sábado, 7 de março de 2015

Fisga





armas destas nunca armaram guerreiros,
fisgas feitas dos ramos da nespereira,
câmara de ar e couro,
quando o alvo era um vaso sem flor
os tiros teimavam sair sempre ao lado;
falhar era um elogio da idade,
na contabilidade de quantas cabeças partidas
pouco importava se tinha frio na barriga
mãos trémulas ou pontaria zarolha.

com os joelhos esfolados e espinhos de cardos espetados nos dedos
as tardes de verão eram de conquista territorial;
figueiras escaladas na congestão da hora de maior calor
guerrilhas armadas pelos terrenos baldios
dez rapazes a correr de fisga nos dentes a saltar muros
onde as guerras eram combinadas e as pazes duradouras,
tantas sestas furadas pelo desafio dos miúdos fanfarrões,
os dias tinham mais horas e tantos eram os caminhos.

se não me engano hoje estourou a 43ª  guerra mundial das fisgas
aqui estou eu a atirar pedrinhas negras ao rio
assistindo ao rápido movimento com que cortam águas
explodindo em pequenas ondas concêntricas
à sombra o rio canta, a figueira ainda lá está e a nespereira também,
à espera que eu falhe e volte a falhar e volte a tentar e perca a cabeça.

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