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domingo, 19 de junho de 2022

Ponta de São Lourenço

 



ao afiador de escarpas, só de olhar, cansa o fôlego;

quão rude é o coração da pedra inalcançável?

músculo salgado na rebentação dos meus dias curtos,

nas pernas arenosas e moídas pela aridez do momento,

trago a vista em lágrimas por falhar o teu cerco. 





Já chegámos à Madeira, ou quê? Ponta de São Lourenço

 

No Funchal, o calor pedia sombra e bebida fresca, porém havia ainda algo para descobrir antes do regresso a Lisboa. O meu amigo Bernardo tinha reservado para o último dia a visita à Ponta de São Lourenço e foi uma óptima escolha. A magnífica Ponta de São Lourenço é um monumento natural inserido na Rede Natura 2000, fazendo parte da Rede de Monumentos Naturais da Região Autónoma da Madeira.


Uma paisagem árida e de vegetação arbustiva rasteira, algo completamente diferente do que tinha observado do resto da ilha. Uma península que se estendia como uma cauda escamosa de animal gigante, movendo-se de trezentos em trezentos mil anos com o regresso dos gigantes fosseis à vida.   


Uma vez chegados, deparámo-nos com grupos de jovens turistas, devidamente equipados, que davam início às suas caminhadas. Uma senhora que devia ter mais de 80 anos, acompanhada por uma jovem, estava mais fresca do que eu e com mais fôlego de aventureiro para caminhar por entre escarpas e veredas ingremes.  Caminhemos pois!




Eu não consegui fazer o percurso de 9 km na sua totalidade, nem perto disso, o coração assim não o permitiu. Contudo, gravei na memória o ponto onde fiquei. Talvez, numa próxima oportunidade, volte a este local e se possível caminhe mais uns mil metros.



Depois de calcorrear trilhos, onde as pedras pareciam fugir por debaixo dos pés, o terreno acidentado, com elevações imprevisíveis, descidas que convidavam ao desequilíbrio, confesso, não me esburguei por sorte. O sol a pique acentuava o cansaço, como tal, havia que fazer umas pausas para beber água e sentir a paisagem entrar nas veias. Inspirei o ar atlântico e depois de matar a sede, surgiu um corre-caminhos (Anthus berthelotique reclamava como seu poiso, aquela pedra onde eu estava sentado.




Pelos céus, entre o mar e a península, em busca de uma presa mais distraída, um peneireiro-comum (Falco tinnunculus) fazia voos rasantes junto às escarpas.  Cá em baixo, nós humanos ainda temos tanto que aprender até que a alma ganhe pena.





Agradecimentos:

Bernardo
Semedo
Silva
Tom





quarta-feira, 8 de junho de 2022

Já chegámos à Madeira, ou quê? Levada dos Balcões

 


Esta será a levada que oferece um menor grau de dificuldade aos caminhantes. No total,  ida e volta, são 3 km, nos quais se respira ar puro a uma altitude de 880 metros. O terreno é sempre plano. Durante 45 minutos somos transportados para um túnel do tempo que nos remete para uma época de descobrimentos, não fosse o curso de água feito pelo homem, tudo o resto é selvagem e intocável. Passamos por entre grandes pedregulhos tombados, onde a humidade faz crescer musgos e líquenes. Da vegetação densa observei plátanos e carvalhos, para além das muitas espécies indígenas como o til, o loureiro, a urze e a uveira-da-serra. Esta é a riqueza da Floresta Laurissilva com 15000 hectares, ocupa 20% da ilha da Madeira, sendo a área mais bem preservada deste tipo de floresta no mundo. Por isso mesmo, faz parte da Rede Natura 2000, classificada como Património Natural da Humanidade pela UNESCO desde 1999.



Agora as briófitas e a grande diversão que causaram no meu grupo de amigos.

Tanta nos restaurantes, como nas nossas idas às ponchas, as briófitas vinham à conversa, no meio de risos e alterações fonéticas ao nome e no meio de gargalhadas passavam de briófitas passaram a ser denominadas de "briólias", "biónicas", "biofitas", bicónicas" tudo servia para fazer do nome das plantas, riso e cumplicidade.

Os briófitos são o grupo muito antigo das plantas terrestres. Não têm tecidos vasculares e como tal, não produzem sementes, dependendo a sua reprodução da água que é absorvida e transportada entre células, o que faz que o seu crescimento seja lento e limitado. 

As briófitas mais comuns são as hepáticas e os musgos. Nesta imagem temos uma hepática que se assemelha a uma mão e outras a um fígado.


 


No meio da floresta fechada ouvi um bater de asa seguido de fuga. A ave pousou num ramo quase no topo de uma árvore, o que dificultava a observação pela densa folhagem e o angulo complicado. Cá de baixo, aproximei-me, o bicho, porém, permaneceu imóvel a ternar passar despercebido, parecendo estar a controlar as minhas movimentações. Minutos volvidos, iniciou a limpeza das penas sem se preocupar muito com os meus disparos fotográficos. Era hora de cuidados de beleza. O animal estava quase sempre de costas ou virado para o outro lado, enquanto eu tentava mudar de abordagem ou de posição. Contudo, a floresta fechada e a estreita vereda não apresentavam muitas alternativas criativas. Depois de muitas voltas, duas fotos possíveis que servem de registo de um momento de pura sorte e muita paciência estilística do pombo-da-madeira.



O pombo-da-madeira (Columba trocaz) é uma espécie endémica da ilha da Madeira, sendo o seu habitat predominante a floresta de Laurissilva


.
No Mirador dos Balcões fomos brindados pelo inevitavelmente belo tentilhão-da-madeira e as suas poses de curiosa interrogação.





Aqui estou no Mirador dos Balcões a pousar para a minha ego pequenez.  Daqui surge a admiração pelo vasto vale e a dimensão dos passos que ficaram por conhecer. Esta paisagem viva é um quadro tão belo, por isso mesmo mutável e quase sempre incompleto. Faz-nos aprender o valor da humildade, não tivéssemos nós nascido com mais olhos do que asas.

Sérgio Guerreiro e a Vereda dos Balcões


No caminho de regresso encontrei o Tom que enroscava-se para fazer frente o frio da noite que se aproximava.





Agradecimentos:

Bernardo
Semedo
Silva
Tom





quinta-feira, 2 de junho de 2022

Já chegámos à Madeira, ou quê? Levada do Alecrim

 

A 1200 metros de altitude, a Levada do Alecrim inicia-se na zona do Rabaçal no concelho da Calheta. É uma caminhada que se faz sem muita dificuldade, num terreno regular, tirando uns degraus junto a uma desafiante e bela queda de água. Aliás, a água é o elemento primordial que nos acompanha e que se manifesta em sons vivos e dispersos. A paisagem concede-nos uma massagem ocular que nos transporta para um mundo místico de sedutoras súcubos escondidas na luxuriante vegetação. É uma levada para se caminhar com tempo. No final, o pulmão e o coração abertamente agradecidos fazem-nos sorrir como se estivessemos um pouco mais novos. O percurso tem uma extensão de 6.8.km, ida e volta, que se completam em 2h:30m, num ritmo calmo e contemplativo.












As árvores de longos liquénes suspensos, pareciam indicar o caminho às nuvens carregadas de segredos.


Pela Levada do Alecrim somavamos passos e experiências sensoriais. A cada recando, o maravilhoso mundo dos musgos e dos líquenes surpreendia-nos com os seus pormenores de invulgar beleza. 









Por fim chegámos à Lagoa da Dona Beja, uma magnifica queda de água, na qual tentei congelar o tempo, mas sem grande sucesso,


Tenho amigos optimistas. Confesso estava de nervos espicaçados, a rogar pragas a quem tinha dito que eram 3 quilômetros sempre a direito, cheios de bichinhos por todo o lado, a saltar à nossa frente, contudo, até aqui, o que tinha observado foram urzes, magníficos líquenes e musgos, suportados por uma paisagem assombrosa, contudo faltavam os bichos. Quando nisto tudo mudou. Mais valia estar calado, silêncio e humildade só fazem bem.  Mas já era tarde demais, o mau feitio de vinagrete parvo já tinha transbordado em birra e tive que engolir as pragas e o azedume, quando vi um perfeito encanto esvoaçante.

Aos meus pés uma pequena ave colorida pulava irrequieta. Era a bis-bis (Regulus Madeirensis). Foi um momento de cumplicidade único. O bicho cercava-nos, nunca parou de ramo e ramo, entre o solo e os arbustos, mas colaborou ao ponto de quase pousar na cabeça de um dos meus amigos. Houve momentos em que não conseguia focar, de tão perto que a ave estava da objectiva. Foi a comunhão entre a natureza e uns simples caminhantes que por ali cirandavam atarantados. A admiração que ficámos por uma das mais pequenas aves da Europa foi inesquecível. A bis-bis parecia estar a apresentar-nos a Levada do Alecrim, onde ela reinava como estrela maior.











Mais à frente, quando chegámos à Lagoa da Dona Beja, encontrámos este tentilhão da Madeira (Fringilla coelebs ssp. maderensis). Trata-se de uma ave endémica do arquipélago da Madeira e da Macaronésia; é uma subespécie do tentilhão-comum. Foi um fiel companheiro durante as nossas caminhadas por esta levada e pela floresta Laurissilva.








Um momento de descompressão e de saudável parvoíce.  



O meu agradecimento aos amigos:

Bernardo Silva
Jose Semedo
Silva
Tom


sexta-feira, 20 de maio de 2022

Já chegámos à Madeira, ou quê? Um canário que não queria ser canário!

Nas traseiras do Palácio de São Lourenço no Funchal, um bando de 15 canários-de-terra perscrutava o relvado em busca de pequenas sementes. Quando os vi, rastejei sorrateiramente até às aves, qual inofensivo "sniper". Tudo isto para obter uma fotografia com um melhor ângulo e também com melhor luz. O meu lento avançar rastejante não passou despercebido aos muitos transeuntes que passavam pelo centro do Funchal; pensando eles, quiçá, que me tivesse dado uma coisinha má. Os meus amigos depressa descansaram as preocupações dos olhares curiosos com uma lacónico desculpa "está tudo bem, é maluquinho por passarinhos"





Já agora,  o canário-da-terra (Serinus canaria) é uma espécie selvagem que pode ser observada apenas nas ilhas dos Açores, Madeira e Canárias, e daqui surgiu as variações do canário doméstico com o seu belo canto que entretém a nossa nostalgia pelas manhãs de outras primaveras. Todavia, se estes canários-da-terra soubessem da clausura a que são submetidos os outros canários à janela, garantidamente, não permitiam que me aproximasse deles, nem a rastejar...






Dos mainás na praia de Carcavelos até oftalmologia

  mainá-de-crista Acridotheres cristatellus Nada melhor do que transformar uma ida à praia em várias coisas diferentes. Foi o que fiz naquel...