quinta-feira, 10 de junho de 2010

espero que encontres tudo aquilo que procuras


e no banho,
das mãos que raramente eram suas
corria um fio de água turva,
até se formar uma poça de espuma e recobro onde o ralo era confidente,
ao mesmo tempo que uma voz-pensamento não lhe saía da cabeça
qualquer coisa vinda de nenhures, diria até mesmo, se calhar de outros tempos ou de outras vidas, rezava mais ou menos assim:
“espero que encontres tudo aquilo que procuras”
saiu de casa à pressa deixando as feras dos livros a roer o pó da noite
e atravessou  a correr o velho bairro bombardeado pela radioactividade dos obuses,
até chegar aos escombros da estação de comboios de Benfica,
onde várias viúvas carregavam às costas sacas de lenha roubadas ao fogo de Monsanto.


já no apeadeiro aproximou-se da linha branca pintalgada de sangue que dividia o abismo do chamamento mortal.
uma voz robótica advertia para a passagem de um comboio ultra-silencioso quase fantasma:
“ Senhores passageiros, vai dar entrada na linha 2, um comboio rápido que não efectua paragem, desejo que encontrem tudo aquilo que procuram”
deu dois passos atrás e acendeu um cigarro,
passados quinze minutos entrou no comboio seguinte e deixou-se ficar a um cantinho sem dizer nada, apenas respirando o bafo azedo dos mutilados da guerra que a seu lado contavam histórias sem história.
fechou os olhos e minutos depois a voz da besta de ferro comunicou:
“ próxima paragem x, cuidado com o degrau,  (sete minutos depois a mesma ladainha) próxima paragem y e cuidado com o degrau”
por fim, chegou ao cais que se erguia de um emaranhado de vigas de aço numa construção industrial semi-destruída,
saiu disparado.
nas ruínas da estação de Entrecampos correu levando atrás de si várias corpos empalhados pela hora de ponta que se desfaziam em pasto húmido debaixo dos seus pés.

entrou num túnel. uma garganta escura engolia a chusma dos penitentes atrasados para o juízo final.
o metro e com ele milhares de mãos, de pés, de bocas, tudo o que odiava. em silêncio até que,
ouviu uma voz mecânica a ecoar pelos túneis :
“é proibido fumar em toda rede do metropolitano e espero que encontrem… “
um apito, dois apitos e um sinal sonoro. lá estava ele.
entrou na segunda carruagem da lagarta subterrânea onde manequins plásticos
amontoavam-se dependurados no varão do vestíbulo,
uns contra os outros numa orgia consentida pelos solavancos da viagem.
de forma prática, decapitou uma boneca que sorrateiramente infiltrava-se no meio das suas pernas.
a voz da lagarta subterrânea anunciou próxima estação:
“ Marquês de Pombal. cuidado com os vossos haveres. espero que encontrem tudo aquilo que partiram à procura”

saiu da gare no meio de uma nuvem de fumo castanho e na rotunda deserta, ao lado do que restava da estátua do Marquês, estava uma mulher bem vestida com uma mala preta na mão.
aproximou-se e perguntou:
o que fazes aqui?
ela respondeu:
como estás? faz tanto tempo que…
e ele disse:
então sempre te encontraste?
depois seguiu-se uma explosão feito clarão azul de halo róseo
e a cidade que eles destruíram apagou-se do mapa.

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