terça-feira, 9 de abril de 2013

A lágrima e o lenço






uma reacção alérgica ao cloro da água faz-me chorar do olho esquerdo.

o olho direito continua feliz para além do desfoque do prisma quotidiano.

e assim, de lenço na mão, e sem motivo aparente não consigo parar de chorar;

com o vagar que demora a salgar uma simples lágrima,

pequenas gotas percorrem a metade do meu rosto que permanece na sombra;

na penumbra, sem contorno nem traço, na perfeita negação da matéria.

o outro lado de mim não vê porque não pode ver, porque nunca viu e nunca verá.

enquanto isso, o mundo diz-se mundo e existe
com todas as convulsões dos movimentos perpétuos e demais enganos.

existe redondo e de pólos achatados. nós habitamos visceralmente este pontinho azul.

dentro de uma bola de vidro com uma casinha pintada de branco onde caí ininterruptamente neve artificial.

do lado de fora do vidro, uma gota solitária anda perdida pelas margens da esfera.

para aliviar o ardor enxaguo a vista com o lenço mas o olho esquerdo continua a chorar. não percebo.

o meu lenço tem bordado uma casinha à beira mar, num azul imenso e com o sol a espreitar por entre as nuvens brancas.

será que quando choro vejo a perfeição?

se assim for, há dias que esta lágrima desenha no lenço de linho uma outra realidade.

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