quinta-feira, 16 de junho de 2016

Férias Planetárias







o mecanismo dos relógios de fogo atrasa o calor das horas planetárias
universais, incertas, invulgares, femininas de rotação triangular,
como se Vénus fosse um planeta habitado por relojoeiros desempregados
e Marte uma estância balnear de ébrios romancistas,
todos prisioneiros da imaginação e reféns de uma viajem
eternamente adiada.

tenho dias que estou de férias,
não tão poucas vezes deambulo num planeta destes,
colho luas,  escondo-me em cordilheiras, escavo crateras,
sinto-me aconchegado pela distância da razão
que me devolve e afasta deste pontinho de casa.


domingo, 5 de junho de 2016

Leitura: O Duplo - Fiódor Dostoiévski





Durante dias deambulei pelas ruas deste romance num duelo com um outro eu. Várias foram as vezes em que olhei para trás, desconfiado se não estaria a ser observado, seguido  num registo persecutório por alguém muito parecido comigo e que teria como principal intuito, o roubo da personalidade e a humilhação da auto-estima - um gémeo usurpador. Um outro eu de altivez humilhante, tanto na fala como no comportamento. capaz de edificar um cerco às fraquezas existenciais que expiam os nossos erros.

Todos os dias em todos os locais, um duplo de duplicidade corrosiva; alguém que ocupa o nosso espaço, o nosso ecossistema de afectos, a nossa casa, o nosso trabalho, portando-se como uma autentica sanguessuga ao sorver as nossas expectativas emocionais e laborais, e ainda  por cima a saracotear-se num tremendo gozo metódico e incisivo. A gozar o prato de um jogo de espelhos onde nos sentimos perdidos entre as miudezas e os falhanços do quotidiano. Foi isto que a personagem Goliádkin me deu a provar pela escrita brilhante de Fiódor Dostoiévski neste seu segundo romance.


" O senhor Goliádkin quis gritar mas não conseguiu; quis protestar mas não teve forças. O cabelo pôs-se-lhe em pé, os joelhos dobraram-se-lhe de terror. De resto tinha razões para tal. O senhor Goliádkin reconheceu categoricamente o seu amigo noturno. O seu amigo noturno  mais não era mais do que ele próprio – o próprio senhor Goliádkin, outro senhor Goliádkin, mas absolutamente igual a ele - numa palavra , o que se chama um duplo dele, em todos os sentidos "

pág 48



Uma dupla companhia
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quinta-feira, 2 de junho de 2016

BioMelides: Andorinha-dáurica (Cecropis daurica)






Estávamos no início de Março quando a andorinha-dáurica anunciou a sua chegada triunfal. Num planar calmo, mas mesmo assim imprevisto, cheio de voltas e reviravoltas, cruzava os céus, deixando antever os brilhantes tons dourados da sua plumagem. Foi um desafio motivador seguir este voo e tentar fotografar as suas características mudanças de rumo. E foi nesse instante que reparámos no labor atarefado desta andorinha na construção do seu ninho, edificado numa construção devoluta, abandonada pelo homem. O que uns abandonam e deixam cair, a natureza encarrega-se de transformar . 









segunda-feira, 30 de maio de 2016

Parque Ambiental do Alambre



Situado em pleno Parque Natural da Arrábida, o Parque Ambiental do Alambre reúne excelentes condições para observação e fotografia de aves. Existem dois abrigos para o efeito e foi no abrigo da trepadeira que no mês de Fevereiro aproveitei para fotografar a graciosidade e o dialogo entre passeriformes e o meio envolvente.

Mesmo antes de chegar ao abrigo, perto de umas mesas de merendas, tive oportunidade de observar esta trepadeira-azul (Sitta europaea). O bicho não conteve a curiosidade e veio ver se lhe calhava algum acepipe.





Já instalado no abrigo pude observar a ferreirinha-comum (Prunella modularis) que andava muito entretida com os seus afazeres nutricionais, não ligando às disputas entre poisos que de vez em quando ocorriam com outras aves.








A uns escassos dois metros da janela do abrigo, uma fêmea de lugre (Carduelis spinus) decidiu mostrar todo seu esplendor aproveitando o sol e as sementes que abundavam naquela manhã fria de Fevereiro, E sem medo por ali evoluiu calmamente, saltitando entre poleiros, feliz certamente por ainda permanecer por terras a sul.







Já o pisco-de-peito-ruivo  (Erithacus rubecula) veio e (en) cantou num tom tão alto quanto melódico.




Perante tal cantoria, o chapim-azul  (Cyanistes caeruleus) veio também dar acompanhamento à sinfonia num trinado muito especial


O chapim-de-poupa (Lophophanes cristatus) com um "penteado" a preceito engalanou-se para asssitir ao canto à desgarrada.







Num frenético combate aéreo, os vendilhões (Carduelis chloris) e o seu  mau feitio gladeavam-se num duelo de bico afiado.







Mais discreto o chapim-carvoeiro (Periparus ater) apareceu de fugida,



não sem antes, desencanear-se uma pequena altercação com o sue primo chapim-azul.


Foi nesse momento que surgiu o chapim-real  (Parus major) para moderar os ânimos mais exaltados.




O tempo voou entre asas e cantos deixando a promessa de um dia voltar.












quarta-feira, 18 de maio de 2016

Conto: Diário de um condomínio





Oiço o barulho de cordas a ranger...
E a sinfonia desafinada daquela maluca do quarto andar. Ela passa a manhã a martelar as teclas do piano, enquanto o namorado arma-se em atleta profissional  ao exercitar-se na varanda até ficar vermelho como um tomate. Depois, ao final da tarde, o pseudo-atleta exibe os músculos trabalhados, ao levar o cãozinho "reco" a passear mas o estúpido do animal urina pelos cantos da escadaria antes de chegar à rua. Bonito serviço. Para apagar as provas do crime canino, lá vem a minha vizinha lavar as escadas, enquanto repete palavras feias de esfregona na mão, a exibir o amplo decote, de calções curtos e rasgados, de anca esculpida, provocadoramente a insinuar-se. Uma pouca-vergonha. Todas as quartas-feiras, da parte da tarde, quando o namorado não está, ela recebe em casa um agente da autoridade. Pelos barulhos que fazem devem divertir-se muito. Não sei se me estou a fazer entender. Eu vejo o carro da polícia aqui parado à porta. Toda a vizinhança vê. O que devem as pessoas pensar mas ninguém diz nada. Até ao dia.

Elevador está avariado e eu estou farto de perder cabelo com histórias que não me dizem respeito. Não me recordo de pagar o condomínio, nem sei quando foi a última vez que fui à caixa de correio. A torneira do lavatório está sempre a pingar. Tenho humidade na casa de banho e fungos nas unhas dos pés. Estou numa fase que não me apetece ver ninguém.
Como disse... Não me recordo de pagar este semestre do condomínio. Tenho que mandar fazer uma segunda chave pois nunca se sabe quando perco esta. A administradora do prédio é aquela moça do quarto andar. Creio que trabalha por turnos numa empresa de segurança. Ela é muito bonita e toca lindamente piano. Tem um lindo cachorrinho e namora um homem alto que dizem que é atleta federado. Educadíssimo.

Acordo com gritos e portas a fecharem-se com estrondo. Oiço ganir. Espreito e vejo o cão da minha vizinha de garganta rasgada ainda a tentar ladrar. O bicho a esguichar sangue entre os pés das pessoas que doidas pedem ajuda. Saiu e tento não pisar o sangue que escorre pelos degraus. A descer as escadas vem o meu vizinho, um homem grande, de fato de treino largo, aos berros, desorientado. Desvio-me e deixo-o passar. Quase se cruzava com os bombeiros que subiam as escadas também à pressa, mais uma mulher polícia, bem jeitosa por sinal. Pela rua abaixo vejo o meu vizinho armado em atleta, corre tanto até que desaparece. Deve ir ter com a outra. Agora que o mal está feito. Pudera… Ela também andava metida com quem não devia. Um polícia ou uma agente da autoridade, não sei... Pelo menos não têm filhos. Nestas coisas as crianças são as que mais sofrem.

Oiço o barulho de cordas a ranger...
E a fala desconexa dos homens fardados a tentarem pegar num corpo pendurado no estendal da roupa. As janelas são iluminadas pelas luzes azuis urgentes das ambulâncias. Se me perguntarem alguma coisa… Bem, se me perguntarem se eu vi ou ouvi alguma coisa…. Não me recordo do nome da minha vizinha. Pelo que sei era boa pessoa e muito cuidadosa. Fechava sempre a porta do prédio. Morava aqui há tanto tempo. Agora reparo nas manchas nas paredes do hall de entrada do prédio. Por falar nisso, quem ficará com a pasta do condomínio?



segunda-feira, 16 de maio de 2016

BioMelides: Cigarrinha-ruiva ou felosa-unicolor (Locustella luscinioides)


Fechemos os olhos e imaginemos por instantes que está um dia quente de verão, onde o som tão característico da cigarra irrompe pelas árvores num zumbido sónico. Porém, não é o insecto que nos traz aqui hoje, mas antes uma pequena ave que apresenta hábitos discretos e um comportamento algo tímido. Não foi fácil observa-la e tivemos que pensar num plano de muita paciência e alguma resistência física.





Aproveitámos o baixo caudal da lagoa para esperar algumas horas dentro dos caniçais pelo vislumbre deste bicho. E a nossa espera foi coroada de êxito, quando por entre as canas espreitou uma Felosa-unicolor ou cigarrinha-ruiva (Locustella luscinioides) ao mesmo tempo que emitia um chamamento constante muito semelhante a um insecto.





De plumagem castanha indistinta e de bico fino, esta ave insectívora é estival e a sua localização ocorre de forma fragmentada pelas lagoas do litoral Alentejano, baixo Mondego e estuário do Tejo. Como tal, estamos perante uma espécie relativamente rara no nosso país.







terça-feira, 26 de abril de 2016

BioMelides: Cuco-canoro (Cuculus canorus)






Eram 06:30 quando acordei com o sinal evidente da chegada da primavera. Do alto dos pinheiros ecoava o alerta sonoro do cuco-canoro (Cuculus canorus). Uma onomatopeia dissilábica num característico "cucu-cucu". Esta ave não faz ninho, muito pelo contrário, opta por colocar um ovo no ninho de outras espécies hospedeiras (petinhas, rouxinóis) para que estas possam assegurar a sua descendência. Aqui impera a lei do mais forte e do mais dissimulado. O cuco recém-nascido começa por remover do ninho os ovos da espécie hospedeira, garantindo assim o centro de todas as atenções e cuidados. Os pais multiplicam-se em esforços para que nada falte ao falso filhote. Nem desconfiam do tamanho da ave que estão a criar ser muito superior ao seu.  Por vezes, a sobrevivência de uma espécie faz-se com os insondáveis voos da natureza.




Dos mainás na praia de Carcavelos até oftalmologia

  mainá-de-crista Acridotheres cristatellus Nada melhor do que transformar uma ida à praia em várias coisas diferentes. Foi o que fiz naquel...