quarta-feira, 7 de março de 2012

O que fazia uma mulher nua, de espingarda em punho, no último andar do hotel?




O que fazia uma mulher nua, de espingarda em punho, no último andar do hotel?
Ela não se importava minimamente com quem a estivesse a observar.
Satisfez o desejo que tinha reprimido durante a viagem na varanda do quarto.
Para que a geometria variável do corpo fizesse com que as curvas
fossem sexos por imaginar, ela amava o seu criador numa carícia solitária.
Ela, a espingarda e a imaginação de cada um.
Depois de satisfeita, percorreu o interior do quarto até encontrar os binóculos.

Por detrás das lentes, num gesto paciente, observou a cidade viva.
Visto de cá de cima, no décimo andar, tudo parecia miniatura.
Os homens sós eram bijutaria quebrável.
As suas vidas ordeiras de rotinas mecânicas e previsíveis eram  uma afronta aos valores familiares.

Este mês ainda não tinha limpo o cebo a nenhum.
Ela gostava de matar homens como viera ao mundo - nua -
Foi esse o pacto que fizera, era um pacto justo.
Foi esse o acordo com o seu criador, não com um diabo qualquer,
ela não acredita nos homens que passavam a vida sozinhos por um motivo qualquer:
divorcio, viuvez, opção, celibato, tudo desculpas para morrer mais depressa
por isso, ela só crê no seu criador, que era ao mesmo tempo:
médico, padre, professor,amante, pai, homem, e muitas coisas mais.
Como ele, não havia mais nenhum e como tal, todos os outros homens sós tinham que desaparecer.
E o quanto antes. Ela fazia por isso, esforçava-se cada vez mais, tornando-se numa excelente atiradora.

Diz quem a viu que não havia mulher mais bela.
Mas obviamente que não sabiam que ela matava homens.
Matava homens sós, aqueles bichos hormonais que estavam a mais na sociedade.
Esses homens eram perigosos.
Homens sós que nunca teriam oportunidade de olhar para ela, nem de lhe perguntar o motivo pelo qual ela só matava homens solitários.
Ela antecipava-se.
Não matava homens acompanhados por mulheres ou por outros homens. Só renegados.
Um homem sozinho é o pior animal ao cima da terra.
Que o diga a mulher que agora acaricia o gatilho da espingarda como se fosse o órgão genital adormecido.
Ela só matava desconhecidos solitários, assim nunca seriam potenciais concorrentes ao seu criador.
Como sabia que aquele seria um homem só?
O modus operandi era simples:

Sempre que chegava a uma cidade alojava-se num hotel e seguia os alvos da janela,
descortinando em cada um sinais de inegável solidão e abandono.
Depois de identificadas as rotinas e os hábitos dos alvos,
passados dias, estes acabam com um tiro na nuca.
Após dizimar uns quantos homens sós, ela seguia viagem para outra cidade e voltava a repetir a dose.

Neste caso o alvo foi identificado. Confere com o estereótipo.
Ela foi buscar o seu objecto de prazer e depois dirigiu-se à janela.
Pegou na mira, enroscou na espingarda, afinou a pontaria e disparou.
Por sorte do visado, ela não acertou no alvo, o homem só fugiu às regras da previsibilidade
e agachou-se no momento do tiro para pegar num objecto que caíra ao chão.

Incompreensivelmente falhou. Ela não costumava falhar. Alguém bateu à porta do quarto. Ela não ligou.
Como foi isto acontecer? Aquele animal abaixou-se no momento do disparo?
Ao ouvir o tiro os transeuntes assustados olharam para todos os lados.
Incrédula olhou para baixo, como foi possível ter falhado?
No quarto de hotel continuaram a bater à porta. O telefone tocou e ela voltou a não ligar.
De raiva, bateu com os punhos no parapeito da janela, abriu o pulso e um golpe sangrou.
Deixou cair a espingarda que disparou sozinha um tiro que atravessou o lobo frontal da sua amante.
Desta vez o seu criador acertou. Ela precipitou-se de olhos ainda abertos até ao solo.
Quando os homens sós viram uma mulher tão bela vinda do céu a beijar o chão, temeram que fosse  enviada por um anjo qualquer, e correram, correram, passaram a vida a correr.





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