quarta-feira, 1 de setembro de 2010

a morte de Agosto


ela foi coroada com uma coroa de espigas de trigo enquanto isso
a ventoinha rasga o ar com pequenos foto-poemas presos nas pás
ela arrasta-se nua pela casa e a casa mais nua que ela cabe num gota de chá
que ela bebe, não para matar a sede, antes para matar o tempo que se segue
olha pela janela e empoleira-se no parapeito fingindo-se despida de felicidade
seduzindo a canícula de uma sombra só

ninguém a vê porque às quatro da tarde estão 44 graus no chão da aldeia
e os velhos do jardim ainda não vieram com o dominó mais velho que eles
para dar vida aos bancos de mármore com jogadas de putos felizes
lá fora não corre uma aragem, lá fora respira-se Agosto enquanto ela espera viver Outubro

entretanto, um tiro fulminante, uma jogada de mestre, um estilhaço
o vidro da janela parte-se e ela cai lentamente no chão
e com uma mão de espanta espíritos derruba a ventoinha
a ventoinha pára, os foto-poemas não se mexem não fossem eles peças de pessoas mortas

na libido do suor
ela a rastejar dá uma pancada na ventoinha com a ponta do pé
mas a ventoinha não responde e ela também não insiste,
e deixa-se ir no embalo da despedida
nos tacos de madeira o sangue lambe o orgulho de uma mancha vermelha de pó
por entre vidrinhos de sonho tantos segredos morrem
isto passou-se num quarto alugado por 31 dias, todos os anos, durante o oitavo mês

este foi mais um crime de Octávio Augusto e depois deste vieram outros.




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