quinta-feira, 12 de junho de 2014

Uma viagem de dirigível





Lembro-me do teu rosto,
muito antes de nos conhecermos,
recordo-me da tua face felina muito para além de esfinge,  
lembro-me do teu corte de cabelo em curva e contracurva
do teu jeito rebelde de trono desafiante,
salto alto encanto e andar seguro.

Recordo os poemas declamados pelos teus olhos  
da forma como, sem te aperceberes, pronunciavas as vogais 
que existiam dentro dos nossos silêncios.
e deixavas-me adivinhar qual seria o próximo livro que ias ler
ou a peça de teatro que irias improvisar.

Brincávamos a tudo e mais alguma coisa
e às vezes chorávamos sem motivo aparente,
felizes daqueles que não sabem porque choram;
a sonhar tudo nos acontecia.
Guardo para sempre a tua reação, quando um dia te perguntei: 
"verdes ou cinzentos, a que espécie alienígena pertences?"
Sabes qual foi a tua resposta?

Lembro-me do teu corpo.
do traço de luz que descia da tua anca,
e os búzios amestrados que subiam pelas tuas mãos; 
A imaginação da tua boca.
As manobras curiosas dos teus lábios sempre que comias um dióspiro 
e uma gota sensual descia pelo teu queixo, 
dizendo bom dia ao último sol.
A pele do teu nome num beijo de fruto.
Depois a crueldade da distância e a invenção da saudade.

Por favor, lembra-me que estarei a mentir, se algum dia negar tudo isto.
Eu sei que nada disto existe ou existiu. Ainda.
Enquanto isso, espero pela chegada do último dirigível de ar quente.
É nesse momento que te vou reconhecer. 




Sem comentários:

Enviar um comentário