domingo, 4 de abril de 2010

Crónica de um Domingo Qualquer




Domingo – Infelizmente de Páscoa. 09:07 (relógio do carro adiantado 10 minutos)
Carro estacionado e bem arrumado (algo invulgar). Com as portas trancadas e os vidros fechados (necessariamente vulgar). Lá estava eu satisfeito a desfazer o tempo nos poucos centímetros que faltavam para matar o primeiro cigarro matinal. À falta de melhor, a companhia ideal morava nos bancos, nos estofos, no tablier, nos tapetes, nos plásticos, nos vidros e no rádio leitor de Cd's, que é como quem diz, uma onda musical na voz cristalina de uma das vocalistas dos Nouvelle Vague, perfumava os recantos do meu carrinho de linhas. Devo admitir que a música estava alta (demasiadamente alta, num mau gosto elevado ao expoente máximo do decibel)

E o carro não abanava por todos os lados? Não. Os vidros do carro estremeciam? Não.  Havia alguém nas proximidades? Mais ou menos. Era cedinho? Para mim não! Portanto, que se lixe o barulho, quero lá saber do Domingo infelizmente de Páscoa ( podia ser Domingo de outra coisa qualquer) e deixei-me levar pela melodia daquela voz sensual numa espiral fumegante e pecadora (afinal). E bem vistas as coisas, o barulho que eu julgava só meu e que não partilhava com mais ninguém, não era bem assim. E?

Vi-o aproximar-se pelo espelho retrovisor. Desengonçado, a cambalear e com aspecto de meia sombra humana enquanto dava desorientações de como arrumar um carro no parque de estacionamento (ilegal) contíguo ao Centro Comercial Colombo. Num movimento leve e escorregadio avançou na minha direcção e depois de bater duas vezes no vidro. O vidro desceu não mais que meio palmo e eu disse, boa Páscoa ( que é como quem diz, o que é que este gajo quer?) Ele a gaguejar pediu-me que mantivesse o vidro recolhido para poder ouvir música.

Sem saber muito bem  o que fazer lá fui dizendo, sim... claro... (ainda sou assaltado pensei mas está bem, ouve lá este som) ele repetia Páscoa, que Páscoa? Não foi na Sexta-Feira? Eu olhei para ele ( o gajo está perdido só pode) e respondi, na Sexta foi Sexta-Feira Santa. Num tom de voz sumido ele retorquiu, estão sempre a mudar as coisas de lugar. Não compreendi muito bem o que ele queira dizer com aquilo e refugiei-me num parvo e inconclusivo, pois é. Ele sorriu, deixando a descoberto dois dentes numa boca negra ornamentando uma face oval com algumas cicatrizes de bexigas nas bochechas chupadas pelo sol e pelas más companhias.

Depois principiou a tamborilar no tejadilho da viatura o compasso da música. Ligeiramente irritado perguntei, gostas desta canção? Ele abanou a cabeça para cima e para baixo e respondeu, a cantora tem uma voz muito bonita. Eu sorri e ele olhou para dentro do carro, mais concretamente para um livro que estava em cima do banco. O que estás a ler? Bocage, respondi! Ele colocou a mão na janela e disse, um poeta bem divertido. Calei-me. Depois olhou para a direita e correu para um carro que se aproximava, fez sinal para um lugar vago mas o carro não parou. E voltou a aproximar-se do meu carrinho de linhas fumegante e pecador. E continuou.

Contou-me que que era músico autodidacta e inventor e que já tinha tocado com os U2 (temos homem). Arrumava carros para arranjar uns trocos pois estava a construir um instrumento único e inovador que reproduzia o cantar dos pássaros, um instrumento feito de metal, com varetas de guarda-chuva, espelhos retrovisores e alumínio e ainda... (ui ui que grande tanga, cá para mim... )

Dei-lhe sessenta cêntimos e um cigarro na esperança que ele se fosse embora. Mas não. Muito pelo contrário. Ele agradeceu e continuou dizendo, que costumava tocar guitarra, baixo, piano e bateria nas lojas do Centro Comercial Colombo, lojas essas que estranhamente mudavam de sítio, uma vez estavam no primeiro piso outras apareciam no segundo ( estás todo queimadinho pensei). E mais. Confessou-me que uma vez foi a Veneza e que cidade também mudava de sítio e note-se que é  uma cidade muito maior que o Centro Comercial do Colombo. Depois corrigiu-se dizendo que não era propriamente a cidade que mudava de sítio, mas sim as ruas, os prédios, os jardins, as estradas, os monumentos, ( tal não era a pedrada que devia ter nos cornos).

Perguntou-me se eu acreditava nele. Eu (cobarde) não consegui responder. Ele baixou os olhos dizendo, deixe lá, ninguém acredita! Eu na brincadeira tentei suavizar a questão dizendo, bem agora vou trabalhar, só espero quando voltar o carro não tenha também mudado de lugar!

Ele sorriu e deu dois passos atrás ficando a baloiçar no meio da estrada (nesse estado não duras muito até ser atropelado) e gritou, se eu alguma vez tinha regressado a um lugar e esse sítio tivesse desaparecido? ( cá para mim, às vezes), se alguma vez tinha voltado para uma pessoa que já não existia? (poucas vezes) se alguma vez tinha olhado ao espelho sem saber quem estava do outro lado? No silêncio, (tantas vezes)

A esbracejar foi à sua vida. Caminhou para o outro lado da estrada, uma ruela transversal,  sentido único de manobra difícil.
Eu saí do carro e fui para o trabalho, enquanto ele fazia sinal com o braço morto, convidando gentilmente os condutores a estacionar num sítio onde não cabia um carrinho de linhas quanto mais um Domingo de Páscoa.

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