terça-feira, 1 de junho de 2010

Na sombra dos dias quentes de além tejo em brasa
um velhote fumava tabaco de enrolar sentado no rebate da casa 84
com o vagar de quem tem todo o tempo para adiar
nada que possa ser mais urgente que a própria espera
entre o sarro de uma cuspidela para o lado e uma festa no cão magro
o homem de uma incerta idade suspirava
até que...

oh tu que fumas...quando fores fantasma o que queres ser?
perguntou a virgem moça que brincava às escondidas
entre a cal da parede descascada e a sombra que morria na tira azul da casa
o velhote tirou os óculos e ajeitou a boina descolorada pelo sol razio
ouve-lá...não me estás a ouvir? quando fores fantasma o que queres ser?
insistiu a virgem moçoila a modos que, como quem não quer a coisa, à laia de
provocação ou tentação não fosse ela tão bela mais bela que as coisas que não o são.

Ele tirou do bolso do casaco um lenço branco com cruzes e brasões
passou pela face suada e segredou lá para os seus botões
ah homem do diabo mesmo velho acabado saíste-me cá um safado que não pensas noutra coisa senão em coisa nenhuma
és tentado à tentação pelo pensamento tal não é tesão
pois que para a tua idade se pensas ainda brincar é melhor nem tentar
Como o velhote olhava para o lado oposto enquanto apalavrava a intenção
onde a a virgem moça loura ou ruiva morena tanto faz como tanto fez
ela não teve de modos e partiu a loiça toda foi uma veneta que lhe deu
pôs-se em bicos de pés e respondeu

estou aqui! és surdo ou quê? estou a falar contigo!
como o velhote nem sequer fez sentido
ela pulou e ela pinchou com as mãos à cintura e ar de birra despida

O velhote levantou-se calmamente olhou para trás arrabalde de nenhures
onde a rua se transformava num fio de horizonte em vida
depois deu dois passos pesados e avançou
que por aquelas bandas já se fazia tarde
Jovem moça foi atrás dele e puxou-lhe pelas calças,
o velhote como já lhe custava andar, não notou que algo lhe detinha o passo

e pé aqui pé acolá dirigiu-se para a porta 85 sua vizinha
onde o esperava o padre cura morgue
que tal como ele não ouvia lá muito bem
e os dois faziam orelhas mouco
não ligando muito às insinuações do vento louco
enquanto a jovem moça andava numa fona
às voltas como uma matrafona da feira de Aljustrel
e lá ficaram os dois a rir à sombra do chaparro nobre
lembrando de tantos e tantas que enterraram e que ainda reclamam por desforra
desta para melhor tamanha sorte.

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