sábado, 15 de abril de 2017

Viagem a Carcassone




Ao longe surge as imponentes muralhas da magnífica Carcassonne, rasgando o horizonte, abrandando os ritmos as pessoas e das máquinas, num suspiro de espanto, vergando-nos o olhar, numa vénia por respeito à história que irrompe pelos poros da pedra forte. 



Ainda não tinha entrado na cidadela e já ouvia as espadas contra os escudos, em gritos de guerra, num frenesim imaginário de uma batalha medieval. Uma vez ultrapassada a fronteira que separa a ficção da realidade e já dentro da fortaleza, confesso que senti-me protegido dentro das muralhas do castelo, mas ao mesmo tempo, cercado por ecos de tempos sangrentos. 




Os ângulos desta fortificação falam guerra. Por entre torres, pontes levadiças, fossos e muralhas, surgem símbolos beligerantes de uma luta do homem contra o homem, tal como hoje, pela posse das  gentes e das terras.


Esta é uma construção da idade média conservada contra a passagem do tempo e da memória. A fortaleça inicial foi edificada no século XIII e por ela passaram muitos povos desde romanos, visigodos, celtas, sarracenos, envolvendo-se em disputas sangrentas.


Depois de séculos de batalhas que levaram ao abandono dos seus habitantes, Carcassonne entrou num perigoso declínio quase desfazendo-se em ruínas, não fosse a reconstrução no século XIX, levada a cabo por Viollet-le-Duc, que também reconstruiu Notre-Dame. Carcassonne foi declarada Património Mundial da Unesco em 1997.


A cada esquina, a cada recanto da cidadela, deambulavam muitos turistas das mais variadas latitudes e de linguajar diversificado. Tal como eu, caminhante de máquina fotográfica em riste, imbuídos de uma paz efémera, em comunhão com a história, e porque não dize-lo de olhos sedentos por contos de fadas.



Passo após passo, de sentidos apurados, seduzidos pela oferta comercial dos sabores e das recordações que se levam para casa, para não esquecer que às vezes vivemos dentro de uma lenda. 



Finalmente, encontrei silêncio no recolhimento da basílica de Saint-Nazaire, ornamentada com vitrais que filtram os esboços do mundo exterior e um de imponente órgão onde as melodias dos silêncios e dos passos de fé se fazem escutar. 






A basílica de Saint-Nazaire foi construída no século XII e resulta da perfeita combinação dos estilos românico e gótico.


Já no exterior, as gárgulas da basílica olham-nos com a urgência de um alerta, inquietando-nos com a sua crítica monstruosidade de desaguadouro águas.


É como se nos estivessem a dizer que o demónio nunca dorme, exigindo a nossa máxima atenção, mesmo em locais sagrados. O mundo anda sobressaltado com o terrorismo e as eminentes roturas políticas que se advinham. Por enquanto, as gárgulas continuam no mesmo sítio e de lá vociferam avisos; as cidades e suas as muralhas tantas vezes invisíveis, contam-nos histórias de distantes batalhas entre povos, espaçadas no tempo, guerras surdas de actualidade gritante. De olhos postos no céu, às vezes pergunto-me, tinha mesmo que ser assim? E as gárgulas, nos dias em que não são de pedra, por certo também...









Agradecimentos: Família Frade

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