sexta-feira, 29 de março de 2013

Holocausto





um conflito ecoa nos patamares,
aproximo-me da porta e espreito pelo olho de boi 
certifico-me que a luz da escada está apagada;
se hoje houvesse uma guerra mundial eu não estava preparado,
já os meus vizinhos sobreviveriam e pelo barulho que fazem
imagino-os em casa, em saltos magníficos, aos pulos e cambalhotas,
de pernas para o ar, num doido trampolim do chão ao tecto, 
sem gravidade ou vergonha que os desminta de heróis.

os meus vizinhos são fortes

são os maiores candidatos a astronautas que conheço
colectores preparados para uma catástrofe,
eles guardam tesouros de conservas em lata 
vestem roupas dramáticas, 
e quando nos encontramos, por acaso, 
usam palavras tão fechadas das quais tenho medo do significado,
semanalmente acartam para casa sacos cheios de resistência
acredito que tenho vizinhos que não dormem;
por detrás das cortinas esperam pelo inicio do conflito de arma pronta e alvo identificado.

agora...

pelas escadas os cães ladram sedentos de rua, 
no rebate das portas ímpares as gatas miam num cio eléctrico,
à janela todos os meus vizinhos anunciam um fim qualquer.
um fim que não este.
um fim que nunca foi escrito;
todos estão em casa 
e secretamente esperam por alguma coisa. 


eu não estou preparado para o holocausto.
fecho o guarda-fatos e o armário onde colecciono restos 
dos amores em algodão-doce e outras fotografias que me são familiares.
escavo por entre a desarrumação e escondo o boletim das vacinas e o B.I,
guardo os meus preciosos pertences, aqueles que ainda estão agarrados à pele e doem.
tenho saudades dos dias longos e das noites frias dos corpos. 
não estou minimamente preparado, 
estou em fuga que é algo completamente diferente.
por isso, tenho o meu ritual de iniciação para quando o dia chegar,
não haver dúvidas que o dia chegou...

ligo o cronometro:


direcciono os sapatos de guerra com a biqueira virada para a parede,
coloco as calças em cima da cadeira e a camisa por cima das calças,
e os boxers em cima da camisa com as meias pretas ao lado.
tenho um casaco resistente à chuva pendurado num cabide
luvas de amianto em cima da cama,
um capacete de mineiro com uma luz no topo, ligada,
uma garrafa de oxigénio e outra com água mineral ao meu lado,
dezenas de barras de cereais com diferentes sabores,
uma velhinha espingarda de fulminantes e uma mochila, 
por fim, em torno do corpo, ato a bíblia e uma revista com senhoras ligeiramente despedidas
serve de fé como um colete à prova de bala e solidão.

não me esqueci; 
deixei em cima do frigorífico um envelope
com as contas que paguei e com as que ficaram por pagar.
tal como a contabilidade dos meus erros, 
está lá tudo escrito para depois ser mais fácil desculparem-me.
demorei 1 minuto e 57 segundos a preparar-me, não está mal.
ao mínimo sinal... visto-me e fujo.

calmamente, corro os estores para baixo e fecho a porta do quarto

silencio a luz do rádio que segreda baixinho na mesa de cabeceira
fico completamente às escuras, em mim,
manto apaziguador de uma calma mortalmente consentida.
descanso e espero que a consciência do mundo me apague.

mais tarde,
numa enorme agitação, acordo com gritos
só pode ser uma coisa: o dia chegou. o grande holocausto está aí,  
agarram-me pelos cabelos e pelas pernas,
fazem-me cócegas nos pés e beijam-me as faces rubras de sono 
e quando mais a primavera se anuncia auspiciosa maior é desilusão;
aqueles vizinhos, que vivem aqui e nem sequer sei o nome,
dizem-me com o maior desplante: parabéns!

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