terça-feira, 23 de fevereiro de 2010

e a terra tremeu - parte II -

Depois de apanhar uma grande molha, ele retirou a roupa e vestiu o roupão, atirando-se para cima da cama ainda com água pura a escorrer pelos cabelos. E assim ficou por breves instantes a olhar para o tecto até que, uma a uma,  algumas gotas de água caíram-lhe na testa, numa melodia desconcertante e invertida.

Uma infiltração. Devagar, num intervalo tempo espaçado entre a respiração quase silenciosa e o suspiro lento, contemplou a origem da queda de água. No tecto, uma mancha cinzenta, uma ilha no meio do branco cal da imaginação. Acendeu a luz, levantou-se, para depois se aproximar do corredor.

À sua frente uma língua de água feita por pegadas liquidas, um chapinhar de passos que se dirigiam para todos os lados, um rasto.
Ninguém tinha tocado à campainha mas ele abriu a porta e fechou-a sem fazer barulho. Era tarde. Ou quase tarde para ser cedo. Voltou a sentar-se na margem da cama e olhando para o tecto disse:

- Não acredito naquilo.
- Não acreditas no quê?
- O que aconteceu na ilha da Madeira.
- É verdade. Custa a acreditar. Tantos mortos. Tanta desgraça. Tanta gente que ficou sem casa.
- Foi a força da Natureza. A água levou tudo o que apanhou à frente. Um rasto de lama e sofrimento de grito e fuga desalento.
- Então a força da natureza é má?
- Nem sempre, mas no caso. O que ficou foi só destruição. Aqui tão perto. Dor liquida. Aqui ao lado. Sem se poder fazer nada. Quase sempre não se pode fazer nada. As palavras não chegam. Quase nunca.
- E não te perguntas, qual a razão de todas estas coisas?
- Acho que não há tempo. Ou então Ele anda desatento. Acontece.
- E para ti, a culpa é Dele ou da Natureza? Não era suposto ser o mesmo? Deus a Natureza?...
- Mau! Já te disse que não gosto que me respondas com outra pergunta. Olha para mim...
- Estou a olhar.
- Não estás! Olha para mim, de frente. Isso. Assim está melhor. O que é que te aconteceu? Estás encharcado...
- Esteve a chover.
- E isso é uma lágrima?
- Se quiseres, diria antes, uma pequena inundação ocular que não vale de nada.
- O que estás a fazer com as mãos juntas uma na outra em frente à cara?
- Não sei...
- Estás a rezar?
- Se isso servir...
- Mas tu não sabes rezar?
-Acho que não. Mas se isso servir de alguma coisa. Espera lá... O que estás a fazer... para onde vais?
- Vou-me embora. Já fiz o que tinha a fazer.
- Vais para onde? Tu estás morto?
- Eu não estou morto. Tu é que estavas quase morto pensando que estavas quase vivo.
- Espera...Onde vais?
- Por aí. Fazer com que isto sirva de alguma coisa.
- Isto o quê?
- Acreditar.

Ele levantou-se, dirigiu-se ao corredor e abriu a porta. Ninguém saiu. Ele esperou um pouco e fechou-se. Depois deitado na cama não parou de pensar na mancha de humidade que alastrava no tecto. Como se mancha ganhasse forma de ilha esperança e lhe rezasse alguma coisa.

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