos, controlaram a iguaria mas não desceram. Os bichos realizaram o levantamento das possibilidades e dos riscos que o local oferecia. Após alguns minutos partiram sem tomar o pequeno almoço. Depois, vindos de todas as direcções, com um adejar pesado e sonoro, surgiram mais de vinte grifos que atacaram os ossos como se a fome fosse um dia com poucos minutos. A disputa pela comida obedecia a uma hierarquia onde os mais velhos tinham a primazia de ser os primeiros. Houve agressões e batalhas mas todos sabiam que posição ocupavam no bando. Observámos ainda um casal de britangos que sobrevoou o local sem pousar. Os grifos fizeram desaparecer em poucos minutos os ossos e já o festim se aproximava do fim quando ouvimos um estranho chamamento, inicialmente parecia ser uma raposa, todavia estávamos enganados. A majestosa surpresa poisou numa pedra e reclamou o seu trono de águia-real (Aquila chrysaetos)

Este é o nosso património natural, vale a pena conservar um caminho por mais acidentado que seja.



Portal de boas vindas


O Vale do Côa visto a partir da reserva Faia Brava


Um poiso para os grifos contemplarem a paisagem enquanto secam as asas


E sacudir as penas


Não esquecendo quem manda


Uma manifestação da hierarquia bem definida


Enquanto uns comem outros esperam pela sua vez


Depois dos ossos e da carne seguiu-se a partilha de uma pedra



De asas abertas assim se aproveita o que resta do sol


Águia-real: a visão atenta da maior águia portuguesa, infelizmente uma espécie ainda ameaçada. 



Grifo - o filme



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